"Entre interesses e valores" (Correio Braziliense - 09 de maio de 2006)

Jornal: Correio Braziliense Título: 'Entre interesses e valores' Data: 09/05/2006 Crédito: José Flávio Sombra Saraiva

José Flávio Sombra Saraiva *

Artigo


Não houve excesso de prudência do governo brasileiro no tratamento da crise

Precipitações de toda ordem marcaram as análises de inúmeros especialistas brasileiros ante a crise gerada pela nacionalização do gás boliviano. Crucificaram o excesso de prudência do governo brasileiro. Miraram as reações dos poderosos do centro do poder mundial, como espelho invertido, para reivindicar medidas imediatas de força, mesmo sem analisarem o conteúdo político e jurídico do decreto presidencial assinado pelo presidente Evo Morales. Aproveitaram a onda de denúncias e o clima eleitoral em curso no país para proporem o sepultamento do esforço de adensamento das relações internacionais do Brasil com seus vizinhos.

Assistimos a todo tipo de proposições. Algumas úteis à sociedade democrática, plasmada pelo pensamento livre e criativo. Além disso, a política externa não pode se circunscrever apenas aos palácios, governantes e os oficiais da diplomacia. E devemos mesmo ter alguma paciência perante matérias concebidas ao calor dilacerante das declarações dos atores mais envolvidos na crise ou mesmo por instruções de interesses inconfessos de fontes interessadas.

Decorrem alguns dias do tragicômico primeiro de maio, quase operístico, ensaiado pelo presidente boliviano. A reunião de Puerto Iguazú foi mais serena. A Petrobras passa a agir de forma pragmática na defesa dos seus acionistas. Iniciemos o processo de decantação dos fatos e inauguremos uma maneira menos intempestiva de lidar com as saraivadas a que estamos todos sujeitos na vida social e internacional dos povos.

Em primeiro lugar, não houve excesso de prudência do governo brasileiro no tratamento da crise. Houve, simplesmente, prudência. Valor maior nas relações internacionais, reivindicado pela tradição diplomática brasileira, a prudência é também uma orientação tática clássica e recorrente nos manuais que escrevemos para nossos jovens alunos da graduação nas universidades brasileiras e naquelas que, no exterior, tivemos a oportunidade de trabalhar.

A prudência permite que a negociação continue, que o diálogo se perpetue, que o brado aguerrido do agressor fique afônico, que se ganhe ao final a contenda. A vida internacional não pode ser regida pelo estado de natureza na forma estudada por Hobbes. E a prudência é também um fim. Isso pode ser visto na forma com a qual o Brasil operou a crise, e continua a operar, com racionalidade e competência acumulada.

Agregue-se a isso um novo sopro de vontade política em relação aos nossos vizinhos. Esse é o segundo ponto nevrálgico das críticas sem fundamento dos últimos dias. Como se isolar da América do Sul? Para que abdicaríamos do dever de relacionarmos valores e interesses na nossa primeira circunstância, se estamos fadados a conviver por muitos séculos?

O entorno estratégico de um país é sua vizinhança. Desde as primeiras civilizações sabe-se que os vizinhos exigem atenção contínua, política de cooperação, interação, sem perder de vista as noções do interesse nacional. O Brasil vem sabendo equilibrar os valores da integração aos interesses da expansão do capitalismo brasileiro na América do Sul, mesmo que seus críticos não reconheçam.

Em terceiro lugar, a Bolívia não é e nem será uma exceção no quadro de crises inerentes às interações societárias entre os povos da região. E ninguém terá condições políticas para reverter o curso da interação que se iniciou nos últimos anos. A relação é biunívoca e crescerá em dramaticidade, riqueza e ganhos mútuos. São crises episódicas de crescimento e amadurecimento.

Não é o fim da História. É apenas o começo o jogo. Estamos apenas no início de um ciclo de contração e expansão da região sul-americana, interna e externamente. A Europa padeceu quase meio século para sair de um sistema belicoso na direção da cooperação a qual tanto admiramos hoje. E mesmo assim a velha Europa anda cheia de contradições entre os interesses egoístas dos Estados nacionais e o projeto comunitário.

Finalmente, é nossa obrigação de Estado cultivar os melhores meios para articular a defesa das empresas nacionais em franca internacionalização na América do Sul com a lógica simultânea de integração regional. O equilíbrio das duas coisas, do interesse e do valor, é o que constrói lucros e confiança mútua entre as sociedades sul-americanas, evita intervenções estrangeiras, guerras fratricidas e populações em estado de guerra civil.

* José Flávio Sombra Saraiva é professor de Relações Internacionais na UnB
 

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