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https://crusoe.com.br/edicoes/72/o-ambientalista-atomico/
13/09/2019

O ambientalista californiano Michael Shellenberger foi uma das raras vozes nos Estados Unidos a expor as incongruências da imprensa estrangeira e das celebridades ao tratar das queimadas na Amazônia. Em artigo na revista Forbes, intitulado “Por que tudo o que eles falam sobre a Amazônia, inclusive que ela é o ‘pulmão do mundo’, está errado”, Shellenberger se contrapôs a Leonardo DiCaprio, Madonna, Cristiano Ronaldo e a órgãos de imprensa como a CNN e o New York Times. Ainda que não tenha conseguido debater o tema diretamente com os famosos, seus comentários atraíram dezenas de milhares de brasileiros, que passaram a segui-lo no Twitter.

Shellenberger, de 48 anos, usa de apuração in loco e de entrevistas com especialistas para denunciar o que ele classifica como ideias estereotipadas dos autodenominados defensores da natureza. Para ele, muitos dos equívocos se devem a um olhar mitificado sobre a Amazônia. “Como se trata de uma área muito extensa e que em grande parte não foi explorada, ela acabou se tornando uma tela gigantesca em que as pessoas projetam seus medos e suas esperanças. E a imagem mais comum é a do Jardim do Éden”, disse ele a Crusoé.

O americano já esteve no Brasil algumas vezes nos anos 1990. Nessas viagens, estudou um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, o MST. Ao entrevistar pequenos agricultores, constatou que todos queriam que seus filhos fossem morar na cidade grande. Nos Estados Unidos, onde é amplamente conhecido por suas ideias que aliam ambientalismo e progresso econômico, ele costuma ser definido como um “ecopragmático” ou um “modernista ecológico”. Shellenberger é também um árduo defensor do uso da energia atômica. Para ele, o caminho para lidar com as mudanças climáticas passa, necessariamente, pelo desenvolvimento. A seguir, a entrevista.

Foi exagerada a repercussão internacional sobre as queimadas na Amazônia?
Nas últimas semanas, todo mundo estava um pouco maníaco, irracional, louco. Muito da reação da imprensa americana foi porque entre 75% e 90% dos jornais odeiam Bolsonaro. Não gostam dele assim como não gostam do presidente Donald Trump. Mas a histeria passou. Chegou o momento de as pessoas que realmente se importam com a Amazônia terem uma discussão madura sobre o assunto.

Estrangeiros, em geral, enxergam a Amazônia de uma maneira equivocada?
Para muita gente, incluindo muitos brasileiros, a Amazônia é um lugar mítico. Como se trata de uma área muito extensa e que em grande parte não foi explorada, a floresta acabou se tornando uma tela gigantesca em que as pessoas projetam seus medos e suas esperanças. E a imagem mais comum é a do Jardim do Éden. Muitos repórteres que têm escrito sobre a Amazônia são jovens. Estão nos seus 20 e poucos anos. É gente de classe média alta, com boa formação escolar. Nas últimas semanas, eles escutaram pela primeira vez que a Amazônia estava pegando fogo. Sem muita informação anterior, eles entenderam isso como uma violação da ordem natural, do Jardim de Éden, de tudo o que há de bom no mundo. Eles olharam para as fotos no Instagram do Leonardo DiCaprio e da Madonna e acreditaram que a floresta estava pegando fogo por causa dos homens maus. Não percebem que a Amazônia é o lar de 30 milhões de pessoas, dos quais muitos estão simplesmente tentando sobreviver. Só conseguem entender que tem gente má fazendo coisa ruim.

Qual é o papel dos índios na proteção da Amazônia?
Na imaginação popular, eles são parte da natureza, os protetores da Amazônia. Mas a realidade em campo é sempre mais complicada. Os indígenas estão envolvidos em todas as formas de exploração da floresta, incluindo a grilagem de terras. Há também uma concepção de que os índios vivem em harmonia com a natureza, enquanto os europeus, os descendentes de africanos e as pessoas mestiças querem destruir a mata. A realidade, contudo, é a de que temos índios e não-índios vivendo e trabalhando juntos. Às vezes, eles entram em conflito, às vezes cooperam entre si. Uma das coisas que descobri nos meus estudos no Brasil é que há um trabalho muito bom de prevenção de incêndios sendo feito por pequenos e médios fazendeiros e por indígenas. Minha esperança é a de que a espécie humana deixe de lado as visões bíblicas, simplistas e infantis sobre a Amazônia e passe a ter uma visão mais madura e realista.

