Artigo Brasil - superpotência “habilidosa”, publicado na revista Newsweek (22/04/2009)

Brasil - superpotência “habilidosa” (Mac Margolis)

Alternando charme e perspicácia, moderação em relação aos EUA e proximidade a Obama, Lula está construindo um gigante regional único.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, está “bombando”. Nas últimas semanas, ele dividiu o palco com Gordon Brown e Nicolas Sarkozy e recebeu cumprimentos efusivos (“my man”) de Barack Obama durante a reunião do G20 em Londres. Ele até tirou uma foto ao lado da rainha Elizabeth II. O ex-torneiro mecânico, que passou décadas fazendo piquete contra o “capitalismo selvagem”, hoje faz jus ao brinde de banqueiros e Conselhos administrativos. “Você não acha chique o fato de agora estarmos emprestando dinheiro ao FMI?”, ele brincou em uma entrevista coletiva.

Há não tanto tempo atrás, tais cenas teriam sido improváveis. Com uma democracia jovem, uma pobreza dilacerante e uma economia dada a acidentes, os líderes brasileiros eram mais vistos na fila para pedir ajuda à economia do País que lado-a-lado com os grandes líderes no cenário internacional. Após décadas de passos em falso, o Brasil tornou-se uma democracia sólida adepta do livre-mercado, uma ilha rara de estabilidade em uma região em desordem, um país governado pelo respeito às leis e não pelo humor de autocratas. Como nunca antes, o Brasil está se posicionando de uma maneira marcadamente diferente da de outros grandes atores globais. Ao longo das últimas décadas, o País emergiu como uma potência regional única. Valendo-se da cobertura proporcionada pelo guarda-chuva de segurança dos EUA e de um hemisfério sem inimigos para valer, o Brasil tem tido liberdade para lançar mão de sua enorme vantagem territorial na América do Sul para cooptar, influenciar e favorecer vizinhos, ao tempo em que gerencia a contenção de seu mais problemático vizinho, a Venezuela. Lula governa uma superpotência “habilidosa” sem comparação com qualquer outro gigante emergente.

Os chineses policiam o estreito de Taiwan, e Moscou nunca abriu mão da esfera soviética de influência no Cáucaso. As tarefas de segurança da Índia vão da fronteira com o Paquistão ao Golfo Pérsico, e Washington projeta seu poder do Pólo Sul ao Pólo Norte. Já o Brasil estabeleceu suas ambições internacionais sem brandir um sabre. Quando os ânimos esquentam entre vizinhos - como quando o Equador e o Peru quase entraram em guerra na década de 90, e depois que a Colômbia bombardeou acampamentos na selva do Equador no ano passado - diplomatas e advogados são mandados para as zonas de conflito em lugar de flotilhas ou tanques. E quando forças de paz da ONU entraram em confronto com gangues de rua no Haiti, os brasileiros não apelaram para um reforço de tropas, mas recorreram a futebolistas como Ronaldinho, Robinho e Ronaldo, que jogaram um amistoso na zona de guerra. Agora os jovens do Haiti batalham com chuteiras, e não com Kalashnikovs.

Os brasileiros também tornaram-se uma voz mais confiante para os mercados emergentes em temas internacionais. Eles congregaram as principais nações em desenvolvimento para desafiar os subsídios agrícolas dos ricos, e formaram um grupo atualmente conhecido com G5. Por convocação de Brasília, os Embaixadores do Brasil, China, Índia e Rússia agora mantêm encontros mensais em Washington para coordenar uma estratégia comum dos BRICs, frequentemente para fazer frente a posições dos EUA. Ao promover sua agenda “Sul-Sul”, o Governo Lula abriu 35 Embaixadas desde o início da gestão em 2003, a maioria delas na África e no Caribe. O Brasil também lidera uma amplamente respeitada missão de manutenção da paz no Haiti, país que é um dos maiores casos de fracasso no hemisfério.

O Brasil pode fazer tudo isso em grande medida, porque não tem Estados inimigos com que se preocupar, e portanto fica liberado de muitas das responsabilidades vinculadas a esse quadro, como patrulhar rotas marítimas. Além disso, os Estados Unidos sempre foram a última instância para a manutenção da paz na região, e, enquanto nações emergentes em muitas zonas turbulentas devem gastar parte preciosa de suas riquezas em defesa, as despesas militares do Brasil têm permanecido estagnadas em torno de 1,5% do PIB, o que representa ¼ dos gastos da China com defesa e cerca de 60% dos gastos da Índia e da Rússia. “O Brasil não tem a ambição de ser uma potência militar”, afirma Amaury de Souza, um analista político brasileiro. “O que nós temos é força econômica, um histórico de defesa dos nossos interesses e uma cultura complexa e pujante”.

