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https://www.forbes.com/sites/michaelshellenberger/2019/08/28/how-the-eu-greenpeace-and-celebrities-dehumanize-the-amazon-and-worsen-fires-and-deforestation/?utm_source=TWITTER&utm_medium=social&utm_term=Dottie%2F#56bd60812a16

Michael Shellenberger

Em 2016, a modelo brasileira Gisele Bündchen sobrevoou a floresta amazônica com o chefe do Greenpeace Brasil, Paulo Adario, como parte de uma série da National Geographic chamada “Anos Vivendo Perigosamente”.

A princípio, eles sobrevoam uma floresta verde sem fim. “A beleza parece não acabar nunca”, Bündchen diz ao fundo, “mas então [o chefe do Greenpeace, Paulo] Adario me diz para me preparar”.

Ela fica horrorizada com o que vem a seguir. Lá embaixo, há fragmentos de floresta ao lado de fazendas de gado. "Todas essas grandes formas geométricas na paisagem são por causa do gado?"

“Tudo começa com a abertura de estradas”, explica Adario. "A estrada fica e os pecuaristas chegam e cortam as árvores restantes."

“E o gado nem é natural da Amazônia! ”, diz Bündchen. "Nem deveria estar aqui!"

"Não, definitivamente não", confirma Adario.

“Imagine a destruição dessa linda floresta para produzir gado”, diz ele. “Quando você come um hambúrguer, percebe que seu hambúrguer está vindo da destruição da floresta tropical. ”

Bündchen começa a chorar. "É chocante, não é?", diz Adario.

Mas é mesmo? Se for, isso significa que Bündchen chora ainda mais quando sobrevoa a França e a Alemanha?

Afinal, esses dois países desmataram suas paisagens séculos atrás, e tudo o que resta são fazendas de gado e fazendas com muito menos áreas protegidas e de floresta muito menores do que as que Bündchen sobrevoou na Amazônia.

Os alemães emitem quatro vezes mais carbono per capita do que os brasileiros, inclusive queimando biomassa, e ainda assim não hesitam em repreender os brasileiros sobre a necessidade de suprimir o desmatamento e acabar com os incêndios.

"Eu gostaria de mandar uma mensagem para a amada [chanceler alemã] Angela Merkel", disse o presidente brasileiro Jair Bolsonaro. "Pegue sua grana e refloreste a Alemanha, ok? É muito mais necessário aí do que aqui."

Uma resposta que os ambientalistas têm recebido quando perguntam por que os brasileiros não deveriam fazer como os europeus e norte-americanos fizeram é que a humanidade não pode sobreviver sem a Amazônia. São os pulmões do mundo, afinal. É o que cria oxigênio.

Mas isso é “besteira”, de acordo com o especialista em floresta amazônica Dan Nepstad, autor principal do mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. A Amazônia usa tanto oxigênio quanto produz.

O que realmente preocupa, dizem os cientistas, é todo o carbono armazenado na Amazônia. Se os incêndios o liberarem na forma de dióxido de carbono, não conseguiremos evitar que as temperaturas globais subam dois graus centígrados acima dos níveis pré-industriais.

Mas dizer aos brasileiros que eles não devem derrubar a Amazônia por causa de seu papel de armazenar carbono apenas fortalece a ideia de que a suposta preocupação da Europa com a Amazônia e as mudanças climáticas é de fato uma forma de neocolonialismo.

Agora a Europa, que se desenvolveu através do desmatamento e do uso de combustíveis fósseis, está dizendo ao Brasil para não se desenvolver através do desmatamento e do uso de combustíveis fósseis.

Bolsonaro é a reação a essa hipocrisia. O aumento do desmatamento em 2019 é até certo ponto o cumprimento de uma promessa de campanha de Bolsonaro para os agricultores que estavam "cansados da violência, da recessão e dessa agenda ambiental", disse Nepstad.

"Eles estavam todos dizendo: 'é essa agenda da floresta que vai eleger esse cara [Bolsonaro]. Todos vamos votar nele. ‘ E os fazendeiros votaram nele em massa. ”

"Eu vejo o que está acontecendo agora, e a eleição de Bolsonaro, como reflexo de grandes erros na estratégia [ambientalista]", disse Nepstad.

Apenas alguns anos atrás, o esforço ambiental para salvar a Amazônia parecia estar indo bem. O desmatamento havia diminuído 70% entre 2004 e 2012, em comparação com o período de 1996 a 2005.

Mas a recessão e a aplicação menos rigorosa da lei resultaram no aumento do dematamento a partir de 2013.

Perguntei a Nepstad quanto da reação atual se devia à aplicação das leis ambientais pelo governo brasileiro e quanto a ONGs como o Greenpeace.

"Acho que a maior parte foi o dogmatismo das ONGs", disse ele. “Estávamos em uma situação realmente interessante em 2012, 2013, 2014, porque os agricultores se sentiam satisfeitos com o artigo do Código Florestal dedicado a compensar os agricultores, mas isso nunca aconteceu”.

"Tudo começou com uma campanha do Greenpeace", disse Nepstad. “As pessoas se vestiram como galinhas e percorreram vários restaurantes do McDonald's na Europa. Foi um grande momento da mídia internacional”.

