Artigo "Para inglês ver" (Folha de São Paulo - 09 de fevereiro de 2005)

Jornal: Folha de São Paulo Título: Para inglês ver /Opinião Data: 09/02/2005 Crédito: Ricardo Seitenfus

Embora tardia , é positiva a supressão do caráter eliminatório do exame de inglês no concurso de ingresso no curso de formação de diplomatas do Instituto Rio Branco (Ministério das Relações Exteriores). Republicana, põe fim à vantagem da qual desfrutava um pequeno grupo social composto, entre outros, pelos familiares de diplomatas.

Não basta que a Constituição imponha a necessidade de concurso de provas e títulos para o acesso a cargos públicos. Assim como o resultado de uma licitação está a depender do edital que a convoca, ou a concessão de um título de doutor pode vincular-se à composição da banca examinadora da tese, a organização do exame de ingresso no Rio Branco está umbilicalmente ligada aos resultados que se pretende obter.

Todo processo seletivo é precedido de um dilema. Deve-se identificar algum tipo de aptidão intelectual supostamente indispensável ao exercício da função pretendida, fazendo com que sua aferição seja de caráter eliminatório; ou, ao contrário, todas as aptidões serão arroladas segundo critérios classificatórios?

O concurso do Rio Branco prevê três fases: as duas primeiras são de caráter eliminatório. Ou seja, caso o candidato não alcance uma pontuação mínima em cada uma das disciplinas aferidas, ele será excluído do certame. Na terceira fase, onde se insere, entre outras disciplinas, a avaliação de conhecimentos de línguas estrangeiras, é necessário atingir uma pontuação mínima total.

Portanto, contrariamente ao enfatizado por grande número de jornalistas, por alguns ex-embaixadores e acadêmicos surfistas de uma flagrante inverdade, não está em questão uma suposta eliminação do inglês. A mudança preconizada busca corrigir uma distorção provocada anteriormente pelo francês e agora pelo inglês.

O conhecimento de idioma estrangeiro integra um rol de predicados indispensáveis ao diplomata. Trata-se de um utensílio de trabalho e de um veículo transmissor de idéias. Nada mais. Um processo seletivo que coloca num mesmo patamar de exigências o conteúdo da formação intelectual com o instrumental, que se limita a permitir sua expressão em diversos idiomas, é, no mínimo, reducionista e desequilibrado.


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Não está em questão uma suposta eliminação do inglês. A mudança preconizada busca corrigir uma distorção

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Ainda mais grave: a aferição de conhecimento do inglês alcançou grande complexidade, o que praticamente obriga o candidato a eleger a língua de Shakespeare como a segunda língua materna e a ter residido por razoável período no exterior. Quantos jovens brasileiros desfrutam dessa oportunidade?

O resultado do atual sistema seletivo salta aos olhos quando se consulta a lista de sobrenomes dos atuais diplomatas e a compara com as listas das gerações precedentes. Mais do que em qualquer outra carreira profissional, ocorrem indiretamente sucessões hereditárias, em muitos casos desde o século 19. A tradição da carreira diplomática não lhe subtrai o caráter de função de Estado, cujo exame, para aferir a capacidade dos candidatos, subordina-se rigorosamente à transparência, à legalidade e à impessoalidade.

A mudança introduzida não objetiva desconsiderar uma aptidão, como erroneamente apontou a mídia. Busca tão somente não a supervalorizar a ponto de provocar uma distorção no certame. O sistema atual exerce uma discriminação entre os candidatos, configurando uma situação incompatível com o Estado de Direito, com a organização da República e com os direitos fundamentais da cidadania brasileira.

Apesar de escassos, os interesses contrariados desfrutam de grande apoio na mídia. Todavia a opinião pública brasileira merece algo mais, não a cortina de fumaça que envolve a suposta discussão. Impressiona e choca a maneira pela qual o tema é conduzido. A quase unanimidade da crítica decorre de uma desconcertante superficialidade e de um "achismo" constante. Há má-fé, além dos inevitáveis inocentes úteis. Julgamentos sumários e alegações estapafúrdias de "antiamericanismo" associam-se a ataques pessoais, próprios das sarjetas morais onde chafurdam os agressores.

De uma maneira mais geral, como explicar a contradição entre a forma como a mídia brasileira analisa a política externa do atual governo e o tratamento elogioso e respeitoso que ela recebe dos meios de comunicação, governos e sociedades estrangeiros?

O que mais surpreende é o fato de que as críticas à atual política externa originem-se quase que exclusivamente na grande mídia, não nos partidos de oposição. Trata-se de uma distorção da prática da democracia e do papel da imprensa. De todas as maneiras, uma conclusão se impõe: somos nós, leitores e, juntamente conosco, a verdade, as principais vítimas deste não-debate, típica manobra diversionista para inglês ver.

 

Ricardo Antônio Silva Seitenfus, 56, doutor em relações internacionais pelo Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Genebra (Suíça), é professor titular de direito internacional público e de organizações internacionais na Universidade Federal de Santa Maria (RS). Atualmente, integra o grupo de mediadores políticos da ONU no Haiti. Autor de, entre outras obras, "Relações Internacionais" (editora Manole).

 

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