Artigo "Percepção sobre economia brasileira melhorou'' (Valor Econômico, 02/12/2009)

Interlocução política também contribui para a coordenação bilateral em outras esferas das relações externas

O ministro-conselheiro Tovar da Silva Nunes, um profundo conhecedor das relações Brasil-Alemanha, diz que os olhos alemães trocaram o Leste europeu pelas economias promissoras como a brasileira. Na opinião do atual chefe de chancelaria da Embaixada do Brasil na Alemanha, que já representou o país anteriormente na França, Suíça, Equador e Reino Unido, o estreitamento das relações políticas de alto nível entre os dois países ajudará no aumento do fluxo comercial nos próximos anos. E explica que o forte déficit na balança que o Brasil mantém com a Alemanha há 15 anos pode ser explicado, em parte, pelo "efeito Roterdã". A seguir, os principais trechos da entrevista.

DESEMPENHO NA CRISE
A percepção alemã sobre o Brasil melhorou de forma significativa desde o início da crise mundial, em virtude da manutenção da estabilidade econômica do país e da retomada do crescimento, graças à condução responsável da economia ao longo dos últimos anos, à firme regulamentação do setor bancário e às medidas tomadas pelo governo para conter os efeitos da crise. O jornal Handelsblatt, principal diário econômico alemão, publicou recentemente uma série de 12 grandes reportagens sobre a economia brasileira e personalidades de destaque nas esferas política, econômica e cultural. A viagem do ministro Karl Theodor von Guttenberg ao Brasil meses atrás, em plena campanha eleitoral na Alemanha, acompanhado de importante comitiva empresarial, para participar do 26° Encontro Econômico Brasil-Alemanha, em Vitória (ES) reforçou o diálogo econômico em alto nível. A presença do presidente Lula demonstrou o empenho brasileiro em fortalecer as relações econômicas com a Alemanha. Essa interlocução política é importante, também, para melhor coordenação bilateral em outras esferas de atuação fundamentais da política externa brasileira, como, por exemplo, no âmbito do G-20, no qual Brasil e Alemanha praticamente partilham da mesma posição: maior regulamentação do mercado financeiro internacional, de modo a evitar no futuro crises sistêmicas semelhantes à atual. Igualmente no âmbito do G-4, relacionado à reforma do Conselho de Segurança da ONU, Brasil e Alemanha pleiteiam, juntos, um assento permanente.

INVESTIMENTOS DIRETOS
Existe uma convicção por parte da liderança política e empresarial alemã de que o potencial oferecido pelo Leste europeu - que era prioridade até há algum tempo - se esgotou. E os alemães voltam-se, agora, para os grandes países emergentes. O volume de investimento direto da Alemanha no Brasil tem evoluído positivamente, especialmente nos últimos sete anos. Segundo dados do Banco Central do Brasil, em 2002, o fluxo de investimento estrangeiro direto (IED) alemão atingiu US$ 628,3 milhões, com participação no total investido no Brasil de 3,3%. Em 2008, o IED alemão quase dobrou, chegou a US$ 1,04 bilhão, mas a participação caiu para 2,4% do total. Isso se deve, em parte, ao fato de que o Brasil foi um dos dez países que mais atraíram IED em 2008, com um recorde de US$ 45 bilhões, metade do que foi captado por toda a América do Sul.

BARREIRAS À EXPANSAO
O que mais impede a instalação de novas empresas, brasileiras e estrangeiras, é uma certa dose de burocracia. Segundo relatório do Banco Mundial, o Doing Business 2009, que avalia a facilidade em fazer negócios, o Brasil ocupa apenas a 127ª posição no ranking mundial. As maiores dificuldades estão relacionadas à abertura de empresas, que requer mais de 16 procedimentos, enquanto a média nos países da América Latina é de 5,7 procedimentos. Os empresários estrangeiros apontam ainda outro aspecto que dificulta a instalação de empresa no país: o complexo e pesado sistema tributário. Apesar desses fatores, o Brasil tem recebido muitos empreendimentos externos, inclusive da Alemanha, o que prova que o país continua a oferecer grandes oportunidades ao capital estrangeiro.

SETORES MAIS ATRAENTES
Em 2008, o IED alemão concentrou-se mais nos setores de fabricação de borrachas (US$ 300,8 milhões), autopeças (US$ 156,2 milhões) e produtos químicos (US$ 88,7 milhões). No início de 2009, os maiores investimentos foram direcionados para o setor automobilístico (US$ 1, 76 bilhão). No que se refere à entrada de novas empresas no Brasil, muitas alemãs têm demonstrado forte interesse por projetos de infraestrutura relacionados ao PAC e à Copa do Mundo de 2014. Além disso, destaca-se também o grande interesse de empresas de tecnologias sustentáveis, as chamadas “green tech”, para a geração de energia eólica, solar fotovoltaica, biogás, entre outras.

