Artigo O Brasil e as regras internacionais (Jornal do Brasil - 19 de dezembro de 2007)

José Flávio Sombra Saraiva É PHD pela Universidade de Bimingham (Inglaterra) e professor de Relações Internacionais da UnB.

 

POLÍTICA EXTERNA

O ano de 2007 foi um ano sem susto para a política externa do Brasil. A política praticada foi matéria de Estado, de cálculos e interesses de longo prazo. O primeiro ano do segundo governo Lula não trouxe nenhuma alteração de rumo, mas permitiu ampliar o raio de ação do Brasil no contexto global. A diplomacia de Amorim manteve o padrão dos primeiros quatros anos do governo, aprofundando certas nuanças e reduzindo o impacto de outras áreas de trabalho da política externa nacional ante o meio internacional.

Em tomo de duas grandes áreas pode-se constatar a conservação das enfases conferidas à inserção internacional do país desde 2003. A primeira é o esforço supletivo que a diplomacia brasileira procurou empreender no sentido da insistência, junto à comunidade internacional, de que o Brasil deve ser visto como um país de gestos com alcance global. A concentração de energias no encaminhamento da Rodada de Doha é exemplo disso. Os movimentos na busca de um lugar permanente para o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas é outra evidência de que as direções tomadas antes permaneceram no coração do processo decisório da política exterior de Lula.

A inclinação a sugerir a presença militar brasileira no Haiti como um modelo, sob os auspícios do esforço da ONU, é evidente no jogo de ampliação da presença internacional do Brasil. O país, nesse sentido, não quer apenas acatar a criação de regras internacionais. Em outras palavras, o Brasil de 2007 fez ver ao mundo, nas palavras diretas de seu chanceler, que não podemos ter uma política externa de país pequeno.

A segunda área a chamar a atenção foi a ênfase dada ao aprofundamento da ligação do Brasil com seus vizinhos sul-americanos, apesar de todos os riscos que esta delicada operação significa. A vertente regional foi entendida como vital para a realização dos interesses e valores brasileiros. Mesmo diante da alteração de humor e de gestos cheios de emoção de alguns líderes regionais, o Brasil manteve a serenidade. O país realimentou o velho paradigma da "cordialidade oficial" com seus vizinhos, criado ainda no século 19 pelo Visconde de Rio Branco, nas grandes questões do Rio da Prata. Ele segue atual e foi ressuscitado pela diplomacia de Amorim.

Diante das enormes fronteiras do Brasil na América do Sul, da internacionalização das empresas brasileiras que ampliam sua plataforma operacional na região, e da delicadeza do momento vivido por alguns Estados - com grandes desgastes junta à opinião pública mundial e mesmo em foros internacionais -, o Brasil ampliou, em 2007, os cuidados com sua fronteira ocidental. Os desafios de aprofundamento do Mercosul seguem depois da criação, neste ano, do Parlamento do Mercosul e de outros órgãos consultivos do bloco, como 0 Encontro de Governadores e Prefeitos. A criação do Banco do Sul, com participação ainda que reticente do Brasil, demonstra que o país não quer se isolar da região e tampouco pode permitir que se criem situações de inviabilidade e insegurança coletiva na região. Manter contato de alto nível com as diferentes lideranças da região foi tarefa dificil, mas bem encaminhada pela diplomacia brasileira em 2007.

Há, no entanto, áreas que ganharam novo enfoque e mais visibilidade no último ano. Uma delas foi a elucidação para certos críticos que a politica externa do Brasil atual não tinha e nem tem traços anti-americanos. Foram definitivos os números da ampliação do intercâmbio comercial com os Estados Unidos. E mais ainda as visitas de alto nível realizadas por Lula aos Estados Unidos e por Bush ao Brasil. Havia matérias que se acumularam sobre a pauta da relação que necessitavam melhor tratamento e menos preconceito. Essa foi uma área que fluiu em 2008. O entendimento Brasil-Estados Unidos em torno de novas energias limpas foi um ganho diplomático e econômico de peso indeclinável.
Se seguir nesse ritmo, a política externa do Brasil assegura para o ano que se anuncia um caminho seguro, sem susto, e com a tranqüilidade de que esta é uma área de governo na qual a nação já encontrou seu lugar no mundo. A política externa afirmou-se em 2007 como correta e proporcional a um país sério e responsável, já expressivo na economia mundial, mas tão desigual e complexo, que contém Primeiro e Terceiro Mundos nos seus intestinos.

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