LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, presidente do Brasil
NICOLAS SARKOZY, presidente da França
A
PRÓXIMA reunião de cúpula do G8, e do G8 + 5 (África do Sul, Brasil,
China, Índia e México, mais Egito), a realizar-se em Áquila, na Itália,
será a primeira desde que se tomou pleno conhecimento da extensão da
crise financeira e econômica que estamos enfrentando. A crise ressalta
o nosso grau de interdependência e impõe aos líderes a necessidade de
dar uma resposta coletiva, baseada em valores e responsabilidades
compartilhadas. Também nos força a avaliar o desempenho das
instituições internacionais e a repensar as atuais estruturas de
governança global.
A necessidade de reformar a governança global
não nasceu com a crise. Bem antes de sua eclosão, já era patente o
déficit de representatividade e de coerência do sistema multilateral. A
capacidade das instituições internacionais de superar os graves
desafios do mundo atual precisa ser reforçada, e seus mandatos,
revistos.
Isso se aplica aos mais diversos campos, da economia à
segurança, da energia ao meio ambiente. A crise apenas evidenciou o
fato de que nós, líderes de nossos países, precisamos ser sujeitos das
reformas necessárias para a construção de um mundo mais justo,
desenvolvido e sustentável. Não estamos começando do zero.
Algum
progresso já foi alcançado. Em temas econômicos e financeiros, as
cúpulas do G20 de Washington e de Londres contribuíram para fortalecer
o diálogo entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento. Fomos
capazes de chegar a resultados concretos porque nos unimos.
As
reuniões entre o G8 e o G5/G6 são outro exemplo da necessidade de
incluir os países emergentes nas discussões sobre o futuro da economia
internacional e sobre o enfrentamento dos desafios globais. Os países
emergentes representam não apenas uma parcela enorme do território e da
população do planeta mas também (e cada vez mais) do consumo e da
produção globais. Nunca a cooperação internacional foi tão necessária.
Agora
precisamos ir além. As organizações financeiras internacionais, como o
FMI e o Banco Mundial, precisam dar maior peso às economias emergentes
mais dinâmicas nos seus processos de tomada de decisões.
Também
devem ser postas em prática as decisões tomadas pelo G20, no sentido de
melhor regular e supervisionar as finanças internacionais, coibir a
especulação, combater os paraísos fiscais e centros de lavagem de
dinheiro e promover o crescimento. Com a crise, a ameaça do
protecionismo ganhou novo impulso. A conclusão da Rodada Doha da OMC é
tarefa urgente, para que se possa alcançar acordo ambicioso, amplo e
equilibrado que beneficie sobretudo os países em desenvolvimento -em
particular os mais pobres- e para que se reforce o multilateralismo
comercial.
Mas, para tirarmos todas as lições da crise, nós
precisamos seguir nesse esforço e estendê-lo para além da esfera
econômica e financeira. Não há paz sem desenvolvimento econômico e
social nem há prosperidade duradoura sem estabilidade e segurança. Cada
vez mais, os conflitos ocorrem em países fragilizados social e
economicamente. A pobreza e a exclusão social agravam a instabilidade
no sistema internacional.
É chegado o momento de priorizar a
dimensão social da globalização. Em todo o mundo, trabalhadores que
enfrentam a tempestade econômica clamam por mais justiça e por maior
segurança. Suas vozes precisam ser ouvidas. O impacto social da crise
atual deve ser enfrentado diretamente pelas organizações
internacionais, e o papel da OIT na governança econômica global deveria
ser muito fortalecido nesse aspecto. A estrutura para o tratamento da
paz e da segurança coletiva também requer adaptações significativas.
Deve-se levar a bom termo um processo abrangente de reforma do Conselho
de Segurança da ONU, de modo a salvaguardar uma ordem internacional
mais equilibrada e inclusiva.
Para garantir a eficácia do
conselho, ele deve refletir as realidades atuais, inclusive um papel
maior para os principais países em desenvolvimento em todas as regiões,
como o Brasil e a Índia, uma representação mais justa para a África e
para os principais contribuintes das Nações Unidas, como o Japão e a
Alemanha.
Outros perigos também ameaçam a paz e o
desenvolvimento. A mudança do clima impõe enorme desafio à governança
global. É preciso chegar a resultado ambicioso em Copenhague, em
dezembro, para alcançarmos o objetivo comum de evitar uma séria mudança
climática e limitar a 2 o aumento da temperatura global. Todas as
nações devem reduzir suas emissões conforme as recomendações do IPCC e
o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas.
Outros
desafios globais incluem o crime organizado e transnacional, o
terrorismo, o tráfico de pessoas e de drogas, as pandemias e a
segurança alimentar. Nossas respostas a essas ameaças são insuficientes
muitas vezes, por causa da fragmentação das organizações internacionais
e de sua tendência a duplicar trabalhos.
Os mecanismos atuais
para a governança global são inadequados para lidar com o caráter
sistêmico e a inter-relação dos diversos desafios que enfrentamos. A
escala da crise econômica cria uma oportunidade única para que se
comece a reformar amplamente as instituições internacionais. O Brasil e
a França desejam oferecer ao mundo sua visão compartilhada de um novo
multilateralismo adaptado ao mundo multipolar. Não podemos lidar com os
problemas do século 21 com instituições internacionais que são legado
do século 20.
Junto com outros líderes mundiais, precisamos
forjar uma "Aliança para Mudança", a fim de promover essa visão de uma
ordem mundial mais democrática, fundada em maior solidariedade e
justiça. Isso é o que os cidadãos do mundo esperam de nós. Somente
assim estaremos à altura dos desafios do nosso século.
