Indesejados e necessários
26/12/2010
Ian Buruma
AliásEstá mais do que na hora de a Europa tornar cidadãos seus imigrantes econômicos
Baruch Spinoza, filósofo holandês do século 17, Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico do século 19, e Nicolas Sarkozy, presidente francês do século 21, têm uma coisa em comum; todos são filhos de imigrantes. Pessoas que migraram para outros países por milhares de anos - para fugir, prosperar, ser livres ou simplesmente começar de novo. E enriqueceram a pátria que adotaram realizando grandes coisas, ou produzindo filhos que o fizeram.
As novas ondas de imigrantes dificilmente são populares, mas, com frequência, são necessárias. Nos últimos 50 anos, muitos emigraram para países da Europa Ocidental, vindos do Norte da África e da Turquia, não por causa da generosidade ocidental, mas porque eram necessários para exercer atividades que os nativos não queriam mais realizar. Mas esses imigrantes eram tratados como trabalhadores temporários, não como imigrantes. Uma vez concluída a tarefa, a suposição é que retornassem a suas casas.
Quando ficou claro que muitos preferiram ficar e trouxeram as famílias, muita gente aceitou com relutância que eles se tornassem cidadãos de Estados europeus, mas não necessariamente que fossem tratados como tal, para os xenófobos, como também para os ideólogosde esquerdaque defendemo multiculturalismo, esses novos europeus são indivíduos totalmente diferentes dos nativos, embora por diferentes razões. Os que apoiam o multiculturalismo consideram as tentativas para integrar os não ocidentais uma forma de racismo neocolonialista, enquanto os xenófobos simplesmente detestam tudo que aparente, soe ou cheire estrangeiro.
Nós que vivemos em sociedades que envelhecem rapidamente, como a Europa Ocidental e o Japão, precisamos dos imigrantes. Sem eles, instituições tão necessárias como hospitais não teriam funcionários. Além disso, um número cada vez maior de pessoas idosas terá que ser sustentado por um número sempre menor de pessoas jovens. No entanto, muitos políticos tratam a questão da imigração como um desastre. Novos partidos populistas arrecadam um grande número de votos aterrorizando as pessoas sobre os supostos horrores do Islã ou do choque de civilizações. Para os populistas, porém, os verdadeiros inimigos - talvez ainda mais exe¬cráveis que os próprios imigrantes - são as "elites cosmopolitas", que toleram e até encorajam esses horrores. E os políticos da linha tradicional temem tanto ser vencidos por essa demagogia populista que acabam usando os mesmos argumentos.
O fracasso na integração dos imigrantes não ocidentais em países como França, Alemanha ou Holanda muitas vezes é exacerbado por alarmistas histéricos - a Europa, afinal, não está em vias de ser "islamizada". Mas o fato de alguns jovens de ascendência africana, asiática ou do Oriente Médio se sentirem tão alienados nos países europeus, onde nasceram, a ponto de assassinar seus concidadãos em nome de uma ideologia religiosa revolucionária, significa que alguma coisa está errada. No passado, filhos de imigrantes, mesmo sentindo-se indesejados, raramente pensaram em explodir os lugares pa¬ra os quais seus pais resolveram se mudar.
Em muitos países muçulmanos, os políticos também são culpados. O extremismo islâmico é um credo revolucionário útil para atrair jovens vulneráveis que, por meio dele, têm uma sensação de poder e participação. Hindus, cristãos ou budistas não têm essa motivação, e é por essa razão que o terrorismo político restringe-se amplamente aos muçulmanos. Mas, como mostram os distúrbios ocasionais que explodem em bairros de imigrantes na França, a violência não está limitada aos muçulmanos.
À parte os cidadãos da União Europeia, três outras categorias de pessoas têm permissão para se estabelecer na Europa: cidadãos das ex-colônias, como argelinos na França, indianos e paquistaneses na Grã-Bretanha ou surinameses na Holanda; "trabalhadores convidados" que chegaram nas décadas de 6o e 70; e refugiados políticos, os chamados requerentes de asilo. Ao contrário do Canadá ou dos Estados Unidos, os imigrantes econômicos não podem se tornar cidadãos em troca do seu trabalho tão necessário.
Os imigrantes - não os trabalhadores convidados - que vieram em busca de trabalho estão mais propensos a se integrar e ser tratados como cidadãos do país do que os que vêm das ex-colônias ou como refugiados, ou pior, pessoas que fingem ser refugiados porque não têm outra maneiras de alcançar o mercado de trabalho dos países ricos. Mas os Estados do bem-estar social europeu estão mais bem equipados para lidar com os requerentes de asilo e outros recém-chegados como dependentes necessitados do que com os que precisam de emprego.
Os filhos de trabalhadores convidados sentem-se indesejados. Os refugiados definham, impotentes, à espera de proteção social, ou sob suspeita de mentirem. E os cidadãos das ex-colônias, embora muitos estejam bem integrados, ainda guardam as cicatrizes das turbulentas histórias do império.
O Japão, e mesmo os Estados Unidos, não estão imunes a esses problemas. O governo japonês simplesmente se livrou dos seus trabalhadores convidados iranianos quando as vagas de emprego secaram. Mas não é tão fácil resolver o problema de centenas de milhares de chineses que vivem no Japão sem direito de cidadania. O mesmo vale para os mexicanos que trabalham nos Estados Unidos ilegalmente.
Milhões de pessoas emtodo o mundo continuam no limbo - quase sempre por necessidade, ou piedade, mas sempre indesejadas. Não há uma maneira fácil ou rápida de resolver o problema, especialmente em épocas económicas ruins. Mas a Europa -e o Japão, também - devem iniciar o processo, tornando a migração econômica legítima. Isso significa fazer um balanço detalhado das vagas que precisam ser preenchidas e acolher os que atendem às necessidades não como convidados, mas como cidadãos com direitos iguais. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
