"África: destino crescente de investimentos brasileiros" (Correio Braziliense - 08 de maio de 2006)
Jornal: Correio Braziliense Título: 'África: destino crescente de investimentos brasileiros' Data: 08/05/2006 Crédito: Roger Agnelli
Roger Agnelli
Diretor-presidente da CVRD
A aproximação com o continente africano é um dos mais acertados desdobramentos recentes da política externa brasileira. Avaliada superficialmente, a estratégia tem atraído críticas, uma vez que pode parecer paradoxal um país em desenvolvimento como o Brasil incrementar seus esforços diplomáticos em parceiros pobres, com relativamente pouca influência no contexto geopolítico global e com peso ainda baixo na balança comercial brasileira. Mas é preciso ir além da superfície e, em particular, avaliar essa estratégia à luz tanto dos movimentos de internacionalização de empresas brasileiras quanto de algumas tendências políticas e econômicas aceleradas pelo aprofundamento da globalização.
Além de exportador competitivo de produtos primários, serviços e manufaturas, o Brasil começa a tornar-se um exportador de capital e tecnologia. As primeiras multinacionais brasileiras estão surgindo e conquistando seu espaço na economia mundial, fenômeno que é também observado de forma consistente em outras economias em desenvolvimento, como Índia, China e África do Sul. E a África é um dos territórios naturalmente adequados a investimentos em setores em que empresas brasileiras já são extraordinariamente competitivas, sobretudo casos como o da Petrobras, da Companhia Vale do Rio Doce e do setor de construção.
Fazer negócios na África é evidentemente difícil. O continente é marcado por regimes instáveis, conflitos armados e outras formas de violência, problemas sanitários significativos, e imensa pobreza. Mas é também uma das poucas fronteiras naturais ainda abertas para a expansão de negócios em setores como petróleo, gás e mineração. Tratam-se de produtos em que empresas brasileiras são globalmente competitivas, mas, infelizmente, não são encontrados para exploração na Quinta Avenida ou na Praça Vendôme.
A África também é o palco de uma disputa em escala global por acesso a matérias-primas, cada vez mais escassas e demandadas, especialmente devido à ascensão econômica da China. Empresas chinesas e de outras origens estão se posicionando de forma muito agressiva na região, buscando garantir o acesso estável e seguro a fontes de recursos naturais. Não participar desses movimentos estratégicos pode colocar empresas brasileiras, particularmente as já muito competitivas de setores extrativos e de serviços, à mercê da desestabilização de suas condições de inserção competitiva no mercado mundial.
Nesse contexto, os críticos à nova política brasileira têm razão em um ponto: não basta simplesmente abrir novas embaixadas em países com os quais o Brasil ainda tem laços pouco estreitos, sobretudo na África e na Ásia Central. É necessário dar-lhes as condições adequadas de trabalho, com suficientes recursos humanos e materiais, a fim de que a diplomacia possa ser um canal de apoio eficaz à inserção crescente de empresas brasileiras nessas regiões ainda pouco conhecidas por nós. E é desnecessário lembrar que o orçamento do Ministério das Relações Exteriores não tem sido compatível, há mais de uma década, com as ambições do país em matéria externa.
Se o Brasil quer cada vez mais ser um ator responsável e ativo no cenário internacional, esse desejo precisa refletir-se na capacitação adequada de seus quadros diplomáticos, que já ocorre de forma notória no Instituto Rio Branco, mas também na sensível questão do orçamento. Da mesma forma, é preciso repensar o paradigma de apoio à inserção internacional de empresas brasileiras, hoje muito focado na promoção de exportações, a partir do território nacional, para também servir, de forma robusta e com métodos modernos, como ponto ativo de apoio à internacionalização de nossas companhias.
Países têm interesses. Eis um dos princípios fundamentais do pragmatismo que norteia toda a formulação da política externa de qualquer país. No Brasil não pode ser diferente. Historicamente, o Itamaraty tem sido a instituição que, por excelência, pensa o interesse nacional de longo prazo. Conferir maior peso a regiões do mundo ainda pouco exploradas e a países em desenvolvimento, sem negligenciar as relações já estabelecidas com parceiros mais tradicionais, não apenas vem diretamente ao encontro de uma definição mais ampla de interesses nacionais e da inserção do Brasil na economia mundial, mas também contribui significativamente para conferir maior legitimidade à diplomacia brasileira como prestadora de um serviço público da mais alta utilidade.