Durante anos, o Brasil desejou ter um papel mais importante nas questões mundiais, que o mundo recusou-se a dar. Apesar de seus esforços na guerra - o Brasil foi o único país latino-americano a enviar tropas à Europa durante a II Guerra Mundial - não teve lugar na mesa de negociações posterior ao conflito. A estatura internacional do Brasil finalmente recebeu um “upgrade” em meados da década de 90, quando a administração de Fernando Henrique Cardoso, orientada por uma mentalidade voltada para reformas, derrubou a inflação, abriu o País para o comércio e normalizou relações até então estremecidas com a comunidade financeira internacional. Cardoso conseguiu converter a boa disposição em torno da jovem democracia brasileira em um papel de maior influência no exterior. Ele defendeu o pleito brasileiro por um assento no Conselho de Segurança da ONU, deu impulso à zona de livre comércio do Mercosul e liderou as maiores nações em desenvolvimento sob a bandeira do livre comércio.

Mas nenhum governo foi tão determinado quanto o de Lula na perseguição do objetivo de ampliar a presença internacional do Brasil. Ainda que tenha começado sua carreira política na esquerda, Lula surpreendeu tanto investidores nacionais quanto estrangeiros ao manter as políticas favoráveis ao mercado de Cardoso, para a frustração de seus aliados do Partido dos Trabalhadores. Para a esquerda, ele ofereceu uma política externa de mais musculatura. “Lula ‘anabolizou’ a política externa de Cardoso”, diz Donna Hrinak, ex-Embaixadora dos EUA em vários países latinos.

Lula dobrou o número de departamentos no Ministério de Relações Exteriores e embarcou em um itinerário internacional de tirar o fôlego, visitando 45 países e gastando quase um de cada cinco meses de mandato fora do País desde 2007. “Aero-Lula” foi a marca a ele dedicada pela imprensa brasileira. O objetivo explícito dessa diplomacia foi o de fortalecer relações com outros países em desenvolvimento. Mas a visibilidade ampliada de Lula também ajudou a forçar os países mais ricos a diminuir barreiras ao comércio. Em dois casos de grande repercussão em 2004, a OMC julgou a favor do Brasil, ordenando os EUA a abandonar subsídios a produtores de algodão e dizendo à Europa para dar fim à proteção à indústria de açúcar de beterraba. Ao manter-se fiel ao firme apoio de Lula ao livre comércio, o Brasil também esteve ao lado dos EUA nas recentes negociações comerciais da Rodada de Doha no que se refere às próprias barreiras protecionistas dos países em desenvolvimento. Em um recente relatório que advertia para o crescimento do protecionismo em nações em desenvolvimento, o Banco Mundial elogiou os brasileiros por resistir às pressões em favor do fechamento de suas próprias fronteiras.

Pelo menos parte desses esforços é resultado da estratégia não-declarada do Brasil de atenuar a influência dos EUA na região e dissipar expectativas de que possa atuar como uma linha auxiliar de Washington. De fato, enquanto autoridades norte-americanas dão brilho às relações com seu novo “parceiro global”, Brasília tem basicamente mantido silêncio enquanto o homem-forte da Venezuela, Hugo Chávez, ameaça companhias estrangeiras, intimida a oposição e bate na Justiça e no Congresso.

“Ninguém pode dizer que não existe democracia na Venezuela” é a defesa padrão que Lula faz de seu “companheiro” Hugo Chávez. Citando a regra global do respeito à soberania, o Brasil condenou categoricamente a Colômbia, o principal aliado dos EUA na região, por atacar um acampamento da guerrilha na selva equatoriana, no ano passado; e rotineiramente se abstém de votar resoluções da ONU que condenem as violações dos direitos humanos em Cuba.

Mas Lula jamais embarcou na revolução bolivariana. Ao contrário, tem controlado a região por meio da cooptação dos vizinhos com o comércio, transformando a região em um mercado cativo para as mercadorias brasileiras. Por fim, o poder do Brasil vem não das armas, mas de seu enorme arsenal de recursos naturais, que incluem óleo, gás, metais, soja e carne - e o País se tornou um provedor estratégico para mercados na Ásia e nas redondezas. O Brasil goza hoje de superávit comercial com todos os países da região, o que inclui US$1 bilhão com a Venezuela. “Ao transformar recursos naturais em bens com valor agregado, o Brasil tem sido capaz de atuar com um peso maior que seu”, observa David Rothkopf, ex-funcionário do departamento do Comércio do EUA.
Por exemplo, Lula conteve duas iniciativas grandiosas de Chávez, um banco de desenvolvimento regional (Banco del Sur) e uma refinaria conjunta brasileiro-venezuelana, ao discretamente recusar-se a alocar o dinheiro necessário. Ele também recriminou Chávez por seus generosos gastos em armas modernas, ainda que a economia venezuelana seja tão fraca que se tornou dependente do Brasil para bens de consumo básicos. “Jesus Cristo, para que você quer essas armas?”, Lula teria cobrado de Chávez em uma visita recente. “Não se pode nem mesmo conseguir leite para o seu café nos hotéis”. O Congresso brasileiro pode acabar aprovando a entrada da Venezuela no Mercosul nas próximas semanas, não como endosso aos desígnios imperiais de Chávez mas como modo de contê-lo por meio das obrigações do bloco comercial, tais como respeito à democracia e respeito à propriedade.

Isso pode ser política de risco. Mas a aposta bem informada está com os brasileiros. Ainda que sem um manual para tornar-se uma potência global, o Brasil de Lula parece estar escrevendo um manual próprio.
 

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