Joana Duarte, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - Em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, o ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz em 2005, não esconde a sua satisfação com o acordo sobre a troca de combustível nuclear mediado pelo Brasil e pela Turquia em Teerã no último dia 17. Para o ex-diplomata egípcio, a decisão do governo iraniano de firmar a declaração representa um ponto de partida para a ampliação das negociações sobre o programa nuclear iraniano. ElBaradei, de 67 anos, diz que se surpreendeu com a reação de alguns países ao afirmarem que continuariam com o projeto de sanções ao Irã. Neste sentido, alerta: Esta insistência em se conseguir tudo antes de começar a negociar é a razão pela qual desperdiçamos seis anos na questão iraniana. Sanções levam a um beco sem saída, e novos confrontos virão.
O senhor se surpreendeu quando o Irã aceitou assinar a Declaração de
Teerã coordenada por Brasil e a Turquia?
Não me surpreendi nem um pouco. Estive envolvido nessas negociações
durante muitos anos, quando ainda era o diretor-geral da AIEA, cargo que
ocupei até novembro do ano passado. Sempre considerei que o diálogo é a
única verdadeira solução para o programa nuclear iraniano, e fico feliz
que o Irã tenha firmado o acordo através dos bons ofícios da Turquia e
do Brasil. Mesmo depois de ter deixado a agência atômica, mantive
contato com Celso Amorim e o ministro das Relações Exteriores da
Turquia, encorajando-os a prosseguir nos seus esforços. O que me
surpreendeu foi a reação de alguns países de afirmar que continuariam
com o projeto de sanções ao Irã. Se Teerã retirar mais da metade do seu
material nuclear do país e enviá-lo à Turquia, isso será claramente um
esforço de construção de confiança e revelará as intenções do Irã de
cooperar. O combustível que permanecerá no país estará seguro, sob
salvaguardas da AIEA, e não há absolutamente nenhuma ameaça iminente de
que o Irã irá desenvolver uma bomba a partir deste material. O acordo
deve ser compreendido como uma medida de confiança inicial, um passo à
frente dado pelo Irã, que decidiu finalmente estender a sua mão e dizer
que está pronto para negociar. Alguns meses atrás, em setembro, Obama
afirmou que estava pronto para negociar com o Irã sem condições prévias.
Agora, o Irã respondeu, e eu esperava que a oferta seria vista como um
ponto de partida para as negociações. É claro que há uma série de outras
questões não resolvidas, como, por exemplo, a razão de o Irã continuar a
dizer que vai enriquecer urânio a 20% mesmo depois de receber o
combustível necessário para o seu reator de pesquisas. Mas todos nós
sabemos que estas questões só serão resolvidas através do diálogo.
Decidir prosseguir com as sanções mesmo depois deste acordo seria
totalmente contraproducente. É como não aceitar o sim como resposta. Em
qualquer negociação, nunca conseguimos tudo o que queremos no início.
Esta insistência em se conseguir tudo antes de começar a negociar é a
razão pela qual desperdiçamos seis anos na questão iraniana. Espero que
os países que ainda insistem em adotar sanções repensem a sua posição.
Sanções, em minha opinião, levam a um beco sem saída, e novos confrontos
virão.
Em junho do ano passado, o presidente americano Barack Obama fez um
discurso no Cairo prometendo uma nova política americana para o Oriente
Médio. O senhor acha que Obama mudou de ideia no que diz respeito ao
Irã?
Não estou certo de que a postura de Obama representa um retrocesso ao
seu comprometimento anterior, e espero que não seja o caso. Também não
acho que a questão do Irã é representativa da abordagem americana para o
mundo muçulmano em geral. Como sabe, existem alguns países vizinhos que
também estão preocupados com o programa nuclear iraniano. Há muita
desconfiança, e minha preocupação é que, se sanções forem adotadas,
vamos polarizar os hemisférios Norte e Sul. Se de um lado há países como
Brasil, Turquia, África do Sul e outros do Hemisfério Sul apoiando a
negociação, e, de outro, países ocidentais com um ponto de vista
completamente contrário, exigindo sanções, isso seria muito perigoso,
porque você vai continuar a ter uma linha divisória entre o Norte e o
Sul sobre uma questão que só pode ser resolvida através de negociações.
