Artigo "O Itamaraty e sua circunstância" (Jornal do Brasil - 28 de fevereiro de 2007)
Título: 'O Itamaraty e sua circunstância' Data: 28/02/2007 Crédito: Mauro Santayana
O que incomoda a muitos, na política externa do atual governo, não são os erros, mas os acertos. A diplomacia existe para planejar e executar os atos necessários à soberania dos Estados, mediante as negociações permanentes com os interlocutores. Todos, conforme as circunstâncias, são potenciais inimigos, como dizia o embaixador Gilberto Amado, ao afirmar que não há povo amigo de outro povo. Cada um deles busca, no convívio inevitável com os outros, o poder e a liberdade. Devem, assim, estar preparados para defender a própria independência.
Há necessária aliança entre a diplomacia e as armas. Cabe aos diplomatas evitar que os militares sejam chamados a agir. E os militares sempre contam com os diplomatas, a fim de ganharem tempo para a mobilização dos meios bélicos, nos casos extremos.
Temos, os brasileiros, uma das melhores experiências na diplomacia. Os portugueses sempre foram hábeis nas negociações, e a formação geográfica do Brasil é disso o melhor resultado. Quando o ímpeto desbravador dos primeiros brasileiros os levou até a muralha andina, os tratados de Madri, de 1750, e de Santo Ildefonso, de 1777, apagaram dos mapas a linha de Tordesilhas.
Os dissídios fronteiriços posteriores à Independência foram superados nas negociações com os vizinhos, e dos mais graves deles soube cuidar o Barão do Rio Branco. Ao longo de todos estes quase dois séculos, a diplomacia brasileira vem seguindo uma linha central, que pouco tem oscilado, de acordo com as mudanças na constituição política do Estado. Passamos da monarquia para a República e, na República, tivemos os períodos excepcionais, sem que houvesse ruptura dos princípios fundamentais de nossa diplomacia. Foram esses princípios que levaram Getúlio a apoiar os aliados em 1942, Juscelino a romper com o FMI, e o governo Geisel a denunciar o acordo militar com os Estados Unidos.
As críticas à atual política externa brasileira são orientadas pelos interesses passageiros, dentro das circunstâncias especiais de início de governo. O Itamaraty, com todas as suas peculiaridades, não difere dos outros ministérios, no que toca à disputa pelo poder. Seria ingenuidade imaginar que os cargos do chanceler e do secretário-geral não sejam ambicionados por muitos de seus companheiros.
Não é a recomendação aos jovens diplomatas para que leiam esses ou aqueles livros que molesta os ortodoxos, mas sim a possibilidade de que o mesmo grupo intelectual continue exercendo o comando da nossa diplomacia não subordinada a Washington. Recomendar a leitura de qualquer livro não é fazer a cabeça de ninguém. Seria desastroso pensar que um diplomata se faz com três ou quatro livros - quando há milhares de outras obras, de idéias contrastantes, a seu dispor.
O critério da verdade é a prática. O Brasil está tendo muito bom desempenho internacional nestes anos em que Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães chefiam o Itamaraty. Para os pragmáticos, basta examinar o comércio exterior e o fortalecimento das relações diplomáticas com as nações que despontam no cenário de poder mundial.
Os suíços seguem uma única regra em sua política internacional: a da universalidade. Por isso procuram manter boas relações com todos os países do mundo, sem levar em conta o regime interno que tenham. É boa norma, também para nossa conduta. Só no respeito à autodeterminação dos países vizinhos - colombianos, bolivianos, venezuelanos, argentinos e todos os outros - podemos defender a nossa própria liberdade.
