Artigo "Novo perfil nas importações brasileiras" (Editorial da Gazeta Mercantil, 4 de abril de 2007)
"Novo perfil nas importações brasileiras"
Os dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior relativos à balança comercial do primeiro trimestre registram queda no superávit brasileiro de 6,4% em relação ao mesmo período de 2006. Se a comparação for feita apenas em relação ao mês de março, o quadro agrava-se, uma vez que a redução do superávit atingiu 8,5%. Parte deste recuo na balança comercial pode ser localizada em um atípico movimento na corrente de comércio entre Brasil e Argentina. As importações brasileiras do vizinho cresceram 40,5% no primeiro trimestre (atingindo R$ 2,2 bilhões), ante o mesmo período do ano passado, enquanto as exportações avançaram 15,5% (US$ 2,8 bilhões). Este saldo, de US$ 581 milhões, é bem inferior aos US$ 855 milhões obtidos nos três primeiros meses de 2006.
O secretário de Comércio Exterior, Armando Meziat, observou que esta redução representa uma "distensão" com os parceiros do Mercosul. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, foi mais preciso ao ponderar que intercâmbio comercial com a Argentina deve apresentar constante crescimento porque, para o chanceler, "é importante o mínimo de equilíbrio". Com razão, o secretário Meziat lembrou que os vizinhos sempre se queixam às autoridades brasileiras do saldo negativo nas relações comerciais com o Brasil, concluindo que o recuo no superávit demonstra o "acerto" das negociações com os argentinos. Conforme o secretário, o crescimento das vendas dos vizinhos "é preocupação nossa".
Este é, de fato, o ponto relevante: equilíbrio de negócios. É exatamente deste equilíbrio que depende o futuro do Mercosul. O objetivo maior do bloco é a busca de complementaridade de cadeias produtivas entre os dois lados da fronteira. E o primeiro passo para que esta vontade se transforme em realidade está, obviamente, na fina sintonia entre importação e exportação do Brasil e da Argentina. O Mercosul foi feito para intensificar comércio, não enfrentamentos. Obtido o equilíbrio, será bem mais fácil tanto expandir comércio no bloco como enfrentar as novas formas de negociações comerciais internacionais.
O perfil das importações brasileiras, por outro lado, demonstra que bens de capital avançaram 24% no primeiro trimestre, ante 2006, e matérias-primas e produtos intermediários, 28,1%, mostrando, como argumentou o secretário Meziat, que a indústria está "querendo produzir mais, reduzir custos e competir com os importados". O item mais preocupante da pauta de importações é o bem de consumo. No trimestre, as compras externas de bens de consumo avançaram 39%, comparadas ao ano anterior, embora representem apenas 13,2% das compras do País. Para o secretário do Comércio Exterior, o consumo reflete a taxa de câmbio favorável, mas só será preocupante, segundo Meziat, "quando se tornar avassalador". Frente a tanto otimismo, convém lembrar que o dólar ontem fechou a R$ 2,037, embicado na direção da quebra do valor simbólico dos R$ 2, apesar de toda a tranqüilidade vigente no governo.
As exportações argentinas para o Brasil tradicionalmente concentram-se em bens de consumo, com exceção do setor automotivo. Sobre o perfil das exportações dos dois maiores integrantes do Mercosul valem algumas cautelas, principalmente quanto às vendas externas brasileiras e não às da Argentina. No acumulado de 12 meses, as exportações de manufaturados subiram 15,6%, abaixo dos semimanufaturados, que aumentaram 16,4%, e muito abaixo da expansão das exportações dos primários, 26,4%. Aliás, como apontou a Associação de Comércio Exterior do Brasil, entre janeiro e março as exportações brasileiras de motores foram 11,4% menores e a de automóveis, 14% piores do que as registradas no primeiro trimestre de 2006.
O equilíbrio de comércio entre Brasil e Argentina está na própria origem do Mercosul. Vale lembrar que o bloco se consolidou no Tratado de Comércio de Buenos Aires, de 1988, que, a exemplo da União Européia, construída a partir da aliança França/Alemanha, incentivava um mercado comum inicial e consolidado entre Brasil e Argentina. Neste aspecto, equilíbrio na corrente de comércio entre os dois países é realmente benéfico.
