Artigo "A visita" (O Globo - 07 de outubro de 2004)
Jornal: O Globo Título: 'A visita' Data: 07/10/2004 Crédito: Tereza Cruvinel
Não houve aspecto mais importante. Importante foi a visita em si, responde o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, voltando ao interior do Itamaraty, depois de acompanhar o secretário de Estado americano, Colin Powell, ao carro. Ao lado de sua mulher, Ana, arrematou como se pensasse em voz alta: "Quem diria que ainda o teríamos aqui elogiando nossa iniciativa para com a Venezuela?" Ali, no Itamaraty, onde foi homenageado por Amorim com um jantar para 40 pessoas, calculadamente informal e simples, um Powell simpático e à vontade distribuiu atenções, falando com os que lhe eram apresentados. E mesmo saindo de uma entrevista coletiva, dedicou outros minutos aos poucos jornalistas presentes. Em São Paulo e na coletiva, já dissera que o Brasil é um "sólido" candidato a membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, destacando sua liderança e influência regionais. Foi aí que louvou as iniciativas para com a Venezuela e a Bolívia e a chefia da missão de paz no Haiti. Mas quando o Brasil propôs a criação do Grupo de Amigos da Venezuela, o Departamento de Estado inicialmente foi contra.
Ao argumento de que a declaração era simpática mas não traduzia apoio à pretensão brasileira, ponderou: "Eu não poderia ir além daquela frase". Afinal, a América Latina tem outros dois pretendentes (Argentina e México), na Europa, há a Alemanha, na Ásia, Índia e Japão.
Em relação ao tema nuclear, foi mais ameno que em São Paulo, quando negara suspeitas e pressões americanas mas dissera, em tom de recomendação, que o Brasil deveria resolver suas pendências com a AIEA.
Contou-nos ele mesmo ter ido ao Planalto para um encontro de 15 minutos com Lula e que acabaram conversando uma hora e quinze minutos. Ele mesmo, já na saída, foi quem tocou no assunto, contando ao presidente que, abordado por jornalistas, dissera isso e aquilo. Ou seja: que os EUA não têm suspeitas quanto aos fins pacíficos do programa nuclear brasileiro, assegurado pela própria Constituição. Que não confundem o Brasil com Irã e Coréia do Norte e entendem perfeitamente o empenho em preservar a tecnologia nacional. Este é um problema a ser resolvido com a AIEA. Estava aqui apenas para externar apreço pelo Brasil.
E insinuando que os problemas às vezes são superdimensionados, lembrou que não ouvira ainda uma só pergunta sobre a crise dos vistos, que levou à identificação de americanos na chegada ao Brasil.
No jantar, uma saudação franca e descontraída de Amorim, falando das boas relações entre eles e entre seus países. -
- Divergir não é ser antagonista. Concordar não é ser subserviente. O Brasil não tem medo de divergir nem vergonha de concordar com os EUA.
Que nossa política externa busca boas relações com o maior e também com os países menores. Mais cedo, a bandeira de Barbados fora retirada do mastro que indica a presença de visitantes estrangeiros para dar lugar à dos EUA.
Powell retribuiu com uma fala não menos afável. Tudo vai bem, ele e Amorim falam-se a qualquer hora por telefone. Estranhezas podem existir. Jovens brasileiros que estudam nos EUA não entendem que seus colegas comam pizza tomando leite.
Na sobremesa, serviram-lhe, entre outras frutas, a para ele estranha jabuticaba. Coisas do Brasil.
