SÉRIE: O Brasil superou suas fraquezas e tem boas
chances de sair fortalecido da crise econômica global. O gigante verde
está saindo das sombras de países emergentes como Índia ou China.
O
HB retrata personagens que representam esse novo Brasil. Hoje: Celso
Amorim. Como o Ministro das Relações Exteriores levou o país para a
cena internacional.
Celso Amorim gosta desse momento de
perplexidade. A perplexidade de seus visitantes face ao objeto na
parede, atrás de sua mesa. O homem baixo e delgado, com sua barba
branca, saboreia esse momento e espera pacientemente a reação de seu
interlocutor. O objeto em questão é um tapete enorme que representa um
mapa-múndi de 1503 que causa estranheza a todo e qualquer visitante que
espera encontrar a América do Norte no canto superior esquerdo, a
Europa no meio e a Ásia no canto superior direito, enquanto a América
do Sul normalmente se encontra embaixo, à esquerda. O mapa, que data da
época em que os portugueses haviam descoberto o Brasil, parece estar
pendurado de cabeça para baixo. O hemisfério Sul se encontra do lado de
cima. Esse tapete é muito mais do que um objeto de decoração - é uma
mensagem que não poderia ser menos diplomática: "vejam aqui: a sua
visão do mundo não é a correta! Somos nós que estamos no centro do
mundo!"
Amorim é Ministro do Exterior de uma nação emergente.
Enquanto seus visitantes ainda olham, perplexos, o mapa, ele mesmo já
transmitiu sua mensagem. O Brasil deixou de ser periferia. O Brasil é
uma das nações mais importantes. O Brasil busca alcançar o centro da
política mundial - o lugar ao qual pertence.
É uma mensagem
surpreendentemente ofensiva para um homem como Amorim, que, como poucos
outros, representa o estilo brasileiro da diplomacia. Um homem que
corresponde exatamente à imagem pintada por Sérgio Buarque de Holanda
no seu ensaio sobre "Raízes do Brasil", de 1936. Sempre simpático,
sempre cortês, evitando afirmações diretas, mas dando dicas e alusões
nas entrelinhas. Não tomar uma posição que não possa ser revogada
depois e, se possível, se dar bem com todos os outros.
Porém, o
Brasil não deixa dúvidas sobre a nova autoconfiança. Sob nenhum outro
Governo antes do atual, do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
conferiu-se ao país um peso tão elevado na cena internacional. Isto se
deve sobretudo à nova estabilidade econômica e política. Ela fez com
que o país tenha se tornado confiável em nível internacional - depois
de décadas em que não conseguia dominar seus próprios problemas. Isso
se deve, ainda, a sua posição central nas negociações internacionais
sobre o clima e - "last but not least" - ao desempenho surpreendente do
Brasil na crise econômica.
Celso Amorim é a imagem e a voz desse
novo Brasil na cena global. Como poucos outros, o politólogo de 67 anos
defendeu os interesses brasileiros nos foros internacionais, sem abrir
mão - lógico - da devida discrição brasileira. Ele fazia isso já antes
de ser chamado para o cargo. Durante muitos anos foi representante do
Brasil nas Nações Unidas e chefiou em Genebra a delegação brasileira
nas negociações do GATT, o antecessor das atuais rodadas sobre o
comércio mundial. Foi Embaixador em Londres e, entre 1993 e 1994, foi
Ministro das Relações Exteriores do Brasil. Hoje, é algo comum que o
Ministro do Exterior alemão, Steinmeier, também ligue para Amorim para
discutir, por exemplo, a escalada do conflito no Oriente Próximo.
Um
banqueiro alemão recentemente o chamou "o grande estrategista do novo
papel do Brasil na política internacional", um diplomata-Sul-Norte que
durante muito tempo se sentia como o porta-voz do Sul e agora, no
âmbito do G-20, acha natural fazer parte dos mais potentes do mundo.
