Artigo "País adota heterodoxia na política externa" (Valor Econômico - 28 de fevereiro de 2005)
Título: 'País adota heterodoxia na política externa' Data: 28/02/2004 Crédito: Francisco Góes Do Rio
Entrevista
Para pesquisadora do Iuperj, governo Lula tem procurado diversificar as parcerias estratégicas
A política externa do governo Lula é mais assertiva do que a da era Fernando Henrique Cardoso na busca por uma participação ativa do Brasil nas esferas multilaterais nas quais são definidas as regras políticas e econômicas. A opinião é de Maria Regina Soares de Lima, pesquisadora do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj).
Maria Regina avalia que o governo atual procurar conferir ao país um protagonismo externo que extrapola a esfera das negociações comerciais. No artigo "Aspiração Internacional e Política Externa", que esta publicado no atual número da revista da "Revista Brasileira de Comércio Exterior", editada pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Maria Regina diz que o governo Lula mostrou que é possível combinar política econômica ortodoxa com heterodoxia na política externa.
A heterodoxia se manifesta em uma estratégia que tenta ser autônoma ou independente, diversificando as parcerias estratégicas além das potências hegemônicas, como os Estados Unidos. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.
Valor: Como a Sra. avalia a política externa do governo Lula?
Maria Regina Soares de Lima: O Brasil está mostrando que é possível combinar política econômica ortodoxa com heterodoxia na política externa. Provou que não é preciso haver convergência entre as duas políticas. No governo anterior, o importante foi restabelecer a credibilidade do Brasil como país democrático, que respeita os direitos humanos, um país que desistiu de ter um projeto de potência e de nuclearização das Forças Armadas. O governo Lula não abdicou da questão da credibilidade, mas a política externa tornou-se mais assertiva.
Valor: Em que sentido?
Maria Regina: No sentido de que o Brasil busca participação mais ativa nas esferas multilaterais nas quais são definidas as regas econômicas e políticas internacionais. Essa estratégia é bem clara em esferas políticas como a Organização das Nações Unidas (ONU). O Brasil está ativo na discussão sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU. Mas acima de tudo está a idéia de que o Brasil precisa ter participação política forte, de que o país tem de participar de espaços onde as potências estão presentes.
Valor: A aspiração de ter assento permanente no Conselho é antiga. O que mudou?
Maria Regina: O voluntarismo brasileiro por si só não leva a nada. Essa é uma questão complexa e o Brasil não necessariamente será bem-sucedido. O tema percorre a história brasileira desde a Liga das Nações. No governo anterior (de Fernando Henrique Cardoso), a questão foi desenfatizada face à prioridade dada ao restabelecimento da credibilidade externa. Na atual administração, volta a ganhar força a idéia de buscar certo protagonismo político que extrapole a esfera das negociações comerciais. O governo Lula vê que, apesar de o poder estar concentrado, a ordem pode ser multipolar.
Valor: A formação do G-20, grupo reunindo Brasil, China e Índia, foi uma forma de buscar protagonismo nas negociações comerciais multilaterais?
Maria Regina: A criação do G-20 mostra que as discussões na Organização Mundial do Comércio (OMC) têm natureza política. A formação do grupo representou a ação coletiva de países semelhantes ao Brasil, muito embora os interesses nem sempre sejam coincidentes. Mas o que uniu esses países foi a dimensão política. Nem sempre deve-se pensar a política externa pelos resultados econômicos imediatos. Do ponto de vista político, é mais difícil avaliar os resultados. Apesar de não ser um ator (relevante), o Brasil tem de se preocupar com que as regras não sejam impeditivas, no futuro, de seus projetos de desenvolvimento.
Valor: Mas surgiram críticas dentro e fora do Brasil de que o país estava emperrando as negociações da OMC, da Alca...
Maria Regina: Há sempre uma visão de que os resultados devem ser imediatos, de que se não há dividendo econômico imediato, a estratégia negociadora não é boa. Há outro aspecto complicado na avaliação da política externa, que é a visão soma zero. Sempre que o foco sai do circuito "Elizabeth Arden" (o mundo desenvolvido), surge a impressão de que o Brasil está dando preferência a outros países. A visão é de que, se o Brasil busca a África e a Índia, está substituindo a relação com os Estados Unidos. É impossível substituir a relação com os EUA, pois ela representa estruturalmente cerca de 20% das exportações brasileiras. Também existe, em alguns círculos, a visão de que o Brasil não deve ter protagonismo político. Essa é a visão do Estado mercantil, Estados de dimensão geográfica pequena, como a Coréia do Sul.
Valor: Em quais segmentos prevalece essa idéia?
Maria Regina: Em entrevistas que fiz com a burocracia americana, há uns dez anos, já prevalecia a idéia de que o Brasil tinha pretensões políticas além de sua capacidade.
Valor: Mas um recente relatório da CIA coloca o Brasil como potência no futuro.
