Artigo "O Futebol da Paz" (Revista Der Speigel - 20 de agosto de 2004)
Revista: Der Speigel Título: O Futebol da Paz Data: 20/08/2004
O futebol era apenas a mais bela entre as coisas superfluas do mundo, até que o General brasileiro da ONU trouxe os craques Ronaldo e Ronaldinho ao Haiti como armas secretas: um jogo internacional em Porto Príncipe deveria finalmente acabar com a guerra civil.
Por Alexander Smoltczyk
"Foi minha idéia", diz o Primeiro-Ministro enquanto um pedaço de "Petit Fours" desaparece em sua boca. "Todos diziam, Latortue ficou louco, mas…" o Premier do Haiti Gérard Latortue faz uma pausa para cumprimentar um diplomata. "Eu trouxe os deuses para o Haiti". Fica subentendido de antemão que apenas a Seleção, o time nacional brasileiro, poderia se mencionado dessa forma.
"Em 18 de agosto aconteceu um milagre, e eu digo a você que para nós esse dia será considerado de agora em diante como uma data da paz e da reconciliação nacional! Nós vamos ensinar português nas escolas! A partir de 18 de agosto" - e mais um canapé desaparece - "o Haiti ingressou no caminho do desarmamento e da paz. O Haiti tornou-se uma nação".
Gerárd Latortue está nas ruinas do Fort Jacques, situado no alto de Porto Príncipe, sua melhor atração. Ao redor dele no começo da noite está a nova eleite do Haiti que festeja o que o Premier chama de sua "Diplomacia do Futebol": a expulsão dos maus espíritos do Haiti por meio dos deuses do futebol".
O estádio visto do alto permanece na escuridão. Chegaram os deuses, não o serviço de eletricidade. No começo de fevereiro uma rebelião derrubou o Presidente Aristide. Nas ruas corpos queimados e as milicias de Aristide que se negam até hoje a entregar suas armas - e muito menos a reconhecer um Primeiro-Ministro que tem o nome de Tartaruga, (Latortue).
Mesmo os 2.200 homens da força de paz da ONU não os intimidaram. Talvez ela tivesse 11 homens a menos do que seria necessário.
Então surge Latortue com sua idéia. Ele diz: "A tartaruga maluca fez dois milagres em seu curto mandato".
Um deles foi voltar da conferência de doadores em Washington com mais de um bilhão de dólares: "Isso foi difícil".
O segundo milagre foi conseguir a presença dos mais caros jogadores de futebol do mundo no mais pobre país do hemisfério ocidental como armas secretas: "Isso era praticamente impossível", diz Latortue. Mas aconteceu. Por 90 minutos, ninguém pensou em falta de eletricidade no Haiti.
Em 18 de agosto, às 14:30hs, onze homens de calção, com um valor de USD 637 milhões, estavam no campo do estádio "Sylvio Cantor". Esse número é quase o dobro do orçamento anual haitiano.
Eles estavam lá. Apesar do calor intenso não se tratava de uma miragem: os verdadeiros campeões mundiais, Ronaldo, com seus dentes de coelho; Roberto Carlos, pequeno, careca e malvado; Roque Junior, Silva. E Ronaldinho, aquele das pinturas a óleo oferecidas nos mercados, o ídolo, o amado, o irmão. A Seleção.
Os jogadores foram transportados nos blindados brancos da ONU do aeroporto Toussaint Louverture, como deuses em suas carruagens. E nos doze quilômetros não houve metro em que faltassem bandeirinhas e pessoas suadas e sem camisa que tentavam pular nos blindados. "Fô roulé, fô roulé", soava a popular canção do dia, "lapé fô roulé, boule fô roulé", "a paz tem que rolar, a bola tem que rolar". As pessoas tinham camisas verde-amarelas e estavam jubilantes, como se sua cidade fosse Miami.
No estádio o ar estava parado. O termômetro registrava quarenta graus na sombra, mas sombra só havia na tribuna de proeminentes. O estádio é como um funil que suga a luz do céu. "O calor é a nossa única vantagem", disse o treinador da seleção hatiana.
Na lista da Fifa o Brasil está no cume e Haiti no 95o lugar. Isto é praticamente um pouco à frente do time de futebol do Vaticano.
Roosevelt Désir, lateral-direito do Haiti, tira uma foto do lado de Ronaldo. Nesta manhã ele disse a um jornal que o seu maior sonho seria poder estudar contabilidade em uma universidade do exterior.
Nunca um grande time de futebol veio para o Haiti. Agora ele está lá e é como se tivesse que acontecer algo monstruoso. Um milagre, pelo menos um milagre.
