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Sylvia Coutinho

09/09/2019

Os recentes incêndios na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, provocaram alvoroço. Os incêndios, gerados principalmente por atividades ilegais, assim como a mineração ilegal de ouro, a extração de madeira e o tráfico de vida selvagem, representam uma ameaça para a área de maior biodiversidade do mundo.

A reversão dessa situação exigirá não apenas uma política de tolerância zero contra todas as atividades ilegais na Amazônia, mas também um novo modelo de desenvolvimento para uma região que tem mais da metade do tamanho dos EUA continentais. Esse modelo não pode ser imposto unilateralmente, mas deve envolver todas as partes interessadas da região.

A Amazônia não é simplesmente um parque natural, é o lar de mais de 20 milhões de brasileiros, incluindo alguns dos estados mais pobres do país. Às vezes, a floresta é vista como um obstáculo ao desenvolvimento, quando poderia se tornar uma alavanca para o avanço de sua economia.

No momento, quase 45% do bioma é reservado para conservação e reservas indígenas. Essa área, no entanto, sofre invasões de posse de terras: áreas públicas são limpas para justificar pedidos posteriores de títulos de propriedade privados.

A Coalizão Brasil sobre Clima, Florestas e Agricultura, que inclui representantes do agronegócio, finanças, cientistas e entidades ambientais, vem desenvolvendo propostas para servir de bússola para um novo modelo de desenvolvimento. Seu objetivo é trazer atividades regionais para os modelos do século XXI, evoluindo para o que é chamado Amazon 4.0.

Isso inclui o desenvolvimento da bioeconomia para que ela faça parte da cadeia de valor para produção de alimentos, produtos farmacêuticos, nutracêuticos, cosméticos, fragrâncias, óleos e enzimas, entre outros. Por exemplo, o cultivo da palmeira de açaí evoluiu do manejo em pequena escala para sistemas agroflorestais em grande escala, cuja renda líquida pode chegar a US $ 400 por hectare por ano. Esse valor supera o auferido por gado em pastagem em terras desmatadas, um retorno em média de US $ 70 hectare por ano. Outro projeto, o Banco de Códigos da Amazon, tem como objetivo usar a tecnologia blockchain para mapear os genomas florestais para uso em indústrias farmacêuticas, entre outras, para garantir pagamentos de royalties.

Também podemos desencorajar o desmatamento, colocando um valor monetário no papel da Amazônia como um sumidouro de emissões de carbono. Se avaliada em US$ 5 por tonelada de carbono, a floresta tropical da Amazônia hoje poderia representar um estoque de carbono de aproximadamente US$ 750 bilhões. Se a comunidade global quiser ajudar a manter esse estoque de carbono em campo, deve direcionar fundos de programas de compensação de carbono para a Amazônia, como o ambicioso programa para companhias aéreas da Organização Internacional de Aviação Civil.

Um passo nessa direção foi dado recentemente quando o Congresso brasileiro aprovou uma lei para definir parâmetros para pagamento de serviços ambientais.

Os atores inteligentes do agronegócio brasileiro também sabem que seu sucesso depende da preservação do meio ambiente e de um rótulo verde para seus produtos. A maioria já participa do registro de terras rurais do Cadastro Ambiental Rural, usado para rastrear e limitar o desmatamento.

É injusto singularizar o Brasil em críticas ambientais. É um dos países mais verdes do mundo: mais de 60% de seu território é coberto por vegetação natural, sua agricultura cresceu com base em ganhos de produtividade e tecnologia, e não na expansão da terra, e cerca de 45% de sua energia vem de fontes renováveis, em comparação com uma média global de 14%. Ele também possui um dos regulamentos de uso da terra mais rigorosos do mundo, conhecido como código florestal. Quantos agricultores ao redor do mundo precisam deixar de 20 a 80% (dependendo do bioma) de suas terras florestais nativas?

O Brasil pode mudar a maré agora combatendo todas as atividades ilegais e promovendo iniciativas da Amazon 4.0 que simultaneamente impulsionam a economia e melhoram a vida das pessoas na região. Nós, em finanças, podemos contribuir ajudando o país a se tornar um líder em finanças verdes, desenvolvendo soluções inovadoras para financiar empreendimentos ecológicos e sustentáveis e monetizar os valiosos ativos ambientais do Brasil.

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