Durante
a última reunião do G-20 em Londres, por exemplo, nem se contestava que
a crise mundial somente poderia ser superada com a ajuda dos países
emergentes. Sem o apoio do Brasil, da China e da Índia, qualquer
decisão teria tido um valor nulo. "Não fazemos parte do problema porque
nossos bancos não compraram papéis tóxicos - mas fazemos parte da
solução", disse Amorim durante o Fórum Econômico em Davos, em janeiro.
Amorim
teve sua primeira grande entrada na cena internacional durante um
encontro da OMC em Cancún, em 2003. Antes, havia soldado uma aliança de
países que poderia ter sido mais heterogênea. Chamava-se de G-21,
representava mais da metade da população mundial e reunia países como
Índia, China, Indonésia, África do Sul e Nigéria. Em Cancún,
reivindicavam um livre acesso aos mercados agrícolas dos países ricos.
Estes ficaram perplexos. O então comissário europeu responsável pela
agricultura, Franz Fischler, comentou que "essa coalizão improvisada
sob a liderança do Brasil não é desse mundo" e recomendou que os países
"voltem para a Terra". Mas eles não voltaram. Os EUA tampouco estiveram
prestes a fazer concessões, muito menos no que tangia aos subsídios
agrícolas. As negociações fracassaram - e não avançaram até hoje.
É
provável que os historiadores um dia vão chamar a Conferência de Cancún
de um marco para o deslocamento dos poderes no mundo: um processo
durante o qual os países industrializados perderam sua influência sobre
os países emergentes, tanto na área econômica quanto na política.
O
Presidente Lula definira, já antes de Cancún, as novas prioridades da
política externa do Brasil. Em vez de focalizar, como antigamente, as
superpotências EUA ou Europa, para o Ministério das Relações Exteriores
valia desde então a seguinte diretiva: os vizinhos da América do Sul
têm prioridade absoluta. Depois seguem as cooperações Sul-Sul - quer
dizer, de forma geograficamente incorreta, a China, a Índia, o Oriente
Médio e principalmente a África. Nesse sentido, os EUA e a Europa, na
época, acabaram no final da lista de prioridades. A consequência foi
que as negociações UE-Mercosul, iniciadas já em 1995, desde então não
saem mais do lugar. A "Zona de Livre Comércio das Américas" (ALCA), do
Alasca até a Terra do Fogo, que Bill Clinton combinou com os
latino-americanos em 1994, no governo Lula sumiu da agenda.
As
novas prioridades geográficas chegaram a tempo. Justamente no momento
em que os países industrializados perceberam o novo potencial econômico
dos mercados emergentes, o Brasil ampliou suas relações com os países
que de repente ganharam importância: China, Índia, África do Sul, mas
também Irã, Angola e Nigéria. Na América do Sul, o Governo fez evoluir
os projetos de cooperação já existentes - justamente quando a região
ganhou importância internacional como fornecedor de matérias-primas.
No
Ministério das Relações Exteriores, a nova orientação causou confusão
no começo. De fato, nunca recebera simplesmente ordens das grandes
potências do Norte. Também durante a gestão do antecessor de Lula,
Fernando Henrique Cardoso, os diplomatas torpedearam com sucesso as
exigências dos EUA de mais comércio livre entre a América do Norte e a
América do Sul. Mas diminuir abertamente a atenção dada à Europa e aos
EUA foi um novo tom.
Também para Amorim, cuja carreira já deu
muitas voltas. Quando ele terminou a academia diplomática - o Instituto
Rio Branco -, os militares deram um golpe de Estado. O Ministério das
Relações Exteriores "acomodou" o cineasta de carteirinha na Embrafilme.
Lá hibernou os "anos de chumbo", até que fez doutorado na London School
of Economics e mais tarde teve condições de continuar a sua carreira
diplomática.
