A teoria dos jogos, aplicada por seus grandes nomes

04/08/2010

Internacional

Sergio Lamucci, de São Paulo

Quatro vencedores do Nobel de Economia mostraram ontem a aplicação da teoria dos jogos a temas tão díspares quanto os impasses sobre o aquecimento global, as estratégias para evitar a guerra e mudanças no sistema eleitoral brasileiro. John Nash, Robert Aumann, Roger Myerson e Eric Maskin estiveram em São Paulo para participar do segundo workshop da Game Theory Society, que homenageou o primeiro deles no 60º aniversário do chamado "equilíbrio de Nash". Os quatro conversaram com um pequeno grupo de jornalistas, discutindo também assuntos como a conveniência de apertar a política fiscal nos países desenvolvidos e a reforma da regulação financeira nos EUA.

Nobel de 1994, Nash explicou por que, do ponto de vista da teoria dos jogos, os países não têm incentivos para adotar unilateralmente metas de redução da emissão de carbono, num cenário em que não há certeza de que outros países o farão e em que, segundo ele, não há unanimidade entre grandes cientistas sobre o aquecimento global. Aos 21 anos, ele escreveu uma tese de 27 páginas em que surgiu o conceito que se tornou conhecido como "equilíbrio de Nash". Por ele, cada participante de um jogo faz o melhor para si mesmo, considerando que os outros se comportam do mesmo modo, segundo explica o professor Mauro Rodrigues, da FEA-USP, no blog Sob a lupa do economista. Nash se tornou mundialmente famoso por meio do filme "Uma Mente Brilhante", vencedor do Oscar em 2002, que retrata parte de sua carreira acadêmica e sua luta contra a esquizofrenia.

Nobel em 2005, Aumann disse que preparar-se para a guerra e mostrar-se pronto para o conflito é o melhor caminho para o paz, como ficou claro na Guerra Fria.

Vencedor em 2007, Myerson sugeriu mudanças no sistema de votação para a Câmara dos Deputados brasileira, que permitam aos eleitores votar em mais de um candidato. Ele é especialista em desenho de mecanismos, área da teoria dos jogos que ajuda a entender e usar melhor os instrumentos para construir incentivos corretos, seja nas regras do sistema eleitoral, seja num leilão. Maskin, também Nobel em 2007, disse que a crise de 2008 não mudou suas crenças econômicas - na verdade, as reforçou. "Um economista como eu, preocupado com a questão dos incentivos, não acreditava que os mercados se autorregulam."

Abaixo, os principais destaques do que disseram os economistas:

John Nash

Aos 82 anos, Nash fala baixo, de modo tímido. Faz longas digressões durante as respostas. Segundo ele, a dificuldade de os países adotarem metas de redução de emissões de carbono pode ser entendida à luz da teoria dos jogos. O fato de não haver unanimidade em torno da questão do aquecimento global, disse Nash, é um obstáculo para que as nações se comprometam com objetivos nesse sentido. Há uma opinião majoritária quanto ao assunto, mas há cientistas de renome com um ponto de vista diferente, observou Nash. Segundo ele, sob a ótica da teoria dos jogos, não faz sentido que os países se comprometam com metas de redução caso outros países não o façam também. "Um país assumir sozinho a tarefa de salvar o planeta seria como uma ato de caridade, como doar dinheiro para a igreja mesmo que outras pessoas com a mesma renda não o façam."

Questionado sobre a tese do também Nobel Paul Krugman de que apertar a política fiscal nos países desenvolvidos pode levar a uma nova depressão, Nash disse considerar que a opinião do economista tem um viés mais político que econômico. "Krugman é um economista brilhante, reconhecido com o Nobel por sua análise do comércio internacional. Mas ele tem uma determinada linha política, está muito ligado à esquerda", afirmou Nash, lembrando o apoio de Krugman aos democratas. Nash não respondeu conclusivamente se acha que é o momento de se retirar os estímulos fiscais.

No fim da entrevista, Nash disse que o Nobel teve "um impacto tremendo" em sua vida. "Eu estava desempregado. Estava mentalmente estável, mas não em termos de carreira, de emprego", afirmou ele, hoje pesquisador na Universidade de Princeton.

Robert Aumann

Com 80 anos, Aumann exibe grande vitalidade. Para ele, a crise de 2008 não mostrou a falência da teoria econômica. "A crise pode ser muito bem entendida por meio da teoria neoclássica tradicional e principalmente em termos de incentivos", afirmou Aumann, para quem "talvez a crise tenha sido superestimada". Segundo Aumann, "erros foram cometidos, como indica o fiasco dos empréstimos do subprime", mas equívocos fazem parte de uma economia de mercado, que tem se mostrado bastante robusta - "estamos bem melhor hoje do que há 60 anos, quando surgiu o conceito de equilíbrio de Nash". "Quando se está no meio da situação, ela parece terrível, mas acho que a crise vai ser esquecida em quatro anos."

Aumann fez uma análise de como a teoria dos jogos pode ajudar a evitar a guerra. Elogiou o discurso do presidente Barack Obama ao receber o Nobel da Paz, em 2009, quando destacou que desejar a paz não é suficiente para obtê-la. Aumann deixou claro que, para ter a paz, é preciso estar preparado para a guerra, inclusive com armas, tanques e soldados. "Quem são os maiores campeões da paz na história? Os romanos. A 'pax romana' durou 400 anos", ressaltou Auman. E qual era o lema dos romanos? Se você quer a paz, prepare-se para a guerra. Isso pode não ser agradável ou bonito, mas a história prova isso repetidas vezes."

Como contraponto, citou o exemplo do primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, que em 1938 fez muitas concessões a Adolf Hitler. "Chamberlain disse na Câmara dos Comuns que havia trazido a paz. Não. Com suas concessões, ele trouxe a guerra."

Eric Maskin

O especialista em desenho de mecanismos acha cedo para apertar a política fiscal nos EUA. Para ele, "há algum risco de um duplo mergulho ou de uma depressão" caso se retirem os estímulos. "A recuperação ainda não é forte o suficiente para que se comece a fazer isso", disse Maskin. "Houve crescimento nos EUA no segundo semestre, mas bem abaixo do que se esperava. Apertar a política fiscal seria um erro sério de avaliação."

Maskin elogiou a reforma da regulação financeira assinada recentemente por Obama. Segundo ele, as falhas de regulação foram o principal problema que levou à crise de 2008. Os limites impostos à alavancagem das instituições financeiras e o aumento dos requerimentos de capital para empréstimos são os maiores passos na direção correta, segundo ele. Maskin disse ainda que a crise de 2008 não mudou nenhuma de suas convicções. Como alguém preocupado com a questão dos incentivos e os conflitos entre interesses individuais e da sociedade, explicou que nunca acreditou na ideia de que os mercados se autorregulam. "A teoria mostra que a regulação pelo governo é essencial para reconciliar os objetivos de instituições como os bancos e a sociedade."

Roger Myerson

Myerson falou de sua sugestão para mudar o sistema eleitoral brasileiro. Para ele, pode ser interessante permitir ao eleitor votar em mais de um candidato a deputado. A legislação atual, que possibilita a escolha de apenas um nome, incentiva os candidatos a se especializarem demais, defendendo interesses muito específicos. Os partidos, por sua vez, ficam enfraquecidos. Se o eleitor puder indicar mais nomes, os políticos não tenderiam a se voltar para nichos muito específicos, o que também abriria espaço para o fortalecimento das legendas.







 

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