Maria Regina: Como fizeram há 20 anos. Estou dizendo que é mais uma questão de atitude dos que defendem que o Brasil não deve ter protagonismo político. Mas se você for ver a história da política externa brasileira no século 20, verá que sempre prevaleceu na elite a idéia de que estava reservado ao país um lugar na comunidade das nações. Há uma aspiração brasileira nesse sentido. O Brasil tem um destino que não é só o de ser um Estado mercantil, como foram alguns asiáticos, nos anos 80, países exportadores que nunca tiveram protagonismo político.
Valor: Qual é o custo de ter liderança política na região?
Maria Regina: Qualquer liderança tem um custo. Há o custo econômico, que exige investimento. Mas por outro lado existe o benefício político que passa pela coordenação da ação coletiva na América do Sul, que pode ser exercida pelo Brasil. Isso exige ter papel político na mediação em países da região. O Brasil pode impedir que conflitos regionais tenham implicações negativas para o país. Como? Tentando intervir na negociação, sendo chamado para isso como no caso da Colômbia e Venezuela. Mas a contraparte é onerosa. O benefício político é de mais longo prazo. Mas a vantagem do Brasil é que o país é maior e tem comércio mais diversificado do que os demais países da região. Um papel mais ativo de coordenação significa abrir mão de certos exclusivismos de política. Mas é o momento de discutir o assunto. Existe a aspiração de ter protagonismo, mas, ao mesmo tempo, o Brasil é muito voltado para dentro. Precisamos internalizar a política externa na sociedade brasileira até porque ela é uma política pública. Qual foi a discussão que houve em relação ao envio de tropas ao Haiti?
Valor: A estratégia adotada pelo Brasil no Haiti pode se mostrar um erro político?
Maria Regina: Eu valorizo a dimensão política desse gesto. Mas é claro que quando um país começa a ter atuação externa maior as conseqüências também podem ser negativas. Nem tudo dará certo. No Haiti, há certa defasagem entre o que se esperava e o que está ocorrendo. Mas bem ou mal a posição brasileira colocou o Haiti na agenda porque o Haiti estava esquecido. A tendência a meu ver, no sistema internacional, é que essas situações sejam esquecidas. O Haiti não tem petróleo, não é estratégico, então como diz a expressão inglesa "let them burn" (deixe eles queimarem). Nos interessa deixar eles queimarem? É uma mudança de perspectiva do modo de pensar.
Valor: Qual a sua visão sobre os desdobramentos da negociação sobre a Alca?
Maria Regina: A Alca não andou por força dos Estados Unidos, até pela força da Flórida, e de seus interesses protecionistas, na reeleição do presidente George Bush. O Brasil já definiu que interessa ao país negociar acesso a mercado com os Estados Unidos e os americanos querem discutir regras. Isso é um impasse. Em um acordo no formato 4+1 (Mercosul-Estados Unidos), as ambições americanas terão de ser diminuídas porque, ao Brasil, interessa discutir regras na OMC, onde existe mais possibilidade de jogo. Se o governo Bush não quer que a Alca naufrague, algum acordo é possível, mas os EUA terão de reduzir suas ambições.
Valor: No seu artigo, a senhora identifica diferenças na evolução da política externa brasileira no século 20. Quais são elas?
Maria Regina: A política externa oscilou a partir de meados do século 20 entre dois modelos. Um dos modelos é baseado na idéia de relação especial com os Estados Unidos e que encontra paralelo na relação dos Estados Unidos com a Inglaterra. Essa relação implica vantagens em relação a outros países. O outro modelo é o da autonomia. Ele se caracteriza pela idéia de diversificar parceiros para além do hemisfério. A diversificação tem por base equilibrar um pouco a relação assimétrica com a potência dominante. É o caso da França, que sempre viu sua relação com Europa como contrapeso à presença americana dominante no continente. O importante é a diversificação da dependência e do relacionamento. Esse modelo está associado à ênfase na relação regional. No caso do Brasil, a autonomia na política externa aparece nos discursos das elites no século 20 como forma de sair do hemisfério para contrabalançar a presença e o poder americano. O modelo da autonomia tem vários exemplos na história brasileira no século 20.
Valor: A relação especial pode significar a submissão de um país ao outro? O ex-chanceler argentino Guido Di Tella cunhou a expressão relações carnais para referir-se ao desejo de entendimento mais próximo entre Argentina e EUA...
Maria Regina: Essa frase jamais sairia da boca de qualquer autoridade brasileira, porque relações carnais significam relações incondicionais. A expressão quer dizer: "Serei aliado independente do que ocorrer." Penso que em parte da elite brasileira poderia até haver esse tipo de adesão, mas do ponto de vista da política oficial acho que, mesmo nos momentos em que a relação foi mais estreita com os Estados Unidos, como no pós-64, seria difícil ter essa posição.
