"O mundo de Lula" (The Economist [Reino Unido] - 03 de março de 2006)
Jornal: The Economist, Reino Unido Título: 'O Mundo de Lula' Data: 03/03/2006
Política externa do Brasil
Destaques das visões de Lula sobre as políticas regional e externa.
Sobre a Rodada de Doha de negociações do comércio global: "O Brasil está preparado para fazer a sua parte para ser flexível tanto na indústria quanto em serviços de forma proporcional ao peso de nossa economia... Não podemos simplesmente deixar essas negociações para os negociadores”, diz ele, instando os Chefes de Estado a solucionar algumas questões ainda não resolvidas.
Sobre a proposta de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) rejeitada por alguns líderes de esquerda: “Nós (o Brasil) retiramos a carga ideológica das discussões e optamos por enfatizar a reconstrução do Mercosul”, um grupo de quatro países sul-americanos com negociações de comércio mundial. “Nem os Estados Unidos, nem o Brasil, fazem da ALCA uma prioridade”.
Sobre o Mercosul: “O Brasil, como a maior economia do Mercosul, precisa ser mais generoso”, diz ele, citando um recente acordo para criar mecanismos de salvaguarda como “um gesto do Brasil para a Argentina”, a segunda maior economia do bloco. As relações já andaram tão deterioradas que os militares argentinos chegaram a pensar que Itaipu, uma gigantesca hidrelétrica Brasileiro-Paraguaia, iria inundar Buenos Aires. O Presidente da Argentina, Néstor Kirchner e ele estão agora “desmontando essa história”, diz Lula.
Sobre as Nações Unidas: Lula pede “reformas profundas” para reavaliar as “novas geopolíticas”. Como maior país da América Latina, o Brasil tem esperança de ter assento permanente no Conselho de Segurança. Lula lembra como, certa vez, questionou o Presidente da China, Hu Jintao, sobre sua oposição à entrega de um assento permanente ao Japão, um dos obstáculos à reforma. “Não podemos permitir que os problemas do século passado influenciem decisões que vão afetar os séculos futuros”, disse ele ao Presidente Hu.
Sobre a Venezuela: Lula diz que está tentando fazer com que Hugo Chávez e George Bush se encontrem para acertarem suas diferenças. “Chávez está convencido que foi planejado um golpe de estado contra ele para beneficiar interesses americanos. O Presidente Bush não aceita isso. Isso só será resolvido se eles conversarem. ·”.
Sobre Evo Morales, novo Presidente da Bolívia: A eleição do primeiro presidente indígena da Bolívia é “extraordinário”, comparável apenas à ascensão ao poder da maioria na África do Sul. Em vez de encorajar o exército e a polícia a erradicar a coca da Bolívia, os Estados Unidos deveriam considerar a possibilidade de comprar a produção por um preço melhor que o pago pelos traficantes de drogas. Morales, um líder de movimentos sociais radicais, descobriria assim, que “entre a teoria e a prática, existe uma lacuna maior que o Oceano Atlântico”. Lula parecia estar se referindo também a si próprio.
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Jornal: The Economist, Reino Unido
Título: 'Lula's world'
Data: 03/03/2006
Brazil's foreign policy
Highlights of Lula's views on regional and foreign policy
On the Doha round of global trade negotiations: "Brazil is prepared to do its part to be flexible in both industry and in services proportionally to the weight of our economy... We can't simply leave these negotiations to the negotiators," he says, calling for heads of state to settle some of the unresolved issues.
On the proposal for a Free Trade Area of the Americas (FTAA), rejected by some of the region's leftist leaders: "We [Brazil] removed the ideological baggage from the discussion and emphasised instead the reconstruction of Mercosur," a four-nation South American grouping, together with world trade talks. "Neither the United States nor Brazil is making the FTAA a priority."
On Mercosur: "Brazil, as Mercosur's biggest economy, needs to be more generous," he says, citing a recent agreement to create a safeguards mechanism as "a gesture by Brazil to Argentina", the second-biggest member. Relations were once so bad that Argentina's military thought that Itaipu, a giant Brazilian-Paraguayan dam, would flood Buenos Aires. Néstor Kirchner, Argentina's president and he are now "dismantling" this history, he says.
On the United Nations: Lula calls for "deep reform" to take account of "the new geopolitics". As Latin America's biggest country, Brazil is hoping for a permanent seat on the Security Council. Lula recounts how he once questioned China's president, Hu Jintao, about his opposition to a permanent seat for Japan, one obstacle to reform. "We can't allow the problems of the last century to influence decisions that will affect future centuries," he told Mr Hu.
On Venezuela: Lula says he is trying to get Hugo Chávez and George Bush to meet to resolve their differences. "Chávez is convinced that a coup attempt against him was organised to benefit American interests. President Bush doesn't accept that. This will be resolved only if they talk."
On Evo Morales, Bolivia's new president: the election of Bolivia's first indigenous president is "extraordinary", comparable with the advent of majority rule in South Africa. Rather than encourage the army and police to uproot coca from Bolivia, the United States should consider buying it, offering a better price than the drug traffickers. Mr Morales, a leader of radical social movements, would discover that "between theory and practice there is a gulf bigger than the Atlantic Ocean". Lula seemed to be referring to himself as well.
