Artigo "O político mais popular do mundo" (jornal Neue Zürcher Zeitung, Suíça, 19/11/09)
De Wolfgang Kunath, Rio de Janeiro
Ele era engraxate em São Paulo, tornou-se presidente do Brasil e transformou seu país de um Estado em crise em uma potência econômica: Luiz Inácio Lula da Silva é a criança-prodígio da política mundial – e o queridinho de seu povo. A história de um grande lutador.
Às vezes ele é impiedoso nas bobagens que diz. Na crise financeira, a culpa era do “comportamento irracional dos homens brancos de olhos azuis”, afirmou ele em março, deixando um pouco aturdido o premiê britânico Gordon Brown, que estava ao seu lado. Windhoek é tão limpa que é quase possível esquecer que se está na África – assim ele causou um silêncio constrangedor na Namíbia. Se Jesus fosse presidente do Brasil, ele precisaria se aliar a Judas, defendeu recentemente; a Igreja católica não gostou.
Obama: “I love this guy”
A afirmação de que a imprensa deve noticiar, mas não “monitorar”, já é em si questionável – mas como ele pode censurar a mídia na presença de Paulo Maluf, cujos desvios de milhões provavelmente jamais teriam vindo à luz sem a imprensa?
Luiz Inácio Lula da Silva, 64, é o presidente brasileiro mais popular de todos os tempos. Há quase sete anos – ainda lhe resta um – ele é Chefe de Estado, e cerca de dois terços dos eleitores qualificaram sua gestão como boa ou muito boa – difícil de acreditar em um país no qual um presidente jamais havia obtido mais de 18% de aprovação. E, no palco da política mundial, ele é o mais querido. “This is my man, I love this guy”, se entusiasmou o presidente Obama em abril a respeito do “político mais popular do mundo”.
De engraxate a Chefe de Estado, de metalúrgico a líder mundial: a vida de Lula é o exemplo perfeito de uma história de sucesso, também por conta dos infinitos obstáculos que encontrou pelo caminho. Ainda jovem migrou, como milhões de brasileiros, do paupérrimo Nordeste para São Paulo. Como milhões de outros, cresceu sem pai, trabalhou como engraxate e office-boy e fez um curso profissionalizante de metalurgia – seu único diploma formal.
Enquanto Lech Walesa dirigia as greves contra o regime comunista no Estaleiro Lênin, em Varsóvia, Lula organizava, no cinturão industrial ao redor de São Paulo, greves contra a cambaleante ditadura militar de Brasília. Em 1980, foi co-fundador do Partido dos Trabalhadores (PT). A partir de então, tornou-se conhecido, mas ainda assim foi, pelos vinte anos seguintes, o eterno perdedor.
Nenhum brasileiro se candidatou mais do que ele à Presidência – cinco vezes – e ninguém perdeu mais do que ele – três vezes. Somente em 2002 conseguiu a vitória espetacular – dele e da esquerda, que há tempos havia feito as pazes com o capital e utilizou sua imagem de trabalhador na campanha. Uma ruptura histórica: ele é o primeiro trabalhador no topo de uma República na qual, até 1990, com uma única exceção, apenas juristas, grandes proprietários e militares haviam sido presidentes. Ele é o primeiro presidente do povo, e sua popularidade inabalável faz não só com que ele às vezes derrame lágrimas incontidas – como aconteceu há pouco tempo em Copenhague, quando o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016 – mas também com que ele, apenas de vez em quando, fale sem pensar. Sem problema: seus seguidores fingem que não ouviram.
“País do futuro”
Um currículo impressionante, portanto. Mas na história de vida de Lula se espelha também, além do triunfo pessoal, a ascensão espetacular de um país que há pouco tempo cambaleava de uma crise para outra e, em poucos anos, passou a pertencer às principais potências do mundo.
A expressão de Stefan Zweig “país do futuro” era repetida como um mantra, e os brasileiros sempre se perguntaram quando viria esse futuro. Agora – “finalmente não somos mais de segunda classe!”, regozijou-se Lula em Copenhague, com intuição certeira para o simbolismo de ascensão inerente à escolha olímpica. Com isso, o Brasil vai abrigar não só o maior evento esportivo do mundo, mas também, pouco antes, o segundo maior. Em 2014, o país sediará a Copa do Mundo de Futebol.
Ascensão social para milhões
Certamente o país gigantesco e rico em recursos naturais de todo tipo lucrou, nos últimos tempos, com a imensa demanda do mercado mundial por matérias-primas. Mas o Brasil há anos produz açúcar, por exemplo, à metade do preço do mercado mundial, e não por mera conjuntura ou clima, mas por conta de um trabalho de pesquisa e desenvolvimento persistente e de longo prazo.