“É preciso concentrar a produção agrícola no Cerrado. Assim ficaria mais fácil preservar a Amazônia”

Qual seria a melhor maneira de conciliar a preservação da natureza com as necessidades de quem depende da floresta?
A melhor solução é concentrar e intensificar a produção agrícola em poucas áreas. O Brasil deveria concentrar a produção no Cerrado para, assim, proteger melhor a Amazônia. É um grande erro o que está no Código Florestal brasileiro. A lei diz que as fazendas devem manter preservadas entre 35% e 80% de sua área total. Essa limitação fragmenta a paisagem. Com isso, a agropecuária intensiva perde espaço para a extensiva, que requer mais área. O Código Florestal encoraja os donos de terras a terem um pouco de floresta e um pouco de plantação ou pasto na sua propriedade.

Como seria possível remediar isso?
Alguns ambientalistas têm dito que o Cerrado e a Amazônia têm o mesmo valor, mas isso é ridículo. Entre eles, está o Greenpeace, que, no seu radicalismo e extremismo, afirma que os dois sistemas deveriam ser submetidos ao mesmo rigor de preservação. Mas todo mundo sabe que a Amazônia tem muito mais biodiversidade. Além disso, não é boa para a agricultura. O solo não tem boa qualidade. Então é preciso reconhecer isso e concentrar a produção agrícola no Cerrado. Assim ficaria mais fácil preservar a Amazônia.

Favorecer um bioma e prejudicar o outro?
É por isso que defendo um debate honesto e transparente entre os brasileiros sobre o assunto. Isso tem de ser uma decisão do Brasil. Não é um tema assim tão complicado, só para cientistas. Deve ser uma oportunidade real para os brasileiros olharem os mapas, ouvirem especialistas e conversarem. O país precisa saber quanto quer preservar do Cerrado e quanto quer desenvolver. O raciocínio também vale para a Amazônia. Os brasileiros é que precisam estabelecer um balanço entre desenvolvimento e preservação. Isso de ficar dizendo que todo fogo é ruim, ou que todo desmatamento é nocivo, é uma conversa infantil que não leva a nada. Da mesma forma, não faz sentido sair dizendo por aí que cada um pode fazer o que quiser. O Brasil é um país que vai continuar se desenvolvendo e que terá necessidade de aproveitar recursos no futuro. Então, é preciso decidir como fazer isso de forma sustentável.

O dono das marcas Timberland e Vans disse que não vai mais comprar couro brasileiro. É uma postura excessivamente radical?
Acho muito perturbador e antiético o que essas empresas estão fazendo. Elas geraram uma publicidade muito negativa. Ao cortar de uma hora para outra as compras do couro brasileiro, elas agiram de forma ríspida e insensata. O mínimo que uma empresa que queira ter o Brasil como parceiro deveria fazer é ouvir o outro lado da história. Também tenho visto um bocado de outras coisas incômodas. A CNN e o New York Times ainda mantêm informações incorretas nos seus sites. Eles ainda dizem que a Amazônia é o pulmão do mundo, que cria oxigênio para o resto do planeta. Isso é uma grande besteira que já deveria ter sido corrigida.

A energia nuclear poderia ser uma boa opção para o Brasil?
Tradicionalmente, o Brasil tem utilizado uma fonte de energia muito barata, que é a hidrelétrica. Mas a construção de represas tem óbvios impactos ambientais, que causam muita resistência na sociedade. A questão, então, não é o que é melhor, mas o que cada país elegeu como seus valores, como suas prioridades. Os brasileiros se preocupam mais em ter uma fonte barata ou em preservar a natureza? Se for a segunda opção, então a fonte com o menor impacto ambiental é a energia nuclear. Também vale lembrar que o Brasil tem reservas significativas de petróleo e gás natural, as quais podem servir de combustível para usinas termoelétricas. Mas, mesmo considerando isso, acho que a energia nuclear teria o seu papel. Muitas nações inteligentes que possuem reservas de combustíveis fósseis têm adotado a estratégia de construir usinas nucleares para produzir eletricidade para consumo interno. Com isso, elas ficam livres para exportar os derivados do petróleo e lucrar. É o que fazem a Rússia, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita.

A energia nuclear não seria muito cara para um país em desenvolvimento como o Brasil?
Não necessariamente. O que torna a energia nuclear barata é construir o mesmo tipo de reator, várias vezes. Dessa forma, o custo diminui. Entendo que o Brasil teve problemas de corrupção em projetos nucleares, com autoridades desviando muito dinheiro. Mas, se o país conseguir evitar esse tipo de coisa, a energia nuclear pode sair em conta. Usinas hidrelétricas e nucleares são projetos muito parecidos. São grandes pedaços de concreto com turbinas que duram entre 68 e 100 anos. Uma vez que as usinas acabam de ser construídas, não é tão caro administrá-las. A partir daí, elas não precisam de combustível e não agridem o meio ambiente.

