Irã pede apoio de Rússia e México a acordo nuclear
24/05/2010
O Mundo
Prazo para remeter proposta à AIEA expira hoje. Líder do Parlamento ameaça romper trato em caso de sanções
Dando sinais de que o Irã está disposto a levar adiante o acordo
firmado na semana passada com Brasil e Turquia, o presidente iraniano,
Mahmoud Ahmadinejad, voltou a defender a ofensiva diplomática.
Apesar
das ameaças de algumas autoridades iranianas — como o presidente do
Parlamento, Ali Larijani —, de que o país cancelará o acerto caso seja
alvo de novas sanções econômicas, Ahmadinejad pediu ontem o apoio de
Rússia e México ao esquema para a troca de urânio pouco enriquecido por
combustível nuclear. Hoje expira o prazo para que Teerã envie à
apreciação da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) os termos
do acordo.
Alimentando declarações contraditórias de autoridades
iranianas e aumentando o clima de suspense, a agência estatal iraniana
“Irna” chegou a afirmar que o documento já havia sido entregue à AIEA.
A informação, no entanto, foi rapidamente desmentida pelo chefe do
programa nuclear iraniano, Ali Asghar Soltanieh.
Exército
iraniano faz jogos de guerra em Isfahan Em Teerã, num encontro com um
diplomata de Guiné-Bissau, o presidente Mahmoud Ahmadinejad pediu que
“países independentes e defensores da liberdade” contribuam para a paz
e a segurança globais. Afirmando que o acordo mediado por Brasil e
Turquia significa uma “nova era nas relações internacionais”,
Ahmadinejad disse ao Gabinete que sanções arranham a imagem do Conselho
de Segurança da ONU.
— Estamos monitorando de perto, mas vamos
fazer os inimigos causarem o menor dano à nação iraniana. Eles sairão
perdedores com ou sem resolução de sanções — afirmou o presidente à TV
estatal Irib.
Ontem, Ahmadinejad entrou pessoalmente na maratona
diplomática para fazer valer o acordo e evitar que a proposta de
sanções seja levada às Nações Unidas. Além de telefonar para o
primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, ele enviou ainda o
ministro das Relações Exteriores, Manoucherh Mottaki, às pressas ao
México, onde pretende recrutar o apoio do presidente Felipe Calderón
para engrossar o bloco antissanções formado por Brasil, Turquia e
Líbano no Conselho de Segurança.
Segundo a agência iraniana
Isna, Ahmadinejad criticou ainda a Rússia — membro permanente do
conselho — por seu apoio à proposta de sanções apresentada pelos
Estados Unidos. Após hesitar por algumas semanas, o Kremlin decidiu
apoiar a punição após receber garantias de que as novas sanções
econômicas não impediriam a concretização da venda de cinco mísseis
terra-ar S300 à república islâmica.
— Se estivesse no lugar de
autoridades russas, teria posição mais cautelosa. Espero que um país
vizinho e amigo defenda a declaração de Teerã — declarou Ahmadinejad.
O
presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, no entanto, reiterou
as ameaças de que o país pode cancelar o acordo assumido com Brasil e
Turquia caso sofra novas sanções.
— Se os EUA adotarem uma
medida aventureira no Conselho de Segurança, o acordo será esvaziado.
Se eles realmente buscaram as sanções, ridicularizaram dois países
importantes, como Brasil e Turquia — questionou.
O ceticismo
quanto ao futuro do acordo — que prevê o envio de 1.200 quilos de
urânio enriquecido a 3,5% à Turquia em troca de 120 quilos do material
físsil enriquecido a 20% — foi compartilhado também pelo presidente do
Comitê de Relações Exteriores do Parlamento de Teerã, Alaeddin
Boroujerdi.
— Vamos adotar uma política de esperar para ver. O
Irã tomará decisões de acordo com a evolução das coisas — disse ele à
agência “Mehr”, lembrando que os termos do acordo podem ser aceitos
parcial, integralmente ou mesmo rejeitados pela AIEA.
Apesar da
maratona diplomática para um desfecho pacífico ao impasse nuclear, o
comandante do Exército do Irã, Ahmad Reza Pourdastan, inicia hoje um
treinamento de três dias em Nasr Abad, na província de Isfahan. A
operação foi batizada de “Beit-ul-Moqaddas 22”, (casa sagrada, numa
referência à cidade de Jerusalém).
O ministro da Defesa,
brigadeirogeneral Ahmad Vahidi, classificou ainda de “insensatas” as
reações do Ocidente ao acordo de Teerã.