Artigo "A aliança Índia-Brasil-África do Sul" (Valor Econômico - 15 de setembro de 2006)

Jornal: Valor Econômico Título: 'A aliança Índia-Brasil-África do Sul' Data: 15/09/2006 Crédito: Luiz Inácio Lula da Silva

 

Estou recebendo em Brasília o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, e o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, para a reunião do Diálogo Índia-Brasil-África do Sul (Ibas). Essa cúpula expressa o engajamento da política externa brasileira na construção de parcerias com grandes países em desenvolvimento.

A idéia de criação do Ibas me foi proposta pelo presidente Mbeki, em janeiro de 2003. Aceitei-a com entusiasmo. Desde então não perdemos tempo. Em junho do mesmo ano nossos ministros de Relações Exteriores criaram o Foro Ibas, aqui em Brasília. A partir daí nossa aliança consolidou-se como uma iniciativa diplomática cada vez mais importante. Ela reúne três grandes democracias da Ásia, África e América Latina, que têm em comum seu caráter multicultural e multirracial.

O Ibas é, em primeiro lugar, um mecanismo de concertação política sobre grandes temas da agenda internacional, nos quais temos significativa identidade. Defendemos o multilateralismo e uma ordem internacional baseada no direito e na construção de consensos. Somos favoráveis a uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas que inclua países em desenvolvimento entre seus membros permanentes. Coincidimos em que a proteção ao meio ambiente é indissociável do combate à pobreza e do desenvolvimento econômico. Na Rodada Doha, nossa ação no G-20 dá absoluta prioridade aos cortes efetivos nos subsídios agrícolas dos países desenvolvidos. Estamos convencidos ser necessário um equilíbrio entre os direitos de proteção à propriedade intelectual e as políticas públicas na área da saúde.

Mas o Ibas é mais do que um instrumento que fortalece a voz dos países em desenvolvimento nos grandes debates mundiais. Constitui, também, um instrumento privilegiado para iniciativas concretas de cooperação trilateral em áreas como a agricultura, comércio, ciência e tecnologia, energia e transportes, entre outras. Nesta Cúpula, buscaremos avançar em entendimentos trilaterais nessas áreas.

O Ibas é um catalisador para a aproximação entre a América do Sul, a África Austral e a Índia. Exemplo concreto é a perspectiva de negociação, no momento oportuno, de acordo de livre comércio trilateral entre o Mercosul, a União Aduaneira Sul-Africana (Sacu), da qual faz parte a África do Sul, e a Índia. Em abril último, o Mercosul apresentou à Sacu e à Índia proposta de constituição de grupo de trabalho para examinar as linhas gerais de um possível acordo. O caráter pioneiro dessa iniciativa de aproximação comercial triangular entre três grandes regiões e países do mundo em desenvolvimento valoriza ainda mais o papel do Ibas.

Esse objetivo de aproximar os países em desenvolvimento não significa que queremos substituir parcerias mais tradicionais, com os EUA, a Europa, o Japão e outros países e regiões do mundo desenvolvido, que continuam a ser igualmente prioritários. O Ibas pretende somar, e não substituir. Reflete nosso empenho de melhor explorar as oportunidades de parcerias Sul-Sul.

Os resultados dessa orientação estão à vista. O extraordinário crescimento das exportações brasileiras entre 2002 e 2005 - de cerca de US$ 60 bilhões para US$ 118 bilhões - decorreu sobretudo do aumento das vendas para países em desenvolvimento. Este grupo de nações comprou, em 2005, 53% de nossas exportações, contra apenas 43% em 2002. Para a Índia, as exportações passaram de US$ 653 milhões em 2002 para US$ 1,13 bilhão no ano passado; para a África do Sul, de US$ 477 milhões para US$ 1,36 bilhão.

Atribuo muita importância, ainda, ao trabalho solidário do Ibas em relação a outros países do Sul. Constituímos em 2004 o Fundo Ibas de Combate à Fome e à Pobreza, administrado pelo PNUD, para apoiar projetos de desenvolvimento em países mais pobres. Já está em andamento projeto na área agrícola, na Guiné-Bissau. Outro, de coleta e processamento de lixo no Haiti, está em vias de implementação. O peso simbólico dessa iniciativa trilateral é muito grande. Apesar de nossos próprios problemas sociais, Índia, Brasil e África do Sul não fogem da responsabilidade de auxiliar países ainda mais necessitados.

Estou convencido de que a primeira cúpula do Ibas será um momento marcante. Temos a vontade política e a determinação de consolidar esse Foro inovador. O governo brasileiro trabalhará após a cúpula para envolver cada vez mais nossa sociedade nesse projeto, que contribui para a construção de uma ordem internacional mais equilibrada e para a promoção do desenvolvimento econômico e social da Índia, do Brasil, da África do Sul e de nossas respectivas regiões. O Ibas nos dá uma oportunidade para superar as distâncias geográficas, culturais e mentais entre nossos países.

Luiz Inácio Lula da Silva é presidente da República.

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