"Volta ao mundo" (Folha de São Paulo - 15 de maio de 2005)
Jornal: Folha de São Paulo Título: 'Volta ao mundo' Crédito: Eliane Cantanhêde Data: 15/05/2005
Eliane Cantanhêde
BRASÍLIA - Veio a Condoleezza Rice, vieram os árabes e sul-americanos. E, agora, é Celso Amorim quem vai para Israel, nos dias 28 e 29. São todos movimentos combinados, pretensiosos e criticados, mas que, devagar e sempre, estão dando certo. O Brasil se aproximou da China e da Rússia, articulou o G-3 com a Índia e a África do Sul, liderou o G-20 para "brigar" com os grandes na área agrícola, sediou a reunião dos árabes com os vizinhos da América do Sul. Sem falar nas duas idas de Lula à África. Sozinho, o Brasil não tem cacife para movimentar mundos e fundos, revolucionar ares e mares. Mas está se colocando sempre no centro das discussões e com um foco muito nítido: evitar que o mundo se limite a todos os países girando como satélites em torno de uma única potência, os Estados Unidos. Se, sozinho, não consegue nada, o Brasil pelo menos descobre -e mostra- que os demais países e regiões não só concordam como gostam do movimento. Em geral, aderem a essas maluquices de Lula e Celso Amorim até com certo prazer. Ou você acha que líderes árabes ficam viajando de lá para cá assim à toa? O governo Lula é sistematicamente criticado pela mesmice na economia, pela desarticulação política e pela ineficiência na gestão social. Mas, na área externa, goste-se ou não dos rumos que vem tomando, ele está longe da mesmice, da desarticulação e da ineficiência. Ao contrário, é de uma ousadia e de uma coordenação inexistentes em outros governos e em outras áreas deste governo. Como tudo o que é ousado, há enormes riscos. Mas, sinceramente, às vezes é melhor arriscar do que se deixar arrastar pelo mais fácil, pelo óbvio e pela constatação de que é impossível mudar o mundo. Um pouco de utopia não faz mal a ninguém. Ainda mais quando a utopia não é só utopia.
