Artigo "Lupa no Mercosul/Opinião" (Folha de São Paulo - 17 de dezembro de 2004)

Jornal: Folha de São Paulo Título: Lupa no Mercosul/Opinião Data: 17/12/2004 Crédito: Clóvis Rossi

 

SÃO PAULO - Permita-me o leitor juntar-me a Paulo Nogueira Batista Jr. na sua defesa do Mercosul, feita ontem nesta Folha. Não é apenas solidariedade na solidão (opinativa) em que em geral nos encontramos, mas uma questão de fatos.

1 - Um dos principais argumentos dos críticos é o fato de a Argentina ter imposto uma série de restrições à compra de produtos brasileiros. O fato é verdadeiro, mas a sua dimensão está sendo muito exagerada.

Prova: as exportações brasileiras para o mundo aumentaram 31% no período janeiro/outubro de 2004 sobre idêntico período do ano passado. Mas as exportações para a Argentina aumentaram, na mesma comparação, 66,5%, mais que o dobro portanto. Para o Mercosul, o aumento de exportações foi de 61,5%.

2 - Outra linha de crítica diz que, por causa dos argentinos e/ou dos demais sócios no Mercosul, as propostas do bloco para as negociações com os Estados Unidos e com a União Européia foram conservadoras e, por extensão, impediram um acordo justamente com os dois grandes mercados do planeta.

Logo, seria melhor aguar o Mercosul de forma a permitir que o Brasil negocie isoladamente.

No caso da União Européia, o argumento é, no mínimo, falacioso: a UE só tem mandato para negociar com o Mercosul, não com cada país isoladamente. Não há, pois, hipótese de uma negociação Brasil/UE.

No caso da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), o problema não é a Argentina, mas o impasse Brasil/EUA. O governo, o atual e o anterior, defende uma série de pontos -legítimos, na minha opinião- que Washington não aceita, o que emperra a negociação.

Mesmo que a Argentina, o Paraguai e o Uruguai fossem tragados por um terremoto, a Alca continuaria no pântano em que está.

Pode-se legitimamente ter opiniões e argumentos contra o Mercosul. Mas embrulhar o ataque em falácias e/ou omissão causa uma baita desconfiança sobre os verdadeiros motivos por trás da crítica.

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