11/08/2010
O Mundo
Presidente é forçado a endossar punições que o Brasil rejeitou em junho
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou ontem o decreto que adota as sanções impostas pela ONU ao Irã, contra as quais o Brasil votou no Conselho de Segurança dois meses atrás. Ao fazer o anúncio, o chanceler Celso Amorim disse que Lula, embora contrariado, pôs sua assinatura no documento porque o Brasil tem tradição de respeitar as leis internacionais, mesmo quando não concorda com elas. A ONU impôs sanções por considerar que o Irã não deu garantias suficientes à comunidade internacional de que seu programa nuclear tem fins pacíficos, como Teerã assegura.
Amorim afirmou, no entanto, que o Brasil não adotará as punições extras impostas pelos EUA e pela União Europeia. A medida brasileira terá poucos efeitos práticos porque o país não tem negócios com o Irã nas principais áreas afetadas: venda de armas e urânio, e atuação bancária.
Chico de Gois e Luiza Damé BRASÍLIA
Acontragosto, o Brasil vai adotar as sanções impostas pelo Conselho
de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o Irã. O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou ontem o decreto que
determina a aplicação das medidas no país. Na prática, porém, pouca
coisa ocorrerá, uma vez que o Brasil não fornece urânio para o Irã, nem
vende armas, nem os bancos brasileiros, que se saiba, mantêm relações
com empresas ou pessoas suspeitas de terrorismo ou com empresas
iranianas que tenham atividades relacionadas ao programa nuclear.
O
ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que a decisão do
governo brasileiro de ratificar as sanções se deu porque o país cumpre
as leis internacionais, mesmo discordando delas. Amorim fez questão de
afirmar que o Brasil não adotará, no entanto, as medidas extras
impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia nos últimos meses,
por exemplo, contra Teerã.
— O presidente Lula fez isso, de
certa maneira, contrariado, porque nós votamos contra essa resolução
(no Conselho de Segurança da ONU). Não acreditamos que essa resolução
que estabeleceu as sanções contribua para resolver o problema
principal, que é o programa nuclear iraniano — disse Amorim, em
entrevista coletiva.
Sanções dos EUA não serão seguidas
As sanções foram aprovadas na ONU como forma de pressionar o Irã a
deter o enriquecimento de urânio em níveis altos, uma vez que a
comunidade internacional não considerou suficientes as garantias de
Teerã de que seu programa nuclear tem fins pacíficos.
As sanções
têm como alvos bancos e empresas que cooperam com o setor de energia
nuclear iraniano. Pouco antes, o Brasil havia mediado, junto com a
Turquia, um acordo com o governo iraniano para trocar o urânio
levemente enriquecido por combustível para um reator nuclear. Mas o
acordo não foi considerado suficiente pelas potências mundiais com
assento permanente no Conselho de Segurança.
Ontem, Amorim fez
questão de lembrar que o acordo firmado entre Brasil, Turquia e Irã, em
maio, seguia as propostas da Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA) e também as recomendações contidas na carta enviada pelo
presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a Lula. Para marcar a
diferença entre a visão brasileira e a americana, Amorim condenou, mais
uma vez, as sanções unilaterais impostas pelos EUA ao Irã.
— O
Brasil está internalizando, embora sem concordar com elas, não só pelo
conteúdo de cada uma, mas também com o método neste momento, quando o
Irã fez, do nosso ponto de vista, uma abertura. O que estamos
internalizando são as sanções adotadas pelo Conselho de Segurança. As
sanções unilaterais, tanto dos Estados Unidos como da União Europeia,
do ponto de vista legal, nosso, não nos concernem — declarou.
O
chanceler brasileiro acredita que a medida não vai afetar a relação
entre os dois países. No entanto, disse que não poderia garantir que
haja alguma empresa com negócios nos Estados Unidos que prefira se
arriscar a ser alvo das sanções.
— Isso é um problema da empresa.
Não
será uma disposição legal brasileira — disse Amorim. — As sanções
multilaterais, que são da ONU, nós internalizamos porque somos
respeitadores da lei internacional, ao contrário de outros, que muitas
vezes praticam ações unilaterais, ou que, frequentemente, criticam os
direitos humanos de um lado e financiam governos que violam direitos
humanos de outros.
Nós seguimos a lei internacional.
Todas
as decisões tomadas pelo Conselho de Segurança da ONU precisam ser
cumpridas pelos países-membros da ONU, mesmo aqueles que tenham votado
contra, como o Brasil, no caso do Irã. Os países que integram o
organismo devem adotar as resoluções em suas legislações nacionais.
Esse
princípio está previsto nos artigos 25, 26 e 27 da Carta da ONU e o não
cumprimento consiste em desrespeito ao Direito Internacional Público.
Segundo o governo brasileiro, o Brasil é um defensor do
multilateralismo e, por isso, não cogita em qualquer hipótese
descumprir as decisões da ONU.
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