O apito inicial: "Já é um milagre nós, haitianos, fazermos uma fila em frente ao estádio para comprar ingresso", disse Hervé Salmanes, um músico-rasta da banda Jah Nesta, que equilibra uma almofada na cabeça, contra os raios fortes de sol.
1:0 Roger fez gol da lateral. O gol estava simplesmente desprotegido. No camarote presidencial, com ar condicionado, encontra-se o Presidente Gérard Latortue, conhecido como Tartaruga, atrás do Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva. Ao seu lado está o encarregado extraordinário de Kofi Annan para Haiti, que veste a mesma roupa desde dois dias. Sua bagagem foi extraviada. "Brasil, o meu coração bate bum, bum, bum", gritam os torcedores embaixo do calor.
Um pouco afastado de Lula, está um fumante ininterrupto, que parece ter praticado esporte pela última vez na escola primária. Trata-se de Igor Kipman, encarregado do Caribe no Ministério das Relações Exteriores. Em abril, Kipman enviou um memorandum para o Presidente. O Brasil pode provar ao mundo, no Haiti, que existe uma outra América, uma melhor. Que os países do sul podem ajudar o sul, algo geopoliticamente interessante, mas sem agenda oculta. E que a sua missão "Peace-keeping" não necessariamente consistiria em instalar o maior número possível de "checkpoints" com tanques de guerra vistosos. O Brasil pretende enviar agrônomos, máquinas para esmagar frutas, treinadores e engenheiros. E talvez com isso ele consiga um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
Começou com o memorando de Kipman. E agora, desde 1 de junho, o Brasil lidera a Minustah, a missão da ONU para a estabilização do Haiti. Ele enviou 1198 soldados, 110 veículos e 15 jogadores. No mandato da Onu estão mencionados pontos como estado de direito, eleições, reforma policial, Aids, direitos humanos e "good governance".
A realização de um jogo internacional de futebol não.
"E?", diz Kipman. Apesar de tudo, eles se deixaram persuadir pelo Premier Latortue. "Futebol é arte e alegria", Kipman fala do futebol brasileiro. "Footbal é violência e vitória". Ele quer dizer futebol norte-americano. Ele fala de uma América que envia jogadores de futebol ao invés de bombas.
2:0 com Ronaldinho. Ele driblou dois defensores, deu uma volta completa e pulou o goleiro. A bola parecia amarrada no seu pé, mas agora ele a deixa ir para o gol. Inacreditável. "Kè-m fè vap vap vap".
Abaixo da tribuna de honra está o General de três estrelas Augusto Heleno Ribeiro Pereira. Ele é o comandante da Minustah. Ele ama o futebol e já jogou com Roger. Mas agora ele conta os minutos, até que tudo esteja terminado.
Pela manhã ele entrou em seu Nissan da ONU e tirou um CD de um compartimento. É um CD de músicas da "Imperatriz Leopoldinense", uma escola de samba do Rio. Isso ajuda em uma cidade como Porto Príncipe, em que tudo pode acontecer, quando se sabe que nada pode acontecer.
Heleno tem o cabelo escovado e aparenta ser um homen franzino. Mas ele é um "leopardo", membro de uma força de elite especializada em guerra na selva, treinado para sobreviver em qualquer lugar da Amazônia com apenas um canivete.
Ele era um jovem tenente, quando em 15 de junho de 1969 ocorreu o jogo entre Honduras e El Salvador. A equipe de El Salvador foi atacada com ratos mortos, e a bandeira nacional começou a pegar fogo. El Salvador venceu por 3:0, pouco depois eclodiu a "Guerra do Futebol", com 3 mil mortos e 6 mil feridos.
O Comandante se desloca sem escolta pelas ruas. O veículo de Heleno não é blindado e nem tem armas."As pessoas aqui ganharam mais que a presença dos blindados. Ele sofreram tanto. Eles são tão pacientes". Heleno viu como jovens com seus livros escolares se dirigiam a postos de combustível e supermercados, por que não tinham luz em casa para ler.
Na maioria das vezes ele não compreende que Porto Príncipe não seja mais violenta; essa cidade com cloacas abertas, magnificas arvóres que se projetam sobre pilhas de lixo fumegantes; em que as pessoas não têm qualquer chance, mas que a cada manhã se preocupam que suas roupas estejam limpas. Heleno ama esta cidade.
Após a primeira patrulha pelos bairros pobres de Cité Soleil, Carrefour e Bel air, o General foi ao Gabinete do Primeiro-Ministro Latortue. Ele disse: "Meus soldados devem desarmar os revoltosos. Mas eles são em sua maioria garotos e eu não posso atirar em crianças".