Do último andar do prédio baixo, cercado de
colunas, Amorim pode ver a Praça dos Três Poderes como de uma sacada,
onde se encontram, ao lado do seu Ministério, o Congresso Nacional, a
Presidência da República e o Supremo Tribunal Federal, os centros do
poder do seu país. A sala de Amorim é do tamanho de uma quadra de
tênis, da altura de um salão de ginástica e cheia de lembranças da sua
gestão de seis anos como Ministro das Relações Exteriores e de seus
postos como embaixador no mundo todo. Passaram-se quase quarenta anos
desde que o Ministério do Exterior do Brasil, chamado "Itamaraty", foi
transferido da metrópole litorânea, Rio de Janeiro, para a nova
capital, Brasília, no meio de uma paisagem semi-árida do interior. O
centro da administração não tem nada a ver com a vida pulsante das ruas
do Rio ou de São Paulo. O Palácio sóbrio, retangular, de vidro e
concreto armado, que parece voar em ponto fixo sobre o espelho d'água,
tem, como todos os prédios futuristas do arquiteto Niemeyer, um ar de
aspiração de poder e modernidade; parece grande demais, de certo modo
vazio e cheio de devaneios.
Será que a nova postura do Brasil
encontra solo fértil? No palco do mundo sopra um vento gelado. Amorim
também teve que sentir isto na pele. Os brasileiros sempre sofrem
resistências quando tentam firmar-se mais internacionalmente. A
discussão sobre uma vaga no Conselho de Segurança da ONU para o Brasil
não tem saída. Potências mundiais como a China, que o Brasil
considerava estarem do seu lado, ultimamente votaram contra novos
membros no Conselho. O Brasil também não conseguiu se impor na hora de
preencher vagas importantes na OMC e no Banco Interamericano de
Desenvolvimento.
Mas Amorim é paciente e firme. Provou estas
qualidades, por exemplo, durante a maratonas de sessões da rodada de
comércio em Genebra, em 2008. Na época, a Rodada Doha acabou
fracassando de maneira espetacular depois de uma semana de negociações.
Alguns dos diplomatas mais experientes estavam com os olhos cheios
d'água por causa da decepção. Somente Amorim parecia novinho em folha
depois de noites passadas em claro, e no meio de jornalistas nervosos
chamou a atenção por seus comentários objetivos. Perguntamos como ele
conseguiu se manter nestas sessões infinitas. "Tenho dois netos em
Genebra", disse ele, "com os quais brinco nos intervalos, nas pausas.
Isto proporciona a higiene mental de que eu preciso."
Frases de Amorim
Sobre
a crise global e o Brasil: "O Brasil é um dos últimos países a serem
atingidos pela crise e será um dos primeiros a saírem dela. Começamos
cedo com a diversificação das nossas relações econômicas e o
fortalecimento do mercado doméstico. Os indicadores econômicos são
positivos: um sistema bancário sólido, uma indústria dinâmica, um setor
agrário bem estruturado e autonomia energética".
Sobre os
problemas do Brasil: "A luta contra a desigualdade social, que já
conseguimos reduzir em ritmo nunca visto antes, é o nosso grande
desafio. O nosso foco é o desenvolvimento social, que constitui as
novas bases do nosso crescimento, porque grandes parcelas da população,
antes excluídas do mercado de trabalho e do consumo, são hoje incluídas
na economia. O progresso social é a chave do desenvolvimento
sustentável."
Sobre as maiores vantagens do país: "O Brasil tem
um grande peso próprio internacional em função do tamanho do seu
território, da sua população e da economia. O Brasil vive em harmonia
com os países vizinhos e aprofunda a integração".
Sobre o papel
do Brasil no mundo: "Com o seu potencial econômico, as imensas reservas
de matérias-primas e energia, com o espírito empreendedor da sua
população e a tradição do diálogo em nível internacional, o Brasil é
chamado a contribuir para o desenvolvimento mundial e para assegurar a
paz.
Busch, Alexander e Knipper, Hermann-Josef
