Artigo "Um visitante cheio de autoconfiança" (jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung, Alemanha, 02/12/09)
Carl Moses, São Paulo
Nesta semana, a Alemanha receberá um visitante com muita autoconfiança. O Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, viaja à Alemanha como representante do “novo milagre econômico”, que superou as distorções da crise global de forma surpreendentemente rápida. Após poucos meses em crise, a economia brasileira voltou a crescer, ou seja, as perspectivas para 2010 são de um crescimento econômico de no mínimo 5%.
Há poucos anos, uma crise financeira deste porte teria atormentado o Brasil. Hoje, o país é financeiramente tão forte que o governo conseguiu incentivar a conjuntura do país com suas próprias forças e agora pode ajudar outros países em crise através do aumento de sua contribuição ao FMI. Em muitos setores, as multinacionais brasileiras encontram-se mundialmente em uma posição de ponta. Na bolsa de valores em São Paulo, que se encontra em alta, o banco espanhol Santander tem um valor maior do que o Deutsche Bank da Alemanha. Nunca antes houve tanto capital estrangeiro entrando no país. Isto torna o Real a moeda mais forte do mundo neste ano.
Nas cúpulas econômicas internacionais, o Brasil não negocia mais apenas o preço do café. Os brasileiros têm um peso forte nas conversações árduas sobre a liberalização do comércio internacional. Na discussão sobre o clima, igualmente, nada pode ser alcançado sem o país com a maior parte da Amazônia. De um lado, o Brasil é um dos principais pecadores em relação ao clima por causa do desmatamento da Amazônia. De outro, nenhuma outra potência industrial tem uma energia tão limpa como o Brasil, que produz grande parte de sua energia através de hidrelétricas. A maioria dos veículos no Brasil utiliza álcool produzido da cana-de-açúcar para a propulsão de seus motores. Lula pode apresentar no ano passado o menor nível do desmatamento das últimas duas décadas. E os brasileiros surpreenderam com suas propostas de reduzir os gases de efeito estufa. O volume de emissões deve ser 40% menor do que o previsto. Isto corresponde a uma diminuição das emissões em 20% comparado com o nível de 2005. Para a preservação das florestas, Lula espera contribuições financeiras dos países ricos que desmataram suas florestas a séculos atrás. Nenhum “gringo” pode esperar que o Brasil permita que a população na Amazônia passe fome debaixo das árvores, esclareceu Lula.
Quando o Goldman Sachs há seis anos criou o lema dos países Bric - Brasil, Rússia, Índia e China - como futuras potências econômicas, muitos ainda tinham dúvidas se o Brasil realmente caberia nesta categoria. Hoje o Brasil está entre as dez maiores economias do mundo. Dentro de dez ou quinze anos, deve ocupar a quinta posição no ranking, deixando países como a França e a Grã-Bretanha para trás. Na verdade, o Brasil hoje brilha mais do que os outros países Bric. Ao contrário da China, o Brasil é um país democrático, o país não é fonte de conflitos como a Índia, e a sua economia possui uma base mais ampla do que a da Rússia. Mesmo que a abundância de matérias-primas seja considerada com razão um dos pontos fortes do país, o Brasil não depende, como outros países emergentes, de um número reduzido de produtos de exportação. O país exporta automóveis e aeronaves de passageiros da mesma forma que minério de ferro e soja. Os compradores estão situados no mundo todo, e o cliente mais importante não é mais os EUA, mas a China.
A nova autoconfiança do Brasil vem de dentro. Na última crise, as vantagens do grande mercado doméstico em crescimento dinâmico foram comprovadas. O poder aquisitivo, fortalecido por anos de política de estabilização, facilitou o crescimento vigoroso de uma classe média explicitamente consumista. A política social de Lula, que recebeu muitos elogios, ajudou doze milhões de famílias a saírem da miséria. O efeito multiplicador fez com que o Nordeste, antigamente sinônimo de pobreza, se torne uma nova região de crescimento para comércio e investimentos.
No entanto, não é tudo um mar de rosas e existem fatores limitantes. Os juros reais continuam sendo astronômicos e freiam tanto o consumo quanto os investimentos. Sem a ajuda dos poderosos bancos estatais, é quase impossível comprar uma máquina ou construir uma casa. O governo parece ter gosto em conduzir as grandes companhias pelo cabresto. Uma burocracia sufocante e impostos elevadíssimos e cobrados de maneira ineficiente desestimulam a economia. O grande apagão, que há pouco deixou 40 milhões de brasileiros por uma noite sem luz, demonstrou a fragilidade da infraestrutura. Mas o que conta não é o retrato do momento, e sim o processo evolutivo. Ele segue há bastante tempo uma tendência positiva que dificilmente se reverterá.
A economia alemã, que ocupa posições-chave no Brasil, espera novos negócios na preparação da Copa do Mundo de Futebol no Brasil em 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016 no Rio de Janeiro. A urgência extraordinária destes grandes eventos deve fazer com que os investimentos em estádios, transporte e segurança não sejam adiados, como de costume, para um futuro incerto e indeterminado.