Seja soja ou suco de laranja, carne bovina ou frango, açúcar ou celulose, o agrobusiness brasileiro é, acima de tudo, muito moderno, e por isso muito competitivo.
Um simples produtor de matéria-prima? A construtora de aviões brasileira Embraer compete com a canadense Bombardier pelo posto de terceira maior produtora do mundo, depois da Airbus e da Boeing. A indústria automobilística brasileira construiu neste ano, até outubro, 2,3 milhões de automóveis. Indústrias de construção civil, como a Odebrecht, siderúrgicas, como a Gerdau, e empresas de eletro-eletrônicos, como a WEG, penetram no mercado mundial, para não mencionar as conhecidas gigantes Petrobras e Vale.
Cabe ainda acrescentar os enormes campos de petróleo de águas profundas na plataforma continental, que o Brasil vai prospectar com tecnologia própria, e o gigantesco potencial do etanol de cana-de-açúcar, relativamente sustentável ambientalmente – deve-se realmente continuar a caracterizar a nona maior economia do planeta como “país emergente”?
O crescimento alivia também a flagrante injustiça da distribuição de riqueza. Desde 2005, 23 milhões ascenderam à classe média – embora esta já comece, no Brasil, com uma renda mensal de cerca de 500 francos. Agora, 120 milhões dos 190 milhões de brasileiros estão acima desse limite. Ainda existem pobres, mas suas necessidades materiais foram atendidas pelo governo Lula a ponto de não ser mais necessário aceitar empregos aos mais ultrajantes salários de fome.
Com isso, estabeleceu-se um gigantesco mercado interno, graças ao qual o Brasil reagiu significativamente melhor à crise financeira do que a Europa. O potencial de crescimento está nas camadas sociais mais baixas – ali, onde o sonho de consumo propagado pela televisão e pelos anúncios pode tornar-se realidade com caríssimos microcréditos. Para a Nestlé, por exemplo, o Brasil é um dos mercados que cresce mais rápido no mundo. As desigualdades não diminuem apenas em nível social, mas também em nível regional. Hoje, a economia do Nordeste cresce mais rapidamente do que a média nacional – o casebre, do qual o pequeno Luiz Inácio fugiu há seis décadas, recupera o tempo perdido. No palco da política mundial, o Brasil é presença cada vez mais constante – em rodadas comerciais multinacionais e nas reuniões do G-20, onde nada mais é possível sem os brasileiros. Na América Latina, o Brasil se consolidou – em detrimento do México, sem falar na Argentina – como potência principal.
Segundo os sociais-democratas, o conservadorismo econômico do Governo Lula afasta-se, na sua tranqüilidade, do estridente socialismo de Estado de um Hugo Chávez. O que não impede que os empresários brasileiros tenham negócios gigantescos na Venezuela. Projetos-mamute propagandísticos, por sua vez, como um gasoduto transcontinental ou uma versão sul-americana do Banco Mundial, são discretamente deixados cair no esquecimento.
“Complexo de vira-lata”
É claro que a ascensão do Brasil não é mérito exclusivo de Lula. O momento de pico da economia mundial praticamente caiu no seu colo, e na modernização do Brasil ele continuou o que outros haviam começado – ele não plantou tudo o que colheu.
Há ainda omissões claras. A política de educação, que na verdade deve ser o coração de reformas social-democráticas, nunca o interessou. Mesmo após sete anos, o sistema educacional público do Brasil ocupa os últimos lugares no PISA e em outros estudos análogos. Proteção do meio ambiente equivale, para ele, a um entrave ao crescimento. Contra a terrível violência nas cidades, seu Governo não fez nada além do uso ocasional de policiais com gosto pelo gatilho – panorama sombrio para as Olimpíadas e a Copa do Mundo.
No país prevalecem freqüentemente tardias relações feudais de poder. O Estado é caracterizado pelo desperdício e pela corrupção, e a Administração Pública é muitas vezes incapaz de lidar mesmo com tarefas simples, como a prevenção da dengue.
Mas ainda assim: o “complexo de vira-lata”, que os brasileiros diagnosticaram há décadas em si mesmos e em seu país, foi ultrapassado. A valorização que o país experimentou no mundo, traduzida na popularidade do carismático Lula, tem sua contraparte também no nível individual. Pois a maioria dos brasileiros tem hoje a sensação de caminhar para frente – uma grande diferença para o início dos anos noventa, quando a classe média encolhia, a inflação atingia 2500% ao ano e os brasileiros sequer tinham cartão de crédito!
Hoje eles podem viajar alegremente para o exterior – de preferência para a Argentina, o que para eles era completamente inacessível até 2001. Hoje são eles que têm a moeda forte e estável. Mesmo os bandidos brasileiros deixaram, há muito tempo, de gritar “dólar, dólar” durante os assaltos.