O Greenpeace, uma organização não-governamental que arrecada US$350 milhões por ano, fortemente financiada por europeus, exigia que os agricultores brasileiros cumprissem uma regulamentação muito mais rigorosa do que a imposta pelo governo brasileiro.

“O que os agricultores precisavam era basicamente anistia de todo o desmatamento ilegal até 2008”, disse Nepstad. "Ganhando isso, eles pensariam 'Ok, nós poderíamos cumprir esta lei.' Eu estou do lado dos agricultores nisso”.

O Greenpeace buscou restrições mais rigorosas para a floresta de savana, conhecida como o Cerrado, onde boa parte da soja é cultivada.

“Os fazendeiros ficaram nervosos pensando que haveria outra moratória. O Cerrado é 60% da safra de soja do país. A Amazônia é 10%. Então a questão se tornou muito mais mais séria.”

“O mentor da moratória da soja”, acrescentou Nepstad, “foi Paulo Adario, do Greenpeace Brasil” - o homem que fez Bündchen chorar.

O que aconteceu foi uma tragédia, na visão de Nepstad, porque os produtores de soja estavam cada vez mais dispostos a cooperar com as restrições ambientais até que o Greenpeace começasse a fazer exigências mais extremas.

"Há essa confiança exagerada, essa arrogância, de regulamentação sobre regulamentação, sem realmente pensar na perspectiva do agricultor", disse ele.

"Imagine dizer a um proprietário de terras na Califórnia que ele só pode usar metade de suas terras e depois dizer que ele pode usar só 20%", disse Nepstad. "Eles disseram: 'Zero desmatamento ilegal, estamos de acordo. Zero desmatamento? Não, só se houver compensação.”

Grande parte da motivação para parar a agricultura e pecuária é ideológica, disse Nepstad. "É realmente anti-desenvolvimento, sabe, anti-capitalismo. Há muito ódio do agronegócio. ”

Ou pelo menos ódio do agronegócio no Brasil. O mesmo padrão não parece se aplicar ao agronegócio na França e na Alemanha.

Como tal, a agenda aparentemente ideológica do Greenpeace se encaixa perfeitamente na agenda dos agricultores europeus para excluir da UE alimentos brasileiros de baixo custo.

“Os agricultores brasileiros querem ampliar [o acordo de livre comércio] UE-Mercosul, mas Macron se inclina a encerrá-lo porque o setor agrícola francês não quer mais produtos alimentícios brasileiros entrando no país”, explicou Nepstad.

As consequências ecológicas na Amazônia têm sido piores do que precisavam ser.

Ao exigir que fazendeiros deixassem de 50% a 80% da floresta intacta, ambientalistas forçaram as fazendas a entrar mais na floresta. "Eu acho que o Código Florestal promoveu a fragmentação", disse Nepstad.

E a fragmentação é uma grande ameaça contra espécies ameaçadas de extinção. Grandes felinos e outras espécies de grandes mamíferos precisam de um habitat contínuo e não fragmentado para sobreviver e prosperar.

Os conservacionistas deveriam ter permitido que os agricultores intensificassem a produção em algumas áreas, particularmente no Cerrado, para reduzir a pressão e a fragmentação de outras áreas, particularmente da floresta tropical.

Não é tarde demais, argumentou Nepstad: "reduzir os requisitos nas fazendas onde há alta aptidão – alta eficiência e produtividade - é uma solução muito boa".

Nos EUA, fazendas mais produtivas no centro-oeste superaram as fazendas menos produtivas na [região da] Nova Inglaterra. Como resultado, houve reflorestamento significativo na Nova Inglaterra.

Intensificar a agricultura no Cerrado, mais produtivo e menos biodiverso, pode poupar a floresta tropical na Amazônia. "Há uma enorme área de terra improdutiva que está produzindo 50 quilos de carne por hectare por ano e criando vacas desordenadamente", explica Nepstad, e que “deveria ser devolvida para a floresta".

Em troca, outras terras devem ser abertas [à exploração]. "Vamos usar as reservas da reforma agrária, que são enormes e próximas das cidades, para cultivar vegetais, frutas e produtos básicos para as cidades amazônicas, em vez de importar tomates e cenouras de São Paulo".

Nepstad me deixou mais esperançoso quanto às perspectivas de ganho mútuo quando se trata de desenvolvimento econômico e conservação na Amazônia.

Mas também me senti incomodado pelo fato de forças tão poderosas como a UE, o Greenpeace e as celebridades mais famosas do mundo, ajudadas pela mídia, mostrarem poucos sinais de que vão abandonar a sua desumanização da Amazônia.

Superar essa percepção começa com a lembrança de que a Amazônia nunca foi o Éden. Em contraste com a imagem de que a Amazônia é um vazio agrícola, há cientistas que hoje acreditam que mais de dois milhões de pequenos agricultores viviam na bacia amazônica antes da chegada dos europeus no século XV, e que eles tiveram um impacto muito maior na alteração dos ecossistemas do que se acreditava até agora.

Os cientistas acreditam agora que "os primeiros agricultores da Amazônia usavam a terra intensivamente e cultivavam diversos alimentos . Além disso, aumentavam as safras adubando o solo através de queimadas".

É verdade que nem o gado nem os humanos são “naturais da Amazônia!”, como disse Bündchen. Mas também não são "naturais" de nenhum outro lugar além da África. Isso não significa que eles não pertençam à floresta. Eles pertencem. E devemos começar a vê-los.

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