Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita ao Real Gabinete Português de Leitura e entrega de Laurel de Gratidão - Rio de Janeiro, RJ, 08/03/2008

"Excelentíssimo Senhor Aníbal Antônio Cavaco Silva, Presidente da República portuguesa, e sua senhora Maria Cavaco Silva, Minha companheira Marisa Letícia Lula da Silva, Nosso querido anfitrião Sérgio Cabral, Governador do Estado do Rio de Janeiro, e sua senhora Adriana Ancelmo, Senhor José Pinto Ribeiro, Ministro da Cultura de Portugal, Senhor Antônio Braga, Secretário das Comunidades Portuguesas, e demais integrantes da comitiva que acompanha o Presidente Cavaco Silva, Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, Ministro, interino, das Relações Exteriores do Brasil, Senhor Márcio Fortes de Almeida, Ministro das Cidades, Embaixador Francisco Manoel Seixas da Costa, Embaixador da República Portuguesa no Brasil, Embaixador Celso Marcos Vieira de Souza, Embaixador do Brasil na República Portuguesa, Senhor Antônio Gomes da Costa, Presidente do Real Gabinete Português de Leitura, Minhas queridas e meus queridos sócios e amigos do Real Gabinete, Jornalistas aqui presentes, Senhoras e senhores, Receber o Laurel de Gratidão do Real Gabinete Português de Leitura é uma honra que não pode ser facilmente traduzida em palavras, ainda mais quando estamos nesta Casa dedicada à língua portuguesa. Recebê-lo neste momento tão especial, em que celebramos o bicentenário da transferência da corte de D. João VI para o Brasil, é distinção ainda maior, que só posso aceitar como tributo à irmandade entre os nossos povos. A vinda de D. João VI em 1808 abriu caminho para a independência do Brasil, mas também lançou as bases para a profunda e duradoura amizade que hoje une a ex-colônia e sua antiga metrópole. Independentes politicamente, Portugal e Brasil continuam irmãos em sua história e cultura comuns. É por isso que venho hoje, com grande prazer, ao Real Gabinete Português de Leitura, casa centenária, símbolo do patrimônio que compartilhamos. Para nós, brasileiros, o passado luso é motivo de orgulho e encontra expressão nas mais diversas facetas da vida nacional. Nossas culturas entrelaçam-se com tamanha identidade que nossos heróis e nossos poetas representam a alma de um único povo, ao mesmo tempo brasileiro e português. Muitas de nossas cidades, como Belém e Santarém, em seus nomes, evocam a saudade de um país que está na origem de nossa brasilidade. São Sebastião, o padroeiro desta cidade maravilhosa, homenageia um líder visionário que lançou Portugal no caminho da grandeza e o Brasil na contagem regressiva para a sua fundação. Nos bancos escolares lemos Fernando Pessoa como se fosse nosso. No cinema, teatro e televisão, brasileiros filmam e interpretam Eça de Queiroz com tanto desembaraço, que nos sentimos co-proprietários de suas obras. São centenas as agremiações fundadas no Brasil com o espírito de manter viva essa rica parceria: o time do nosso Governador, Vasco da Gama, clube fundado pelos portugueses, até associações onde se mantém vivo o folclore regional, como é a Casa do Minho. Tampouco, podemos esquecer de grandes instituições beneméritas, como a Beneficência Portuguesa. Essas entidades devem muito ao Real Gabinete Português de Leitura. Nesta casa, em 1931, foi fundada a Federação das Associações Luso-Brasileiras, que, desde então, mantêm acesa a chama da integração espiritual entre nossas duas nações. No campo da cultura, nenhuma instituição fez mais para preservar os laços que nos unem do que o Real Gabinete. Desde 1837, apenas 15 anos depois da independência do Brasil, esta Casa juntou uma coleção que soma 400 mil livros, hoje inteiramente informatizados. É com muito mais carinho que o Brasil preserva esta, que é a maior biblioteca de autores portugueses fora de Portugal. Quero agradecer, senhor Presidente, ao Governo português, pela zelosa colaboração para atualização e enriquecimento permanente desse acervo de conhecimento e erudição. Graças à generosidade portuguesa, a biblioteca recebe um exemplar de cada obra publicada em Portugal, uma deferência que beneficia apenas o Real Gabinete, entre as instituições fora do território português. É meu desejo que essa relação privilegiada entre Portugal e Brasil possa estender-se aos demais países lusófonos. Estou convencido de que por meio da CPLP podemos multiplicar experiências de cooperação tão sólidas e bem-sucedidas quanto a do Real Gabinete Português de Leitura. Meu caro amigo Presidente Cavaco Silva, Uma vez que estamos aqui nesta Casa da Cultura Portuguesa no Brasil, aproveito para evocar outro episódio memorável de nosso patrimônio comum. Neste ano também comemoramos o quarto centenário do Padre Antônio Vieira, o mais brasileiro dos portugueses e o mais português dos brasileiros. Além de figurar entre os grandes nomes da literatura de nossos países, distinguiu-se como defensor dos direitos dos índios e dos negros. Ele é mais um vínculo entre o nosso passado e futuro comum na busca por um mundo mais justo e mais solidário. Estou convencido de que as lições e valores recolhidos nas obras que cobrem essas paredes continuarão a iluminar próximas gerações nesta nossa caminhada. Muito obrigado."

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