Artigo "Oportunidade histórica" (Correio Braziliense - 12 de setembro de 2006)
Jornal: Correio Braziliense Título: 'Oportunidade histórica' Data: 12/09/2006
A visita ao Brasil do primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, tem potencial para fazer história além do simbolismo de ser a primeira de um chefe de governo da maior democracia do mundo em 38 anos - desde Indira Gandhi, filha do primeiro governante do país após a independência, Jawaharlal Nehru. Nessas quatro décadas, ambos os países mudaram profundamente. A Índia, de aliada da hoje extinta União Soviética, passou a parceira de confiança dos Estados Unidos, inclusive na delicada área da tecnologia nuclear. O Brasil, que na época entrava no período mais difícil do regime militar, agora busca na democracia caminhos para enfrentar desafios nem tão novos: distribuir renda, erradicar a miséria extrema, consolidar um ciclo durável de desenvolvimento inserido na economia globalizada.
Ainda que com importantes diferenças, são duas potências regionais que coincidem na pretensão de projetar sua influência no cenário mundial. Igualmente, compartilham agendas típicas de países em desenvolvimento que lutam por espaço para seus produtos no comércio internacional, bem como por condições mais justas de competição com as potências industriais. Ambos têm na massa populacional um possível trunfo para o futuro, mas ao mesmo tempo um desafio urgente - mais agudo na Índia, com seus mais de 1 bilhão de habitantes e enormes bolsões de pobreza.
Especial atenção merece a reunião prevista para amanhã, quando se juntará ao presidente Lula e ao premiê Singh o chefe de Estado da África do Sul, Thabo Mbeki. A primeira reunião de cúpula do Fórum de Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (Ibas) deverá marcar o estabelecimento de um grupo de trabalho com a missão de aplainar o caminho para um acordo de livre comércio entre os dois países e o Mercosul. As trocas entre Brasil e Índia estão no patamar de US$ 2 bilhões, e a expectativa é de alcançar a marca de US$ 5 bilhões até o fim da década.
Índia e África do Sul foram duas direções estratégicas claramente definidas para a política externa do governo Lula desde o discurso de posse. No início de 2004, o presidente brasileiro foi visitar o gigante asiático. Ao lado de Alemanha e Japão, os dois países formularam uma proposta para a reforma das Nações Unidas, incluindo os quatro como membros permanentes de um Conselho de Segurança ampliado para representar a nova ordem mundial. Quanto à África do Sul, que também coleciona complementaridade e assimetria com o Brasil, a aproximação foi iniciada com o fim do regime racista do apartheid, em 1994, e igualmente se acelera nos últimos anos.
Para que o vasto potencial de cooperação se materialize em iniciativas concretas, porém, visão estratégica e de futuro é apenas um requisito inicial. Projetos e declarações de intenção saem do papel quando ganham o sopro de vida do espírito empreendedor, balizado por planejamento realista e consistente, sujeito a controle e avaliação periódicos. O avanço palpável, ainda que modesto, pode criar condições para que o trio reunido agora em Brasília ocupe seu espaço na ordem global multipolar em formação.
