Impasse entre potências dificulta solução para a crise
17/07/2011
Relações diplomáticas e econômicas influenciam posição dos integrantes do Conselho de Segurança da ONU
Gustavo Chacra / NOVA YORK - O consenso inicial sobre os levantes árabes, com o pedido da comunidade internacional para a queda de Hosni Mubarak, no Egito, e de Ben Ali, na Tunísia, começou a se desfazer na Líbia e se transformou em divisão na Síria de Bashar Assad.
De um lado, EUA e França querem medidas duras contra o líder sírio. Para os dois países, Assad perdeu a legitimidade. Os dois países, assim como algumas nações europeias, adotam sanções econômicas unilaterais e defendem uma resolução condenando Damasco no Conselho de Segurança da ONU.
A China, e especialmente a Rússia, são contra uma resolução. A oposição fez Washington e Paris evitarem a votação de um texto na ONU, temendo o uso do veto por Moscou ou Pequim. Os argumentos de chineses e russos envolvem as relações geopolíticas e econômicas.
"Além disso, os russos não estão satisfeitos com os acontecimentos na Líbia", disse Ayham Kamel, da Eurásia, sobre os bombardeios da Otan contra o regime de Muamar Kadafi.
Rússia e China, assim como Brasil, Índia e África do Sul, que são membros rotativos do Conselho de Segurança, acusam os EUA e a Europa de terem ido além do autorizado pela resolução que estabelecia uma zona de exclusão aérea na Líbia. Eles temem que o mesmo ocorra na Síria, apesar de o texto proposto por americanos e franceses não falar em intervenção nem sequer em sanções.
O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, também disse durante a semana que existem "diferenças em relação à Líbia" no caso sírio. A resolução contra Kadafi foi apoiada pela maioria dos países árabes, além do Líbano, membro do Conselho de Segurança.
A Arábia Saudita, segundo analistas, evitou interferir diretamente nos acontecimentos. Por um lado, Riad vê com cautela uma queda de Assad, pois ameaçaria outros líderes árabes. Mas, ao mesmo tempo, o futuro regime sírio poderia se distanciar do Irã e se aproximar dos sauditas.
Teerã, segundo Firas Abi Ali, da Exclusive Analysis, será o último a abandonar o barco. "Mas alguns grupos em Israel ainda preferem Assad", diz. "Não é que Israel goste do líder sírio, mas ele era previsível", afirma Reva Bhalla, da Stratfor.
O Estado de S. Paulo - Analistas veem ''queda gradual'' na Síria
Três principais consultorias de risco político dos EUA e da Europa acreditam que Assad conseguirá se manter no poder pelos próximos meses, mas acabará saindo de cena e dará lugar a um Estado frágil, dominado por sunitas e sob forte influência da Turquia
Gustavo Chacra / NOVA YORK - O regime do ditador sírio, Bashar Assad, não deve ser derrubado nos próximos meses. Mas a intensificação da violência e possíveis rupturas em sua base de apoio indicam que, no longo prazo, ele deve sucumbir às pressões da oposição. Em seu lugar, provavelmente virá um governo fraco, sunita e influenciado pela Turquia.
Foi esse cenário que analistas das três principais consultorias de risco político do mundo traçaram em entrevistas ao Estado. "No fim, o poder alauita (grupo étnico-religioso de Assad) não sobreviverá. Mas isso não ocorrerá em menos de seis meses", disse Firas Abi Ali, da Exclusive Analysis, de Londres.
Para Ayham Kamel, da Eurasia, "a Síria - como a conhecemos nos últimos 40 anos - deixará de existir". Reva Bhalla, da Stratfor, acrescenta que, "no longo prazo, acabará sendo estabelecido um Estado controlado pelos sunitas". No poder desde o início dos anos 70, o atual regime - primeiro liderado por Hafez Assad e, na última década, por seu filho Bashar - equilibra-se sobre uma aliança entre a minoria alauita, cristãos e uma elite sunita de Damasco e de Aleppo.
Os protestos, por sua vez, reúnem a população rural e as camadas mais religiosas de cidades como Hama, reduto da Irmandade Muçulmana síria e palco de um massacre das forças de segurança há 29 anos. No momento, apesar dos protestos, o regime parece não sofrer o risco de uma queda abrupta. Segundo Bhalla, Assad preserva uma "base forte" e o Exército "ainda está unido". "O presidente mantém o apoio das seitas alauitas e dos sunitas seculares", afirmou o analista da Stratfor.
A estratégia da oposição é insistir nos protestos para enfraquecer o regime aos poucos, provocando rupturas nessa aliança sobre a qual se apoia Assad. E os especialistas acreditam que, no longo prazo, os opositores alcançarão seu objetivo.
As três consultorias preveem que a violência continuará, mas cada uma elabora um cenário diferente para os próximos meses. "Um governo no exílio deverá ser formado, com o auxílio da Turquia. Aos poucos, conseguirá o reconhecimento internacional e poderá assumir o poder no futuro", disse o pesquisador da Exclusive Analysis. Segundo ele, "será um Estado muito fraco, mas com importância geopolítica. Provavelmente, será controlado por sunitas similares aos tradicionalistas libaneses, da região de Trípoli." Esses sunitas têm um perfil secular, mas "arabista" - e não necessariamente alinhados com os EUA. Para o analista, os cristãos não devem correr riscos. "Mas alauitas que vivem nas cidades podem ser atacados."
Dentro e fora da Síria, a queda de Assad deixaria órfãos: a minoria alauita e as forças de segurança, além dos grupos Hezbollah, do Líbano, e Hamas, que controla a Faixa de Gaza. Outro ponto de consenso entre os analistas é a crescente influência turca. Importante parceira comercial da Síria, a Turquia decidiu se distanciar de Assad após os levantes. Segundo a Eurasia, a Turquia tem feito uma "pressão positiva" para que Assad aceite reformas.
"Provavelmente, o próximo regime sírio será aliado da Turquia e "menos amigo" do Irã", prevê a consultoria britânica. A Stratfor, por sua vez, crê que os turcos "já começaram a agir" e isso pode causar atritos com Teerã, "que depende da relação com Assad para fortalecer o Hezbollah".
Assad tem anunciado reformas e revogou a lei de emergência, mas a oposição afirma que as medidas são "cosméticas" e acusa o ditador de tentar ganhar tempo.