"Por que o Senhor não traz seus jogadores de futebol? " disse o Premier. "Os milicianos também são fans de Ronaldo. Nós diriamos que eles podem trocar suas armas por entradas!".
A idéia do Tartaruga.
Heleno procurou imaginar o que aconteceria se 15 mil milicianos, armados com pistolas, machetes e rifles de assalto, se alinhassem à espera de uns dois mil de ingressos. "Senhor Primeiro-Ministro…" começou ele. Mas Latortue insistiu, que era uma boa idéia, trazer os melhores jogadores do mundo para uma ilha, onde há pouco andavam pessoas com jeito de pistoleiro e cujas ruas parecem circuitos de motocross. "Por favor escreva a seu Presidente", disse Latortue ao General.
O Presidente Lula do Brasil tomou imediatamente a idéia como se fosse sua. Ele enviaria a Seleção, não o time que ganhou a Copa América, mas o time A, os melhores, os pentacampeões mundiais. E além disso ele mesmo viria, a primeira visita de um Presidente brasileiro ao Haiti, e com ele 500 senadores, funcionários, jornalistas e Ministros e seu amigo, o Presidente do Uruguai com sua entourage. A segurança de todos seria tarefa da Minustah.
Heleno ficou nervoso.
Ele escreveu um memorando para Brasília e pediu permissão para Nova York, a fim de empregar a maior parte de suas tropas da ONU, armas e veículos na segurança de um jogo de futebol e retira-las de suas tarefas cotidianas. Nova York achou que se tratava de uma piada. Mas Lula fez tamanha pressão, até que finalmente Kofi Annan enviou uma mensagem gravada em vídeo.
Heleno tinha apenas um pedido: "os ingressos não devem ser distribuídos às gangues, como recompensa a seu porte ilegal de armas. Essa seria a mensagem errada". Latortue concordou, poucos dias antes do jogo. No lugar dos rebeldes no estádio sentaram-se crianças da UNICEF, estudantes ou pessoas que podiam pagar USD 6,25 por um ingresso. Os "chiméres" ficaram sem nada, a não ser suas armas. "Qualquer outra alternativa seria utopia", diz Heleno.
Ele diz também que hoje ao meio-dia ele rezou, quando os fans procuravam subir nos veículos. Um blindado da ONU coberto de sangue e o jogo estaria acabado. Os jogadores teriam que voltar para casa. E ele também.
3:0. Os brasileiros não apenas jogam, é como se brincassem. Eles correm, suam, atacam e passam. Quando Ronaldinho chuta, pedaços de terra e borracha se espalham. Fica o cheiro de borracha queimada.
"Há 30 dias atrás não tínhamos campo de futebol", diz Joe Namphy da tribuna de honra. Ele ganha seu dinheiro comprando ferro velho na Flórida, matéria prima que usa para fabricar no Haiti esculturas de sóis dourados, posteriormente vendidos como arte caribenha. "Gerard, o Premier, ligou para mim em Miami e disse: Joe, eu tenho a Seleção no dia 18 de agosto, mas não tenho campo. Preciso de ajuda". Nos tempos do ditador François Duvalier os presos eram executados no estádio Sylvio Cator na frente de suas famílias.
O estádio Sylvio Cator ficou por dois anos abandonado. Os vestiários cheiravam a urina, o campo parecia ter sido palco para uma "Love Parade". As dependências da FIFA e o campo oficial de treinamento foram pilhados há dois anos. O futebol do Haiti estava como resto do país.
Teoricamente há um "sport and hotel resort" em Porto Príncipe. Na festa de 200 anos e como agradecimento pelo fato de o Haiti sempre ter votado na ONU em favor de Taiwan e contra Pequim, a ilha chinesa deu a Aristide alguns milhões de dólares para reformas. Mas de alguma forma o dinheiro deu apenas um mastro da bandeira e um esqueleto de concreto em meio à sujeira no aeroporto. O resto sumiu. E como não existiam em todo o Haiti 52 suítes para hospedar os jogadores, eles ficaram hospedados em Santo Domingo, no odiado país vizinho, a República Dominicana.
Os taiwaneses prometeram reconstruir o campo, desde que fizessem todo o trabalho sozinhos. E Joe Namphy viajou com 12 containers de Dalton, na Georgia ("capital do carpete mundial"), e começou a colocar a grama artificial. "Nós terminamos ontem à tarde. Eu digo ao senhor: pela primeira vez na história do Haiti alguma coisa ficou pronta na hora certa. Este gramado de futebol é o começo. Nós finalmente podemos nós orgulhar de nós mesmos".
