Artigo "Lula apresenta-se ao mundo" (jornal Süddeutsche Zeitung, Alemanha, 25/11/09)
Peter Burghardt
O presidente do Brasil governa um estado em ascensão e chama a atenção com sua política externa
Nos últimos tempos, poucos políticos são procurados como o presidente brasileiro. O antigo operário e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu se tornar o líder mais popular da América Latina. Oito em cada 10 brasileiros gostam ou até amam este político voltado ao povo que lida igualmente com o mundo pobre e com o mundo das altas finanças. O resto do mundo também está encantado. “Esse é o cara” disse o seu colega de pasta americano Barack Obama. Lula é tão procurado que o chefe de estado de Israel Schimon Peres e o presidente palestino Mahmud Abbas visitaram o Brasil em seguida. Lula recebeu também o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. Isto mostra o quanto a política externa de Lula é interessante, confiante e desconcertante.
Especialmente Israel e os meios conservadores em Washington estão ofendidos com a visita de Ahmadinejad. Como é que um estadista sério pode abraçar como se fosse um velho amigo este homem de Teerã expulso da família internacional? No caso do presidente venezuelano isto pode ser algo natural e conhecido. Chávez e Ahmadinejad são alvo de críticas internacionais. Ambos possuem grandes reservas de petróleo e compartilham uma antipatia pelos EUA. No caso de Lula, esta aproximação causa desconforto.
O esperto brasileiro queria superar esta prova de firmeza e mostrar o seu pragmatismo e sua independência. Lula defende o direito do uso pacífico da energia nuclear como no caso do programa nuclear iraniano e disse perante Ahmadinejad, que nega o holocausto, que é preciso ter um “estado israelense seguro e soberano”. Ele queria transmitir duas mensagens. A primeira: que os dois grandes produtores de energia irão cooperar de forma melhor. A segunda, mais interessante para o mundo e especialmente para os EUA: o Brasil está de volta.
Antigamente, a diplomacia do maior país entre a Amazônia e o Atlântico era moderada. Isto está mudando. A quinta maior nação do mundo está se tornando uma potência global atuando no mesmo palco com a China e a Índia. O enorme setor agrícola, a aviação e outros setores de produção industrial podem ser mencionados ao lado de gigantescas reservas de petróleo no litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 2014, o Brasil sediará a Copa do Mundo, em 2016 haverá os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.
Lula simboliza este progresso e também a idéia de ter um poder crescente. Ele iniciou a modernização das Forças Armadas e segue um nacionalismo moderado. Sob sua égide, o desejo do Brasil de ter um assento no Conselho de Segurança nas Nações Unidas recebeu certo peso. A visita de Ahmadinejad foi apenas um pequeno sinal, mas igualmente arriscado. O passado nuclear do Brasil não foi esquecido. Ahmadinejad pode querer utilizar este fator.
Sendo a voz mais importante da região, Lula empenhou-se, na sua vizinhança. Ele simboliza a conexão entre o esquerdista venezuelano Hugo Chávez e o colombiano da direita Álvaro Uribe. O Brasil lidera com êxito a missão das Nações Unidas no Haiti e abriga a meses o presidente hondurenho Manuel Zelaya em sua embaixada em Tegucipalpa. Mas em Honduras Lula encontrou os limites que são determinados pelos EUA. Washington não impediu os golpistas e as eleições absurdas.
Por isso, ele se frustrará com o papel de mediador no Oriente Médio. Porém, a tentativa é valida, justamente por causa da presença de Ahmadinejad no país. Lula, o sindicalista do passado, é um talentoso negociador. Se conseguir avançar, ele se qualificará a cargos internacionais como, por exemplo, o de presidente do Banco Mundial. O seu mandato como presidente da república terminará em 2011. O que falta a todos os candidatos para sua sucessão é o carisma de Lula.