E o risco de acidentes, como o que aconteceu em Chernobyl, em 1986?
Muitas pessoas têm medo das usinas nucleares porque acham que elas são bombas prestes a explodir. Há um fenômeno psicológico chamado “deslocamento” (displacement, em inglês), que é quando o medo de alguma coisa é transferido para um objeto. Em parte, isso acontece com as usinas nucleares. Basta as pessoas olharem para um reator, para começarem a ter pensamentos ruins. Então, o mais importante é ensinar às pessoas como as usinas nucleares funcionam. Em Chernobyl, o acidente não foi tão letal como se diz. Morreram 28 bombeiros. As outras mortes foram de câncer de tireoide, que podem ter sido em torno de 160 (as cifras não oficiais variam muito, uma delas contabiliza um total de 60 mil mortos na Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia). Apesar disso, a tecnologia nuclear é uma das mais seguras e benéficas já desenvolvidas pela nossa sociedade. Um leve aumento no número de acidentes de carro por causa de telefones celulares já é vinte vezes maior do que o total de mortes já registrado até agora por energia nuclear.

Por que tanta gente relaciona usina nuclear a bomba nuclear?
Isso acontece naturalmente. As duas coisas têm o mesmo nome, então é fácil misturar as coisas. Mas essa associação também é culpa dos ativistas ambientais que fizeram uma campanha deliberada nos anos 1960. Depois que ficou claro que nenhum país se livraria das suas bombas nucleares, eles começaram a criticar a energia nuclear.

O sr. viveu alguns meses no Maranhão, nos anos 1990. O que viu de mais relevante por lá em suas pesquisas?
Quando estive no Brasil, meu interesse era entender por que algumas comunidades de pequenos agricultores eram mais bem-sucedidas do que outras. Descobri que aquelas que tinham mais sucesso recebiam ajuda de entidades de fora. Particularmente importante era a atuação da Igreja Católica, por meio da Cáritas. Outra coisa que descobri é que a maioria dos jovens nos acampamentos de sem-terra não pretende ficar no campo. Eles querem viver nas cidades. Desejam uma boa educação e um trabalho digno. Não sonham em ser agricultores. É assim em qualquer lugar do mundo. Já entrevistei agricultores em vários lugares, na Indonésia e em países da África. Perguntei a muitos fazendeiros se eles queriam que seus filhos se tornassem agricultores como eles. A maioria respondeu que não. Eles querem que seus descendentes tenham uma vida melhor que as deles. Isso levanta uma questão desconfortável para muitos políticos, no Brasil e em outras nações.

Por quê?
Porque a agenda de muitos políticos é a de tentar fazer com que as pessoas do campo não saiam do lugar. Pensar assim vai de encontro até mesmo ao que Karl Marx e Friedrich Engels escreveram no Manifesto Comunista. Segundo eles, uma das grandes vantagens do capitalismo foi oferecer uma escapatória para a idiotice e para o tédio da vida no campo. Mas essa percepção caiu por terra com a ascensão da nova esquerda nos anos 1960. Os adeptos dessa corrente criaram uma visão romântica do campo. O que pode ser mais paradoxal do que o MST ser ligado ao PT? É estranho. O que um partido político criado por operários tem em comum com pequenos agricultores? De forma geral, o que aconteceu no Brasil é que os agricultores acabaram se tornando a classe trabalhadora nas fábricas de São Paulo. Essa é só uma das confusões que passam nas mentes da esquerda e da direita. Há muita divergência sobre qual seria a forma mais apropriada de lidar com as pessoas que vivem em locais como a Amazônia, por exemplo. A chave é o desenvolvimento econômico.

Nos Estados Unidos, a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez propôs em fevereiro um acordo chamado Green New Deal. Para combater o aquecimento global, ela propunha deixar de usar combustíveis fósseis em dez anos. Isso poderia dar certo?
Muito do que se fala sobre aquecimento global é bobagem. A principal questão para todos os países é e continuará sendo o desenvolvimento. É isso o que nos protegerá das mudanças climáticas no futuro. Nações mais desenvolvidas são mais resistentes. Se ocorrer uma seca drástica ou o nível dos oceanos subir alguns centímetros, isso afetará muito mais os povoados da África do que a minha cidade natal, Berkeley. Se os países pobres pudessem contar com uma infraestrutura melhor, eles também ficariam mais protegidos.

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