"Desafio pós-Cúpula" (Correio Braziliense - 15 de maio de 2005)
Jornal: Correio Braziliense Título: 'Desafio pós-Cúpula' Crédito: Silvio Queiroz Data: 15/05/2005
Desafio pós-Cúpula
Em duas semanas, ministro Celso Amorim desembarca em Israel para a primeira visita de alto nível do governo Lula. Na pauta, ruídos causados nas relações bilaterais pelo encontro com líderes árabes em Brasília
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Silvio Queiroz
Da equipe do Correio
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, poderá dentro de duas semanas avaliar de perto as repercussões da Cúpula América do Sul-Países Árabes para a política externa brasileira. Ao final da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Coréia e Japão, entre os dias 23 e 28 próximos, Amorim vai separar-se da comitiva e seguir para Israel. A primeira visita de alto nível ao país no governo Lula, depois de mais de dois anos de esforço concentrado para abrir as fronteiras do mundo árabe, se realizará sob o impacto das críticas repetidas e incisivas da diplomacia israelense aos capítulos políticos da Declaração de Brasília, assinada pelos 34 países participantes da Cúpula. Segundo o Correio apurou, o tom da reação de Israel desagradou ao Itamaraty e causa alguma preocupação. “Se eles criarem um clima desfavorável, vamos ter de examinar as relações”, disse reservadamente um auxiliar próximo ao ministro.
O que parece não estar em cogitação é um recuo do governo brasileiro, tanto mais depois que o presidente Lula, em discurso no encerramento do encontro, ressaltou sua convicção de que palestinos e israelenses têm igual direito a um Estado independente. “Nós achamos que os israelenses não têm razão em suas queixas”, sustenta o diplomata. Em seguidas declarações à imprensa, a embaixadora israelense no Brasil, Tzipora Rimon, criticou a Declaração de Brasília por conter um parágrafo que afirma o direito de resistência à ocupação estrangeira — o que, na sua opinião, poderia servir como justificativa para o terrorismo.
“Um encontro do porte dessa Cúpula, com 34 países representados no nível mínimo de chanceler, mão poderia se esquivar de tratar temas políticos”, responde o embaixador Pedro Motta, diretor do Departamento de África do Itamaraty. “Isso não significa que estejamos ‘importando’ essas questões, mas que não somos omissos”, argumenta Motta, que participou diretamente das negociações sobre o texto final da Declaração.
Voz ativa
Ele pondera que o encontro de Brasília não debateu soluções para o conflito do Oriente Médio, mas identifica na tomada clara de posição sobre esse e outros temas um dos trunfos alcançados pela política externa brasileira com a iniciativa de realizar a Cúpula. “É bom que tenhamos mostrado a capacidade dessas duas regiões em desenvolvimento de contruir um consenso e se pronunciar sobre questões políticas mundiais. Fica claro que estamos participando e queremos ter nossa voz ouvida — esta a grande mensagem que estamos dando no plano internacional”, afirma o embaixador.
Pedro Motta avalia que, “do ponto de vista do que o Brasil se propôs, dentro da política de reforçar as relações Sul-Sul, a Cúpula não apenas atingiu plenamente os objetivos como superou nossas expectativas”. O balanço inicial é de que a reunião foi “um grande sucesso”, mas que não pertence indivudualmente ao governo brasileiro. “Não queremos marcar posição de liderança regional ou internacional: a presença maciça e em alto nível dos países convidados mostra que esse sucesso não se deve ao protagonismo de um único país”.
Ele destaca, entre os resultados do encontro, o estabelecimento de um roteiro preciso para a continuidade do processo iniciado em Brasília. Dentro de seis meses, a Liga Árabe promoverá, no Cairo, uma reunião de altos funcionários dos 34 países para uma avaliação da reunião e seus desdobramentos, em especial no terreno da cooperação econômica, tecnológica e cultural. Para 2006 está marcado um encontro em nível de chanceleres, em Buenos Aires. Ficou acertada também a realização da segunda Cúpula, em 2008, no Marrocos.
Democracia
O embaixador lembra que “desde a preparação” da Cúpula, o Itamaraty deu ênfase aos propósitos comerciais do encontro, e ressalta que também os parágrafos econômicos da Declaração de Brasília exigiram negociações trabalhosas. “Não apenas os temas políticos, como a questão palestina e o terrorismo, são complexos e delicados”, observa. Fácil, segundo Motta, foi apenas o entendimento sobre a agenda social, que inclui o apoio unânime à iniciativa brasileira por um programa mundial de combate à fome e à pobreza.
Embora negue que tenha sido discutida a inclusão de uma menção mais clara à democracia no texto da Declaração de Brasília, Motta entra na polêmica que se insinuou sobre o assunto na entrevista coletiva realizada ao final do encontro. "Jamais pretendemos trabalhar esse tema em uma reunião que congregou dirigentes de duas regiões distintas do mundo", sustenta o embaixador, que delega "aos foros apropriados" a discussão entre as diferentes concepções sobre o sistema democrático. "Tratamos a democracia pelo nosso exemplo e respeitamos o sistema de cada um", resume. "Não impomos nossa visão nem aceitamos que outras visões nos sejam impostas."