No passado, o senhor rejeitou a ideia de um ataque ao Irã, comparando-o à
guerra no Iraque, onde 70 mil civis morreram pela suspeita de que o
país tinha armas nucleares. O senhor acha que Israel está mais perto
hoje de atacar o Irã do que alguns anos atrás? Quais seriam as prováveis
consequências de um ataque?
Eu não acho que Israel está mais próximo de um ataque ao Irã, e e espero
que não esteja, porque seria uma loucura. Um ataque poderia transformar
o Oriente Médio em uma bola de fogo, não resolveria a questão iraniana,
e seria um incentivo ao Irã para o desenvolvimento de armas nucleares,
mesmo que o país não tenha a ambição de desenvolver essas armas agora.
Um ataque provavelmente atrasaria o programa nuclear iraniano por um ou
dois anos, mas o Irã certamente voltaria com uma missão clara de
desenvolver a pior arma possível. Quando um país é bombardeado, quando
perde a sua dignidade, ele volta com a arma mais poderosa que puder
arrumar. Podemos aprender com a história que a humilhação de um país não
é uma solução, pelo contrário, acaba fortalecendo os políticos
linha-dura. Estremeço só em pensar na implicação de um ataque ao Irã
para o resto do Oriente Médio. Vimos o Iraque ser atacado sob a
pretensão de mudança de regime. Depois de sete anos, o Iraque é hoje um
foco de instabilidade, de atentados suicidas. Vi, na sexta-feira, uma
pesquisa sobre quais as cidades mais habitáveis do mundo. O relatório
classificou mais de 200 cidades, e Bagdá ficou em último lugar por causa
de toda a instabilidade e da insegurança que existe lá. Temos bons
exemplos para entender que qualquer opção militar conduziria a um
desastre.
De acordo com o último relatório da AIEA sobre o Irã, não há qualquer
evidência de que o país esteja desviando seu combustível nuclear para
fins bélicos. Ao mesmo tempo, os inspetores da agência afirmam que não
podem realmente ter certeza, porque o Irã não assinou o protocolo
adicional, que permitiria mais inspeções. O senhor acha que a ameaça do
programa nuclear iraniano é exagerada?
Se uma ameaça significa a possibilidade iminente de o Irã desenvolver
armas nucleares, não temos nenhuma evidência disso, pelo menos até eu
sair da agência, há apenas seis meses. Na época, não havia qualquer
indicação de que o Irã estivesse desenvolvendo armamento nuclear. Assim,
a ideia de que o Irã é uma ameaça nuclear no presente ou que conseguirá
armas nucleares no próximo mês ou em dois meses é totalmente exagerada,
e acho que esta avaliação é tambem compartilhada por todas os serviços
de inteligência americanos e de outros países ocidentais.
O senhor acha que os EUA deveriam aceitar a participação de países
emergentes como Brasil e Turquia na mediação de assuntos de relevância
internacional?
Com toda a certeza. Acho que a comunidade internacional tem muitos
países responsáveis que devem tentar mediar conflitos em regiões
diferentes do mundo. Precisamos levar em conta não apenas a abordagem
das potências ocidentais, mas também de países do Hemisfério Sul como o
Brasil e a África do Sul. Todos estes países que estão emergindo como
potências econômicas devem também exercer o seu soft power e sua
influência para assegurar que tenhamos um mundo equilibrado.
O senhor já confirmou a sua intenção de concorrer à Presidência do Egito
no ano que vem?
Ainda não. Continuo dizendo que só concorrerei se houver a garantia de
uma eleição justa e transparente. Não farei parte de um sistema que
carece de legitimidade, de justiça e equidade. Estou tentando aqui no
Cairo pressionar por mudanças, e essa é a minha prioridade agora.
