Artigo "Disputas dominam Mercosul" (Correio Braziliense - 12 de dezembro de 2004)

Jornal: Correio Braziliense Título: 'Disputas dominam Mercosul' Data: 12/12/2004 Reunião entre representantes do Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai tenta botar o maior bloco comercial da América Latina nos eixos. Mas será difícil conjugar tantos interesses diversos Arnaldo Galvão Da equipe do Correio

Começam amanhã, em Belo Horizonte, as reuniões de representantes dos quatro países que integram o Mercosul. Brasileiros, argentinos, uruguaios e paraguaios terão cansativos compromissos, mas o que vai chamar atenção, novamente, é a tensão comercial entre os dois principais sócios do bloco. O governo argentino quer mudar as regras do jogo para poder impor salvaguardas. São medidas para proteger temporariamente a indústria daquele país contra surtos de importações que estiverem causando ou ameaçando resultar em graves prejuízos. A elevação de tarifas ou o estabelecimento de restrições às importações (cotas) são exemplos de salvaguardas.

O Brasil, principal prejudicado com o protecionismo argentino, é contra. Mas o dilema é grave: como dizer não sem usar essa palavra nada diplomática? Afinal, as prioridades da política externa do governo Lula são a América do Sul e o Mercosul. Tensões à parte, as palavras do ministro das Relações Exteriores do Brasil, embaixador Celso Amorim, vêm jogar água nessa fogueira. ‘‘Vejo, às vezes, um certo ceticismo da mídia sobre o Mercosul, mas não sinto isso no povo. O povo é a favor do Mercosul. O presidente Lula quer. E eu acho que o povo brasileiro, em sua grande maioria, sabe o que é bom para o Brasil’’, diz.

Sobre a tão criticada falta de harmonia entre Brasil e Argentina, Amorim esbanja calma. Garante que ela está sendo construída com criatividade. Uma política industrial comum é um projeto ainda embrionário, mas sinaliza contra o que ele chama de volta ao passado. ‘‘Temos de saber enfrentar as transições, desde que não limitem a integração e o comércio. É preciso encontrar a forma de essas políticas industriais se encadearem’’, afirma o chanceler.

Várias leituras

O contraste das leituras sobre os fatos que marcam o Mercosul é enorme. Amorim fica com o otimismo de quem defende um projeto prioritário de longo prazo. Sua confiança vem, segundo ele, da boa vontade dos empresários brasileiros e argentinos. ‘‘Sou amigo do Ivoncy Ioschpe (presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial - Iedi) e o convenci a convidar os argentinos para um seminário sobre nanotecnologia. A Argentina tem um padrão médio de educação maior que o brasileiro. Eles têm três prêmios Nobel na área científica e nós nunca tivemos nenhum. Vamos somar esforços. Isso não é um jogo de futebol’’, garante o ministro.

Na sexta-feira, os chefes de Estado de várias nações participarão da Cúpula de Ouro Preto. Foi nessa cidade mineira, em 17 de dezembro de 1994, que foi assinado o histórico acordo que consolidou a maior união aduaneira da América Latina. Ainda não foi confirmada a presença do presidente da Argentina, Néstor Kirchner.

Osvaldo Douat, presidente do Conselho de Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e coordenador da Coalizão Empresarial Brasileira, concorda com o ministro Celso Amorim: a solução para o Mercosul é mais Mercosul. Mas alerta que isso está sendo muito difícil no momento. ‘‘A imagem do Mercosul junto aos empresários brasileiros está prejudicada pela falta de harmonia interna’’, revela.

Para a diretora-executiva do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), Denise Gregory, o Mercosul é um sucesso político e comercial. Ela diz ainda que é injusto compará-lo à União Européia e alerta para a falta de uma visão de médio e longo prazos. ‘‘O pior é ficar brigando no varejo, olhando problemas isolados’’, critica.

Avanços

Apesar das turbulências, o Mercosul também produz fatos que permitem um olhar positivo. Além da possibilidade futura de Brasil e Argentina articularem suas políticas industriais, uma antiga e insistente reivindicação dos sócios será realidade. Os quatro países vão aprovar nesta semana as normas de habilitação de empresas para as licitações de bens, serviços e obras dos governos centrais. O Brasil gasta aproximadamente R$ 12 bilhões por ano com fornecedores.

Outro progresso do bloco que agradará aos três sócios do Brasil é a aprovação do fundo estrutural que vai dirigir investimentos públicos para reduzir desigualdades e melhorar o poder de competição das exportações. O dinheiro estará disponível em 2006.

No aspecto externo, a semana mineira também deverá ter a assinatura de dois acordos de preferências tarifárias fixas com Índia e África do Sul. Serão reduzidas tarifas de importação de quase dois mil produtos. É a base para um futuro acordo de livre comércio.


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