Artigo "O bom elitismo/Opinião" (Jornal de Brasília - 28 de janeiro de 2005)
Jorrnal: Jornal de Brasília Título: O bom elitismo/Opinião Data: 28/01/2005
O elitismo é como o colesterol: há o bom e o mau. O mau elitismo decorre da garantia de privilégios aos membros de uma aristocracia, cultural ou financeira, herdada. O bom elitismo é o resultado da competência adquirida por esforço e talento. O papel de um governo progressista é acabar com o primeiro e apoiar o segundo. É isso, a meu ver, que o Ministério das Relações Exteriores fez, ao acabar com o caráter eliminatório do Inglês no concurso para o Instituto Rio Branco. Favoreceu o conjunto de conhecimentos do candidato, e não uma disciplina isolada.
Acredito que houve equívoco no anúncio de que a medida visava a deselitizar o serviço diplomático brasileiro. Mas considero, sim, acertada a decisão de considerar a nota em Inglês como classificatória, e não mais eliminatória, para o acesso à carreira diplomática. Tive a honra de ser professor do Instituto Rio Branco. Naquela casa, tive alguns dos meus melhores alunos. Mas sempre me perguntei quantos jovens também brilhantes perdiam a chance de ingressar no serviço diplomático brasileiro, em função da exigência do conhecimento prévio da língua inglesa. Alunos com excelente desempenho em sua vida acadêmica, que poderiam ter formulado, no decorrer de suas carreiras diplomáticas, a política externa que teria feito do Brasil o líder internacional no qual somente agora começa a se transformar; alunos que poderiam ter representado o País de maneira excepcional, junto à comunidade internacional, utilizando os idiomas aprendidos no decorrer do seu curso de formação.
O conhecimento de idiomas estrangeiros, especialmente do Inglês, é absolutamente necessário ao diplomata. Mas seu conhecimento prévio pouco diz do potencial de criatividade, conhecimento e competência de um jovem de pretenda ingressar no curso de diplomacia. Henry Kissinger, por exemplo, teria sido reprovado em nosso curso de diplomacia, pois até hoje fala com sotaque alemão.
Nenhum brasileiro deve ser diplomado pelo Instituto Rio Branco se não for fluente em inglês e outros idiomas estrangeiros. Mas o serviço diplomático brasileiro não pode continuar perdendo excelentes diplomatas por não possuírem domínio do Inglês no momento do ingresso no curso – pessoas que, no momento da seleção, perdem para outras que tiveram a oportunidade de viver no exterior, ou que têm pais bilíngües, ou que tiveram a chance de começar cedo o estudo de idiomas, ou ainda que possuem um dom específico para aprendê-los.
Por isso, estou convencido de que, ao mesmo tempo em que elimina o Inglês das provas eliminatórias, o Instituto Rio Branco oferecerá cursos intensivos para os selecionados não fluentes nos idiomas fundamentais às relações internacionais no mundo moderno, como Inglês, Espanhol, Francês, Russo, Árabe, Chinês.
É preciso também chamar atenção para um fato importante. Essa decisão do Ministério das Relações Exteriores traz um gesto raro gesto na administração pública brasileira: o de abrir mão de um privilégio concedido aos dependentes de seus servidores. Ao considerar o Inglês como disciplina obrigatória, o processo de seleção terminava beneficiando jovens que tiveram a chance de viverem no exterior quando crianças, como ocorre com os filhos dos diplomatas. Sem qualquer fisiologismo, o caráter eliminatório da língua inglesa terminava favorecendo os "filhos da carreira". Abrir mão desse privilégio é uma posição surpreendentemente positiva na administração pública brasileira.
Cristovam Buarque é professor da UnB, senador (PT-DF) e ex-ministro da Educação no governo Lula.