PRESENÇA BRASILEIRA
O mercado alemão representa um grande potencial para empresas brasileiras, já que é o maior mercado da Europa e é considerado a porta de entrada para os demais países europeus. Nota-se um aumento no investimento estrangeiro direto brasileiro na Alemanha, além de crescente interesse de empresas de pequeno e médio portes em começar ou ampliar exportações ao mercado alemão. O mercado interno brasileiro é muito grande e o apoio e os estímulos que vêm sendo dados pelo governo para a internacionalização dessas empresas são fundamentais para a ampliação dos investimentos no exterior. Atualmente, as principais empresas brasileiras presentes na Alemanha são Sadia, Banco Itaú, Banco do Brasil, IAM, Sabó (atua no mercado alemão sob o nome Kako), Ambev, Tupy, Grupo Votorantim, Conquest One (empresa de informática).

BALANÇA COMERCIAL
As relações comerciais entre Brasil e Alemanha têm-se fortalecido enormemente, em especial ao longo das duas últimas décadas. E hoje já representam mais de um quarto dos negócios brasileiros com toda a União Europeia. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, entre 1988 e 2008, as exportações para a Alemanha passaram de US$ 1,5 bilhão para US$ 8,9 bilhões, com taxa média de crescimento anual de aproximadamente 25%. Porém, as importações brasileiras da Alemanha cresceram ainda mais, passando de US$1,4 bilhão, em 1988, para US$12 bilhões, em 2008, aumento médio anual de cerca de 38%. Isso fez com que o déficit para o Brasil no ano passado ficasse em US$ 3,1 bilhões. Nesses vinte anos verifica-se, entretanto, uma mudança favorável ao Brasil no que diz respeito à pauta de produtos exportados. Em 1988, 52,5% das exportações à Alemanha eram produtos de base. No ano passado, a exportação de produtos industrializados é que foi a maior parte: 51,3%. O Brasil, porém, continua importando da Alemanha produtos industrializados ou semi-industrializados, que possuem maior valor agregado, gerando uma situação deficitária. Se considerarmos o tamanho das economias alemã e brasileira, podemos concluir que ainda há muito espaço para promover o aumento no fluxo do comércio e investimentos entre os dois países. Acredito ainda que essa situação deficitária do Brasil no comércio poderá ser modificada nos próximos anos. O eixo central da cooperação com a Alemanha reside, hoje, na aplicação de conhecimentos na produção industrial para agregar valor aos nossos produtos. O Brasil tem progredido bastante no que se refere à diversidade e à dimensão de sua produção industrial e prestação de serviços. E esse contexto poderá gerar mais benefícios para a pauta comercial brasileira.

DÉFICIT
A Alemanha é o único grande parceiro comercial com o qual o Brasil tem déficits comerciais nos últimos anos devido a alguns fatores. Em primeiro lugar, o chamado “efeito Roterdã". Segundo as estatísticas alemãs, em 2008 o Brasil teve um superávit com a Alemanha, enquanto as estatísticas brasileiras registraram déficit. Isso pode ser explicado pela metodologia distinta que os dois países utilizam para colher os números de comércio exterior. Ocorre que parte do que é exportado pelo Brasil à Alemanha é internalizada na União Europeia pelo porto de Roterdã, e não entra em nossas estatísticas como exportações para a Alemanha, e sim para a Holanda. Outra parte da explicação é justamente a natureza do fluxo comercial: a Alemanha continua importando grande quantidade de produtos básicos do Brasil e exportando produtos industrializados, o que tende a gerar déficit para o Brasil. Também é preciso considerar que, até o ano passado, a Alemanha era o maior exportador do mundo, tendo sido superada só recentemente pela China. Com essas credenciais, não é muito difícil de entender por que razão temos dificuldade em gerar superávit comercial com esse gigante exportador. Vale destacar ainda que as maiores importadoras de produtos alemães no Brasil são empresas alemãs instaladas no Brasil. Considerando isso tudo, vemos que o quadro é muito positivo. Mas o Brasil tem bastante espaço e pode aumentar as vendas para o mercado alemão, o que tende a ocorrer com a ajuda dos programas de exportação do governo. Além disso, é preciso dar continuidade ao desenvolvimento e à cooperação tecnológica com empresas alemãs, para que as mesmas não precisem importar seus insumos e passem a produzi-las no Brasil. O foco na inovação tecnológica da cooperação bilateral e a insistência na abertura à importação de outros tipos de produtos brasileiros são fundamentais para mudar o quadro deficitário para o Brasil no comércio com a Alemanha.

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