Para tornar o gramado mais suave e rápido foram despejadas várias toneladas de borracha granulada, feita a partir de pneus de carro reciclados. No Haiti era comum enfiar os inimigos políticos de cabeça para baixo em pneus e tocar fogo neles. Isso era conhecido como "la cravate", e o antigo Presidente Jean Bertrand Aristide disse uma vez que ele era quase viciado no cheiro de borracha queimada. Ele estaria se sentido bem se estivesse aqui (no estádio).
É intervalo.
O Primeiro-Ministro Latortue e o Presidente Lula vão visitar os atletas no vestiários. O Primeiro-Ministro Latortue queria dar uma pintura de presente aos jogadores. Uma pintura a óleo de um anjo com a camisa número 9 flutuando sobre o estádio de Porto-Príncipe. Mas ele a esqueceu. "Nós seus olhos estava a alegria das crianças", disse ele depois. "Ronaldo me disse que ele mesmo uma vez foi jogador de rua". O Premier contou, também, que Ronaldinho começou a soluçar. As crianças da UNICEF que entraram com a Seleção no campo são órfãos da Aids. O segundo tempo vai começar.
4:0, no minuto 66. Devagar começou a ficar amargo. Ronaldinho marcou em uma cobrança de falta. "Haiti, Haiti", as pessoas continuam a cantar e a aplaudir. Mas muitos já se sentam. O zero no placar não pesa menos que o sol.
Apenas um gol, e seria mais fácil pensar em tempos melhores. Em janeiro Aristide convidou os governantes do mundo para sua ilha, para a comemoração dos 200 anos da independência. Apenas um veio, Tabo Mbeki da África do Sul. Muitos milhões desapareceram, muito suborno e muitos assassinatos. O exército foi dissolvido. O antigo sacerdote pobre governava seu país com sua polícia em farrapos e uma milícia com 15 mil membros proveniente de guetos, que chamavam a sí mesmos de de "canibais" ou "quimeras".
Em fevereiro retornou um antigo oficial e chefe de polícia da República Dominicana, ao que tudo indica com o apoio do serviço secreto. Ele tinha apenas 70 homens e um plano para derubar Aristide. A CNN divulgava todos os dias imagens de rebelião generalizada e mensagens sobre um eventual banho de sangue em Porto Príncipe. Na verdade não tinham os aproximadamente 200 guerrilheiros qualquer chance contra os 15 mil Chiméres na capital. Nos bairros mais pobres ainda hoje é possível ler nas paredes "Viv titid!", viva Aristide.
Os Embaixadores da França e dos EUA vieram à noite ao Palácio Presidencial e ficaram até que Aristide indicasse que deixava seu cargo para evitar um banho de sangue. Do Presidente eram esperadas mais declarações em uma conferência de imprensa, mas o comboio dirigiu-se diretamente ao aeroporto. Ele embarcou suas malas em uma aparelho branco sem o símbolo oficial e desde então, mortalmente ofendido, permanece na República Centro Africana.
Em Porto Príncipe concordaram as diversão facções que o melhor seria nomear para o cargo de Primeiro-Ministro alguém que tivesse dinheiro e sem grandes ambições, e que soubesse como enfeitiçar os doadores internacionais. Assim chegou Latortue ao cargo.
5:0. "No máximo quatro gols" disse o Presidente Lula. E agora já são cinco. Thélamour do "Racing Club Haitien" teve uma chance e o estádio esteve por uma batida de coração em um mundo melhor. Ele chutou para o lado. Mas Roger defendeu pela segunda vez.
Em volta do estádio estão postados os capacetes azuis brasileiros, que esvaziam seus cantis. As lotéricas e o "Dernierd Regard Auto Parts" estão fechados. A estação "Radio Caraibes FM" havia divulgado a notícia de que os Chimères queriam protestar e até invadir o estádio por causa de sua raiva sobre a demissão de seu presidente, e, além disso, por que não conseguiram ingresso.
Bel Air é o bairro daqueles que acreditam em Aristides. Aí que os barracos de cimento estão ainda mais próximos um ao outro do que nas outras zonas na cidade, aí que a canalização exala um cheiro mais horrível do que em outros lugares. Nos planos operacionais da Minustah essa região é marcada como "insegura".
Nesta manhã muito cedinho, havia uma barricada na rua Saint-Martin. Podia-se ver uma cadeira caída e uma peça de ferro. Entretanto, ninguém as tirou do lugar. Os carros desviaram-nos muito cuidadosamente. Isto foi uma obra dos Chimères.
