Há
alguns dias, a Rússia e os Estados Unidos assinaram um novo tratado de
redução de armas estratégicas (Start) dando sinais de uma mudança
significativa no foco da estratégia nuclear dos EUA - de seus antigos
inimigos da Guerra Fria para os chamados Estados renegados. Na última
semana, na cúpula sobre segurança nuclear em Washington, a China
concordou pela primeira vez em trabalhar com os EUA numa possível
aplicação de sanções contra o Irã. Enquanto cresce o ímpeto para novas
sanções contra Teerã na ONU, crescem também os temores de que uma
intervenção militar contra o Irã esteja se tornando mais provável. Os
instintos do presidente Barack Obama assegurarão que ele fará tudo ao
seu alcance para evitar um conflito militar com o Irã - mas ele
enfrenta "falcões" em casa.
No mês passado, o senador americano
Lindsey Graham disse a uma plateia que, se for usada, a força militar
contra o Irã deve ser empregada "de maneira decisiva" assegurando que o
Irã não tenha nem mesmo "um avião que possa voar ou um navio que possa
navegar". Esse tipo de retórica belicosa não é nova vindo de falcões em
Washington, mas as palavras do senador Graham refletem uma militância
crescente no Congresso, que no ano passado autorizou US$ 46 bilhões em
recursos militares de emergência. No fim de março, circulou uma
resolução na Câmara dos Representantes endossando explicitamente um
ataque militar israelense ao Irã se "nenhuma outra solução pacífica
puder for encontrada em tempo razoável". O tipo de "solução pacífica" e
o tempo que eles considerariam "razoável" não foi especificado.
Noticiou-se
recentemente que centenas de bombas "arrasa bunker" (que penetram
profundamente no solo antes de explodir) estão sendo enviadas dos EUA à
base militar americana na Ilha de Diego García, no Índico, e o governo
americano assinou contrato com uma empresa de transporte para levar 19
contêineres de munição para a ilha. Serão mandadas 195 bombas
inteligentes Blu-110 com penetradores e 192 bombas Blu-117 de 900
quilos. Os EUA já possuem uma força militar poderosa no Golfo e estão
realizando manobras navais em larga escala no Atlântico com britânicos
e franceses.
Ao assumir a presidência, Obama fez uma clara
ruptura com a estratégia para o Irã de George W. Bush, demonstrando a
disposição de negociar diretamente com Teerã sem precondições. Em seu
pronunciamento pela televisão voltado para o Irã e em seu discurso no
Cairo, ele reconheceu publicamente os aiatolás como legítimos
representantes do povo iraniano, admitiu o direito do Irã de enriquecer
urânio e falou abertamente do papel da Agência Central de Inteligências
(CIA) na deposição do primeiro-ministro iraniano, Mohammad Mossadegh,
em 1953.
Em outubro, ele manteve conversações diretas com os
iranianos em Genebra depois das quais o jornal britânico Financial
Times observou que Obama "obteve mais do Irã em oito horas do que a
posição enérgica de seu antecessor conseguiu em oito anos".
Obama
também herdou uma máquina militar cujos planos para um ataque ao Irã já
estavam bastante avançados, e enfrenta uma mídia conservadora e um
público pouco familiarizado com uma política externa com base na
diplomacia paciente e na construção do consenso que muitos equiparam à
fraqueza. A mais recente rodada de sanções envolverá exigências rígidas
de inspeção de todos os bens que entram e saem do Irã e um embargo de
produtos derivados de petróleo para o Irã. O bloqueio naval necessário
para aplicar as sanções - seguramente envolvendo a Marinha Real
britânica - poderá perfeitamente levar à guerra. Como se viu no Golfo
de Ormuz nos últimos anos, escaramuças com a Marinha iraniana na região
tendem à escalada.
Nas conversações em Genebra, o acordo
proposto pelos EUA estabelecia que o Irã trocasse a maior parte de seu
estoque atual de urânio pouco enriquecido por hastes de combustível
para usinas vindos da Rússia e da França. Essa troca de "combustível
por combustível" foi em grande parte aceita pelo presidente iraniano,
Mahmoud Ahmadinejad, Mas, preocupado com "promessas quebradas"
anteriores, ele propôs que a Agência Internacional de Energia Atômica
(AIEA) assumisse o controle do urânio pouco enriquecido no Irã até as
hastes de combustível serem entregues. Como um passo para uma solução
desse problema arrastado, a contraproposta do Irã parecia sensata, mas
foi descartada. Em vez disso, os EUA não parecem dispostos a negociar,
considerando o acordo proposto uma oferta para "pegar ou largar".
A
aparente meta das negociações nucleares dos EUA de completa cessação de
todas as atividades de enriquecimento pelo Irã é não só irreal mas, até
certo ponto, indesejável. Ahmadinejad não vai desistir das atividades
de enriquecimento que considera um direito inalienável do país.
Enquanto
muitos têm preocupações genuínas de que o Irã está decidido a
desenvolver armas nucleares, a maneira de assegurar que o Irã não se
tornará uma nação nuclearmente armada não é isolar Teerã. Em vez disso,
é preciso restabelecer rigorosas atividades de monitoramento
internacional. Argumentos sobre o possível cronograma para o Irã obter
uma capacidade de produzir armas nucleares tornam-se acadêmicos se
assegurarmos a cooperação iraniana como o regime de inspeções da AIEA.
Com
novo respeito nas ruas árabes por sua condenação, no mês passado, da
política israelense de assentamentos, e mais legitimidade em seu apelo
pela não-proliferação nuclear ao embarcar ele próprio na redução de
armas, Obama deveria aproveitar essa oportunidade para prosseguir nas
negociações com o Irã em vez de promover novas sanções. Os
neoconservadores podem tentar convencer Obama de que, na condição de
única superpotência global, os EUA precisam aproveitar este momento
para garantir sua posição na região e assegurar controle das reservas
cada vez menores de petróleo e gás. Eles podem argumentar que é
preferível lançar um ataque preventivo contra o Irã mais cedo, enquanto
a máquina militar americana está na região, do que mais tarde, quando o
Irã se tornar ainda mais forte. Mas um ataque assim, com base no
princípio da autodefesa antecipada e lançado antes de todos os meios
pacíficos terem sido esgotados, seguramente não se coadunaria
facilmente com a consciência de Obama. A nós, só nos resta esperar que
Obama continue sendo um homem guiado por suas crenças.
Crédito: Stefan Simanowitz, The Guardian
