"Editorial - No Itamaraty, otimismo com cautela" (Gazeta Mercantil - 03 de março de 2006)

Jornal: Gazeta Mercantil Título: 'Editorial - No Itamaraty, otimismo com cautela' Data: 03/03/2006

O Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, definiu como "foco" da diplomacia brasileira para este ano "fechar o acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC) e fortalecer o Mercosul". Na entrevista concedida à editora executiva Cláudia Mancini, deste jornal, o chanceler insistiu em que não pretende desprezar os mercados ricos, "mas a ênfase tem que ser onde há mais oportunidades".


Os alvos estratégicos da chancelaria brasileira são sensatos e conectados aos interesses econômicos do País. O primeiro fato com que se constrói tal estratégia é a percepção de que o cenário do comércio internacional - pós entrada da China e Índia como "players" essenciais - é tão complexo quanto gelatinoso. Os danos de um único passo em falso nesse cenário são tão graves e com desdobramentos tão imprevisíveis que até a maior economia do mundo, a norte-americana, é cautelosa nos movimentos diplomáticos que faz. Por esse motivo, Amorim tem razão ao exibir significativa cautela ao afirmar: "Quando tivermos mais clareza sobre o formato global do acordo da OMC, vai ser mais fácil (o Mercosul) negociar com a União Européia".


Esta demanda por prudência não impede iniciativas do Itamaraty. Amorim insiste em que haverá um "grande esforço" para o cumprimento do prazo de 30 de abril para a próxima reunião da OMC. Desse modo, segundo o ministro, a proposta de um encontro de chefes de Estado e de governo "já fez efeito". A lógica negocial de Amorim é que lideranças não querem ser confrontadas e preferem fazer concessões antes, "para evitar o encontro". O perceptível otimismo do ministro até permitiu a frase: "Acho que vamos ter um bom acordo".


É possível que a perspectiva de Amorim se consolide. Vale lembrar que, na última semana de janeiro, o negociador comercial dos EUA em Davos, Rob Portman, afirmou que o presidente George Bush está "pronto" para participar do encontro de cúpula sobre comércio proposto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


O principal negociador americano em Davos ressalvou que as reuniões ministeriais previstas para março entre os principais atores (EUA, UE, Brasil, Austrália, Índia e Japão) pode quebrar o impasse, mas se não funcionar, como admitiu Portman, "estamos considerando a idéia do encontro de presidentes".


Há riscos na iniciativa brasileira, como os que motivaram a recusa do Japão em apoiar a idéia, por entender que um fiasco entre os chefes de Estado "poderia significar o enterro da Rodada Doha". Anteontem a Comissão Européia (o órgão econômico da UE) divulgou o documento "Iniciativa Econômica Transatlântica" analisando as dificuldades que os exportadores europeus encontram para fazer negócios ou investir nos EUA. O descumprimento pelos EUA de várias decisões da OMC (por exemplo, o fim das leis antidumping contra a UE) é outra reclamação enfática da Comissão Européia. Contra esse clima, obviamente, uma simples reunião de ministros pode muito pouco.


O segundo foco da diplomacia brasileira, o Mercosul, merece idêntica atenção. Afinal, como lembrou Amorim, a corrente de comércio Brasil/Argentina atingiu US$ 16,1 bilhões em 2005, a soma das exportações e importações dos dois países, uma conquista considerável. Porque esse é o padrão de integração comercial da primeira e da segunda economia do Cone Sul, Amorim insistiu em que o Mecanismo de Adaptação Competitiva (MAC), fechado há um mês entre os dois países, não restringirá o comércio, "apenas vai disciplinar".


O chanceler brasileiro tem clareza de que o maior problema do Mercosul é "encontrar mecanismo" para efetivamente aumentar o comércio do Uruguai e Paraguai com os demais países do bloco.


O cauteloso otimismo do ministro das Relações Exteriores é quase obrigatório. Afinal, como adiantou Pascal Lamy, diretor da OMC, "o grande desafio ainda está por vir, nos próximos meses", quando as conversações de livre-comércio global chegam, em sua opinião, "ao momento da verdade". A diplomacia brasileira está apenas preparando-se para esse momento.

 

kicker: O foco da diplomacia brasileira neste ano é fechar o acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC) e fortalecer o Mercosul.

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