Suicídio diplomático
24/05/2010
Editorial
A
temerária operação diplomática empreendida pelo governo Lula para
salvar o mundo no Irã terminou como cena de contos em que tapetes
persas voam e magos saídos de garrafas curam todos os males:
esfumaçou-se no ar.
Infelizmente, ao contrário das fábulas, há
previsíveis desdobramentos objetivos contra os interesses do Estado
brasileiro — instituição perene, ao contrário de governos.
Ao
menos a descuidada operação feita em aliança com a Turquia, levada à
frente apesar dos alertas sobre a baixa ou nenhuma confiabilidade do
regime iraniano em conversações sobre o programa nuclear do país,
ajudou a se concluir de vez que, na diplomacia brasileira, tudo vale
para atingir um alvo estratégico: contrapor-se a interesses dos Estados
Unidos e aliados do Primeiro Mundo, o “Norte”.
No mesmo balaio,
encontra-se a preocupação quase obsessiva — embora legítima — de
aumento da influência mundial do Brasil, alvo também perseguido pela
sócia Turquia, desde o pósguerra candidata frustrada a entrar no bloco
europeu.
Apenas muita convicção ideológica podia levar o governo
a ir adiante numa empreitada com todas as condições de dar errado. E
deu, no melhor estilo das frases cômicas do Barão de Itararé. Recolocar
sobre a mesa, em Teerã, os mesmos termos do acordo proposto aos
iranianos, em outubro do ano passado, pela Agência Internacional de
Energia Atômica (AIEA), era infrutífero.
Naquela época,
considerando-se os estoques de urânio do Irã, as quantidades de
material a ser enriquecido fora do país representavam cerca de 2/3 do
total. Agora, pouco mais da metade. Ou seja, se levado a sério pela
comunidade internacional, o acerto seria muito menos eficaz como
instrumento para reduzir a margem de manobra de Ahmadinejad e aiatolás
no seu pouco disfarçável projeto de dotar a ditadura teocrática de
armamentos nucleares.
Em 2009, o Irã aceitou as condições
encaminhadas pela AIEA — com os Estados Unidos, é claro, por trás,
apoiados por Rússia e China —, para logo depois recuar. Na semana
passada, a cúpula de Ahmadinejad patrocinou uma festa em Teerã, com
direito a braços erguidos de Lula e Erdogan (Turquia), em comemoração
ao fechamento do acordo de outubro do ano passado.
A
indiscutível manobra para adiar a decisão do Conselho de Segurança da
ONU — em que Brasil e Turquia têm assentos não permanentes — sobre
novas sanções durou apenas horas. Os Estados Unidos aceleraram as
conversas com a reticente China e, logo na manhã seguinte àquela festa
— pelos fusos de Brasília e Nova York —, a secretária Hillary Clinton
anunciava o consenso com chineses e russos para apertar torniquetes das
sanções para obrigar Teerã a negociar a sério.
Nas declarações oficiais na ONU, a tentativa de Brasil e Turquia foi considerada positiva.
Nas
conversas francas, off the record, entre auxiliares de Barack Obama na
Casa Branca e repórteres, não se escondeu a irritação com Brasília e
Ancara. Com razão, pois postergar os trabalhos no CS é dar tempo para
Ahmadinejad obter mais urânio das suas centrífugas, cujo número tem
sido ampliado para elevar a taxa de enriquecimento do urânio.
Ao
ter ajudado, na prática, o Irã a buscar a bomba nuclear, Brasília
perdeu parte da credibilidade nos principais centros da diplomacia
mundial. Ficou mais longe do assento de titular no CS — entre outros
prejuízos, inclusive para a pessoa de Lula, visto agora com menos
daquele glamour de simpático metalúrgico que venceu na vida.