"Chimères significa em crioulo: estar chateado", disse um homem chamado Gay Ernst. Ele é treinador em Bel Air, estava detrás do campo de betão "Parque da paz" e mandava os jogadores descalços do "Staff Milan" correr na sujeira. Aristide construiu o campo para as pessoas de Bel Air. Gay Ernst disse que se alguém está tomado pela raiva e não sabe mais o que faz, isto significaria "Chimère". "Todos no Haiti são Chimère", disse ele. Mas ele não tem nada a ver com os construtores das barricadas. "Esses são vagabundos."
Na rua Saint-Martin eles estavam sentados. Em frente a um barraco onde estão penduradas decorações amareladas e uma boneca furada por um pau. Aqui ainda não se sente uma política melhor. Um homem com tatuagens mal feitas que viveu por alguns anos em South-Boston, resmungou: "Eles seqüestraram o nosso presidente, kno' I'm say'n, ma'? O povo está insatisfeito, cara. Um telefonema e tínhamos o que comer, na época de Aristide." Por favor, nada de nomes, nada de fotos. Apenas uma mensagem: "Se o nosso presidente ainda estivesse no cargo, aqui não haveria este silêncio depois do jogo, haveria grande festa". Na verdade está muito silencioso depois do jogo em Bel Air e nos outros bairros. Não haverá nenhum carnaval que demora noites, como naquela altura quando o Brasil ganhou a Copa, não haverá concerto de buzinas e gente pintadas de verde e branco que dançam na rua. As pessoas estão sentadas em frente dos seus barracos ouvindo radio, esperando que o calor passa. Talvez porque tenham medo dos Chimères. Talvez porque há melhores motivos para fazer festa do que um 0:5. E isso não é tudo. Nilmar, de 20 anos, o jogador mais novo que entrou no lugar de Ronaldo, não deixa aproveitar a chance de fazer um 0:6, apito final.
"Seis para o Brasil - Paz para o Haiti"será a manchete na primeira página na manhã seguinte no jornal "Nouvelliste". Ele vai falar do milagre do 18 de agosto e que o Haiti agora precisa consolidar-se. É claro que todos gostariam de um pouco menos de paz em troca de um gol. Um só que fosse.
Os deuses e o Presidente partiram logo após o jogo, em direção a Brasília, Miami, Espanha e Itália. Porto Príncipe ficou.
No alto da cidade, no Fort Jacques, erguido com o trabalho forçado de escravos livres, os poderosos festejam na tarde seguinte, com Petit Fours e canções crioulas. Os ministros, militares da ONU e diplomatas que conversam estão cercados por esculturas contemporâneas. Também alí estão uma caveira com uma peruca Leni-Riefenstahl e um manto barato. Ela fica alí como um estranho, como um hóspede indesejado, com a mensagem: a vida não é um jogo, principalmente no Haiti.
Gerard Latortue, o Tartaruga, não presta atenção na figura,. "Apenas um psiquiatra pode compreender o que passou na alma do Haiti em 18 de agosto" diz o Primeiro-Ministro. E apesar de não se psiquiatra, mas responsável por milagres, ele continua: "O Brasil está no coração das pessoas. Mas, ao final, quando o placar já marcava 6:0, elas percebiam que não podiam comemorar. Ficou de repente claro que elas eram haitianas, todas elas.: ricas e pobres, Kreole ou negras. Escute: Em 18 de agosto demonstrou-se que existe uma nação no Haiti. A partir de agora nós comemoraremos esta data todos os anos".
E Latortue começa a falar sobre "A Copa da Paz" do Haiti, que ele idealizou junto com o Presidente Lula da Silva: Chile, Uruguai, Argentina e Brasil, as nações que integram a Minustah, também enviarão suas seleções nacionais por volta do final do ano para Porto Príncipe, jogarão futebol e isso se tornará então a verdadeira festa dos duzentos anos do Haiti.
Atrás dele fumando um cigarro atrás do outro está Igor Kipman, diplomata brasileiro responsável pelo Caribe. Ele buscará na manhã seguinte no aeroporto uma missão de especialistas, 25 agronômos, eletricistas, engenheiros, que deverão esboçar planos para a reconstrução.
Heleno Pereira, o General de três estrelas, passou seu dia em reuniões sobre abastecimento de água potável e patrulhas. Ele está cansado. Em breve sacolejará em seu Nissan da ONU de volta para o Hotel, ao som da "Imperatriz Leopoldinense". Seu motorolla toca. De novo a confederação de Futebol. "Eles querem de qualquer maneira uma revanche", diz ele. "Meus soldados deverão jogar contra a seleção do Haiti".
É bonito jogar. Mas os haitianos também querem ganhar.
