Espaço Aberto
José Mauricio Bustani é embaixador do Brasil em Paris
Se o desenvolvimento da informática e da internet representa uma revolução para a humanidade, no futuro próximo veremos mudança de magnitude talvez superior, com o surgimento de centros de simulação digital.
As tecnologias de simulação digital são um dos vetores da inovação e catalisadores da competitividade econômica. Sua aplicação se dá em diversos setores. Por meio delas é possível acelerar a pesquisa, reduzir os custos de produção e minimizar o impacto do desenvolvimento industrial sobre o meio ambiente.
As principais economias mundiais vêm desenvolvendo infraestruturas de supercomputação que lhes permitem aumentar exponencialmente sua potência de cálculo. Buscam multiplicar seus centros de processamento e colocar à disposição essa capacidade em benefício de toda a rede de pesquisa e de produção industrial, em particular as pequenas e médias empresas (PMEs). Não por acaso a simulação digital está entre as prioridades de investimento em pesquisa nos EUA, na Europa, no Japão e, recentemente, na China.
A implantação de centrais de processamento compartilhado é, hoje, um desafio para o desenvolvimento produtivo das grandes nações. É, também, uma oportunidade para novos atores emergirem e ganharem espaço no seleto grupo de países com alta capacitação tecnológica.
O Brasil já iniciou um programa ambicioso de sistemas de simulação digital em algumas universidades. Mas, diferentemente de outros países emergentes, ainda não dispomos de capacidade de computação entre os "Top 500" mundiais, o que poderá acarretar atraso na criação de setores intensivos em tecnologia e conhecimento e o consequente retardamento da estratégia de desenvolvimento de atividades de alto valor agregado.
Nesse contexto, ganha particular importância a parceria estratégica adotada entre Brasil e França, que expressa o desejo de ambos os países de fortalecerem a cooperação em diferentes áreas. Com respeito às tecnologias de informação, os presidentes Lula e Sarkozy, na Declaração Conjunta de 7/9/2009, decidiram "avançar na discussão de modalidades de cooperação para o desenvolvimento de supercomputadores e de computadores de alto desempenho, a fim de ampliar a capacidade brasileira nestes setores de ponta, inclusive mediante investimentos diretos e fortalecimento da infraestrutura industrial no Brasil".
O Ministério da Ciência e Tecnologia, em coordenação com o Itamaraty, vem mantendo contatos com interlocutores e instituições brasileiras e francesas, notadamente no âmbito do Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho (Sinapad), com vistas a definir a forma e os instrumentos pelos quais a cooperação poderá concretizar-se, mormente quanto ao aspecto crucial da transferência de tecnologia. O mais importante desdobramento dessa iniciativa foi a realização de seminário, em dezembro passado, no Laboratório Nacional de Computação Científica. Na ocasião, entre outras deliberações, acordou-se que a gestão política e institucional da parceria recairia conjuntamente sobre o Sinapad e o Grand Equipement National de Calcul Intensif, entidade encarregada de monitorar as atividades de computação de alto desempenho na França.
A iniciativa privada de ambos os países está igualmente engajada. Além dos contatos diretos entre empresários, o tema consta da agenda do Grupo de Trabalho Econômico e Comercial de Alto Nível Brasil-França, foro público-privado criado em 2009, e cuja terceira reunião se realiza em São Paulo neste início de setembro.
Não há dúvida de que o diálogo no âmbito da parceria estratégica com a França poderá contribuir para a introdução, no Brasil, de infraestruturas e serviços de simulação digital acessíveis às indústrias, PMEs, universidades e o próprio governo. Estou convencido tratar-se de oportunidade sem precedente para dotar o nosso país de um instrumento transversal de inovação produtiva e industrial, em diversas aplicações e áreas do conhecimento.
