Irã cumpre o primeiro passo

25/05/2010

Isabel Fleck

Mundo

Carta enviada à agência atômica da ONU oficializa acordo com Brasil e Turquia. EUA querem ver para crer

Agora, definitivamente, a bola está com as potências ocidentais. Depois de o Irã cumprir sua primeira obrigação no acordo firmado com Brasil e Turquia e entregar à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a carta na qual confirma os temos do acerto, é a vez de o Grupo de Viena — formado por Estados Unidos, Rússia, França e a própria AIEA — avaliar o texto e dar a sua resposta aos três países. Após a entrega da carta, em Viena, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, sinalizou novamente que esse processo pode “abrir caminho para uma solução negociada”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o “cumprimento da primeira parte” do acordo, enquanto o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, pediu ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, que apoie a aceitação do texto.

“Tudo aquilo que foi acordado conosco está começando a ser cumprido. Depois da carta vêm as conversas com a agência, vem o depósito do urânio na Turquia e, depois, o prazo para que o Irã receba o urânio enriquecido”, disse Lula em seu programa semanal de rádio. Segundo o presidente, o acordo assinado em Teerã é apenas “a abertura para começar” um processo de negociações. “É importante que o Brasil compreenda de uma vez por todas que nós não fomos lá para negociar acordo nuclear. (…) Fomos para tentar convencer o Irã a sentar-se à mesa de negociações, e isso nós conseguimos”, afirmou o presidente.

Na tarde de ontem, o chanceler Celso Amorim conversou por telefone com o diretor-geral da AIEA, Yukiyo Amano, que confirmou a entrega do documento e informou que a carta seria repassada imediatamente a EUA, França e Rússia. O chanceler disse que a carta enviada a Lula pelo presidente americano, Barack Obama, dias antes do acordo de Teerã, mostra que o governo brasileiro não se colocou como mediador sem apoio internacional. “Nós não íamos entrar nesse tipo de questão levianamente. Sempre procuramos ter em conta as opiniões e as preocupações de vários países, sobretudo dos Estados Unidos”, declarou. Na carta, Obama teria afirmado que a decisão do Irã de enriquecer urânio fora do país “geraria confiança e diminuiria as tensões”.

O assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, também sustentou que a atuação do Brasil não gerou mal-estar com os EUA. Ao contrário, teria feito aumentado o respeito ao país. “Governos que ficam de cócoras não são respeitados, se transformam em moças de recado. O Brasil respeita e sabe o papel que os Estados Unidos têm no mundo, mas tem suas opiniões”, afirmou. Para Garcia, se o diálogo não progredir, não terá sido culpa dos governos brasileiro e turco.

Incerto
Em Washington, o porta-voz do Departamento de Estado, P.J. Crowley, não demonstrou muito entusiasmo com o passo dado pelo Irã. “É incerto se a carta traz alguma coisa realmente nova. Mas vamos estudá-la de perto e vamos responder formalmente, por meio da AIEA, nos próximos dias”, disse Crowley. Sarkozy, por sua vez, agradeceu a Erdogan pelos esforços de Turquia e Brasil, mas declarou que o Irã deve abandonar o enriquecimento de urânio a 20%.“Continuemos em contato e vamos dar algum tempo para o diálogo”, afirmou o presidente francês.

Na carta entregue por diplomatas iranianos durante uma reunião na residência de Amano, em Viena, o chefe da Organização de Energia Atômica Iraniana, Ali Akbar Salehi, lista os cinco primeiros pontos da declaração, no qual se compromete a depositar 1.200kg de urânio levemente enriquecido na Turquia e permite à AIEA “estacionar observadores para monitorar a guarda do urânio” no país aliado.



Alianças na prisão

Enquanto aguardam a libertação, no Irã, a americana Sarah Shourd, 31 anos, e o compatriota Shane Bauer, 27, ficaram noivos na prisão de Evin, na capital, destino dos acusados de espionagem e de combater o regime islâmico. Os dois estão detidos desde 31 de julho de 2009, quando faziam uma escalada no Curdistão iraquiano, com outro americano, e cruzaram a fronteira . A notícia do noivado foi dada ao movimento Free the hikers (“libertem os alpinistas”) pelas mães de Sarah e Shane, que os visitaram na semana passada em companhia da mãe de Josh Fattal, para interceder pela libertação.



Enfim, livre

A Justiça do Irã ordenou ontem a libertação, sob pagamento de fiança, do cineasta Jafar Panahi, detido desde 1º de março sob a alegação de que estava realizando um filme considerado hostil ao regime islâmico. O anúncio foi feito no dia seguinte à premiação dos vencedores do Festival de Cannes, palco de manifestações pela libertação de Panahi, que deveria ter integrado o júri da competição. Vários premiados em Cannes, como o diretor francês Xavier Beauvois, vencedor do grande prêmio por De deuses e homens, exibiram cartazes com o nome do diretor iraniano.

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