Artigo "Solidariedade que faz diferença" (O Globo - 28 de dezembro de 2004)

Jornal: O Globo Título: 'Solidariedade que faz diferença' Data: 28/12/2004 Crédito: Helena Chagas

 

A ajuda financeira dos países desenvolvidos demora a chegar e a população haitiana começa a reagir com hostilidade às tropas da ONU - chefiadas pelo Brasil e com 1.200 brasileiros em suas fileiras. Os pessimistas de plantão acham que estamos entrando numa enrascada diplomática.


Afinal, ao aceitar comandar as tropas de paz das Nações Unidas no Haiti, o governo brasileiro comprometeu-se até a raiz dos cabelos com um desfecho favorável que depende mais da comunidade internacional do que de nós.


Ainda assim, os "amigos do Ronaldo" fazem o maior sucesso entre os haitianos. E um dia em Porto Príncipe é capaz de dissipar o pessimismo e deixar no visitante o sentimento de que, com todas as incertezas e dificuldades, o Brasil está fazendo a diferença no Haiti.


O chanceler Celso Amorim, que foi conferir pessoalmente na semana passada, retornou convencido de que o Brasil está fazendo a coisa certa. Do ponto de vista político, das relações internacionais e, sobretudo, humanitário.


No país mais miserável das Américas, a presença do Brasil é visível não só nos capacetes azuis dos soldados da Minustad (como são chamadas as forças de paz). A bandeira brasileira está hasteada ao lado da haitiana em frente à casa do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, invadida por rebeldes e desocupada sem derramamento de sangue em negociação comandada pelos brasileiros. Até agora, apesar do acirramento dos ânimos, ninguém rasgou a bandeira. Nem os outdoors em que aparecem Ronaldo e outros brasileiros.


Nas ruas de Porto Príncipe, depois do jogo da seleção com a presença do presidente Lula, em agosto, a reação aos brasileiros é sempre de simpatia.


É verdade que a cidade tem um aspecto arrasado, crianças tomam banho no esgoto, há ruas cheias de lixo. Cinzentas casas incompletas, em número impressionante, levam o visitante a imaginar se foram destruídas em distúrbios de rua, enchentes ou furacões -- ou se simplesmente não foram acabadas.


Aqui e ali, porém, vê-se movimento de gente colocando um tijolo no muro, uma parede subindo. Ou surge na paisagem um prédio colorido de roxo, verde e vermelho. No trânsito caótico, aparece um carro caindo aos pedaços, mas coberto de cores e desenhos psicodélicos. Presságios, quem sabe, de que as coisas possam melhorar na ex-colônia que sediou a primeira rebelião de escravos negros do mundo.


Celso Amorim emocionou-se ao distribuir mate- rial escolar a crianças hai- tianas numa escola que as tropas brasileiras reforma- ram e que agora se chama Duque de Caxias. Apresen- tou-se como "amigo do Lula e do Ronaldo". Foi cercado, festejado e aplaudido.


Na rodada de conversas com o governo provisório do primeiro-ministro Gerárd Latortue e com líderes da oposição, ouviu opiniões diversas sobre a ação da Minustad e diferentes prognósticos a respeito das eleições do segundo semestre de 2005. Para uns, a ONU tem sido omissa - até agora, saiu apenas 40% da ajuda prometida. Outros queixam-se de que o governo provisório utiliza-se autoritariamente das forças de paz. Uma única unanimidade entre os interlocutores haitianos: a presença do Brasil tem sido fundamental, e não só do ponto de vista militar.


O chanceler passou a visita afirmando que a ajuda do mundo ao Haiti tem que ser econômica, social e humanitária. Levou representantes de oito ministérios para tratar de programas que vão da doação de material escolar à cooperação para projetos agrícolas, além de ajuda para registro de nascimentos, alistamento eleitoral e campanhas de desarmamento. A Secretaria da Igualdade Racial e o Ministério da Cultura, por sua vez, planejam mega-shows com artistas brasileiros e haitianos. A ministra Matilde Ribeiro visita o Haiti em fevereiro. Gilberto Gil pode fazer lá um show.


Tudo o que se fizer, porém, ainda é pouco. O recado de Amorim - que admitiu rever a missão brasileira em seis meses caso a comunidade internacional não colabore - parece surtir efeito, a julgar pelo menos pela reação da França. Tudo indica que alguma ajuda financeira vai aparecer. Até porque, embora razões humanitárias pareçam sensibilizar cada vez menos, os ricos sabem que o Haiti está a meio caminho de se tornar um "narcoestado" - o que é ruim para todos.


Seja qual for o desfecho, porém, o Brasil sairá maior dessa aventura. Sobretudo por mostrar que pobre pode ajudar pobre.

 

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