Carlos Cavalcanti*

 

Em 27 de agosto de 2010, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, terá completado um dia a mais à frente da chancelaria brasileira do que seu patrono, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco.

 

Este, empossado em 1902, conduziu a diplomacia do país durante quatro mandatos presidenciais. Foram 3.357 dias. Ao fim da segunda gestão do presidente Lula e somado o período em que exerceu o cargo no governo Itamar Franco, Amorim completará 3.483 dias.

 

O barão, menos de um ano após sua posse, concluiu a negociação do Tratado de Petrópolis, que solucionou a então disputa fronteiriça com a Bolívia. Foi a primeira grande vitória diplomática de muitas que levariam à consolidação do território brasileiro.

 

Em sua obra, estabeleceu um novo paradigma para a política externa. Esta passou a se orientar pelo eixo dos assuntos do continente, fruto de aliança não escrita com os EUA, e pela meta do desenvolvimento.

 

Mesmo consagrado, o barão sempre foi alvo da crítica nos jornais, que o acusavam de excessivo "americanismo".

 

O ministro colheu a primeira importante vitória antes de completar um ano como chanceler de Lula. Em setembro de 2003, fez história ao bloquear o acordo de cunho protecionista entre EUA e União Européia e lançar as bases do G20 agrícola.

 

Como o barão, Amorim foi e é criticado, mas por um suposto "antiamericanismo" e por tomar decisões consideradas "ideológicas", como se um posicionamento pudesse ser desprovido de crenças e valores.

 

Para se apreender a magnitude e o sentido de sua obra é preciso compreender quais são essas crenças e valores.

 

Em sua posse, Amorim afirmou que o Brasil buscaria o protagonismo numa política externa voltada ao desenvolvimento e à paz, defendendo a igualdade entre os povos e a democratização do sistema internacional.

 

Para isto, a meta individual mais significativa é a reestruturação do Conselho de Segurança da ONU.

 

Amorim cumpriu quatro grandes tarefas diplomáticas em nível multilateral: reestruturação da Rodada Doha; reordenação da cooperação econômica internacional pela transformação do G-20 financeiro em G20 de líderes; constituição do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) e negociação com os americanos de um acordo sobre mudança do clima e o acordo com o Irã e a Turquia, que redirecionou a questão nuclear e deu maior condição ao país para ser mediador de conflitos internacionais.

 

Em cada tarefa, o ministro reuniu as duas condições básicas da ação política: fortuna e virtù. Com a última, soube compreender as rápidas transformações do sistema internacional e agarrar as oportunidades que a primeira lhe ofereceu.

 

Ele entende e critica o passado e olha o futuro sem medo. Há momentos em que a roda da história atropela os homens.

 

Em outros, os homens a conduzem. O ministro empurrou-a diversas vezes, sempre no sentido dos interesses brasileiros.

 

Por isso, o espírito do barão pode repousar despreocupado, porque o Brasil vê, com orgulho, que esse filho seu não foge à luta.

 

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*Carlos Cavalcanti é vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)

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