Ir direto para menu de acessibilidade.
Portal do Governo Brasileiro
Início do conteúdo da página

https://www.valeursactuelles.com/monde/feux-en-amazonie-decryptage-de-la-strategie-puerile-et-cynique-demmanuel-macron-110184

Rémy Prud'homme - 27/8/2019

Professor emérito da Universidade de Paris-Est Créteil e membro do comitê científico da associação de clima-realistas, Remy Prud'homme retorna à mistura de infantilidade e cinismo que caracterizou a presidência francesa sobre o tema dos incêndios na Amazônia. Uma descriptografia salutar.

Contra o Brasil, e o presidente que ele democraticamente escolheu, o Sr. Macron nos ofereceu em Biarritz um julgamento de tipo stalinista: sem instrução, sem provas, sem testemunhas, sem advogado, sem apelação. O presidente francês, autonomeado representante do Bem, tornou-se promotor, juiz e executor. Ele culpou o Brasil de sabotagem (deixar queimar ou queimar a floresta amazônica), de conluio com o inimigo (contribuir para as emissões de CO2), e de apropriação (privar as pessoas de oxigênio). E para puni-lo por esses crimes imaginários, o Presidente da República francesa se recusa a ratificar o acordo comercial longamente negociado entre a UE e o Mercosul.

Vamos esboçar a defesa à qual o Brasil não tem direito. Isso é fácil, porque na luta contra o desmatamento o Brasil tem sido um bom aluno. Ele tem um instituto de qualidade (INPE), que publica há muito tempo dados sobre o desmatamento da Amazônia brasileira (gostaríamos de ter dados tão bons sobre a evolução da floresta amazônica francesa, na Guiana). Nos últimos cinco anos (2013-2018) a floresta amazônica brasileira passou de 3341 para 3307 milhões de km2. Perdeu 7000 km2 por ano, ou cerca de 0,2% ao ano. Estamos longe dos 20 ou 25.000 km2 por ano dos primeiros anos da presidência de Lula. O desmatamento foi virtualmente estabilizado. Parabéns Brasil!

Há certamente este ano um pouco mais de incêndios (em áreas de 30 metros quadrados) do que nos anos anteriores. Esses incêndios são voluntários e limpam terras cultivadas: justificam nossos pesticidas. Em princípio, eles não afetam a floresta, embora, na prática, às vezes escapem ao controle de seus autores. Veremos no final do ano se e quanto eles contribuíram para o desmatamento.

As consequências sobre o CO2 e o oxigênio brandidas do topo da tribuna do G7 para aterrorizar o mundo, e primeiro os franceses, são pueris. As florestas absorvem e armazenam CO2. Mas elas também o rejeitam, mais ou menos na mesma quantidade, quando as árvores são cortadas para fazer fogo ou morrem e apodrecem. São as variações dos recursos florestais que têm impacto nas emissões de CO2. É o desmatamento, não a floresta, que contribui para o aumento das emissões. Uma estimativa grosseira, que os especialistas criticarão com razão, sugere que 7000 km2 de floresta a menos significa cerca de 2 milhões de toneladas de CO2 a mais (1), ou 2/10000 das emissões da China, não muito para o aquecimento global. Ocorre exatamente o mesmo em relação ao oxigênio, que é de certa forma o dobro do CO2. Dizer que 7.000 quilômetros quadrados de floresta menos ameaçam 20% do oxigênio do mundo é ridículo, mesmo que seja dito por DiCaprio.

O malfeito é discreto. A sentença não, e é tão infantil quanto o pretexto. Mesmo as pessoas que não têm opinião firme sobre o acordo União Europeia-Mercosul estão surpresas. Durante meses, o governo do Sr. Macron, seus ministros, seus representantes, seus apoiadores etc. não pararam de argumentar que o tratado era indispensável, que seria excelente tanto para sul-americanos quanto para europeus, que seria uma afronta para Donald Trump, esse imbecil que nada entende dos benefícios do comércio internacional. E eis então que jogamos tudo no lixo, para dar uma lição ao pequeno Bolsonaro: “Eu não quero mais brincar com você! “. Lamentável para todos os macronianos, que terão de nos explicar que, no final das contas, esse tratado não era tão bom assim, e que a defesa do meio ambiente vem antes da retirada de milhões de sul-americanos da miséria.

Na pior das hipóteses, é de uma infantilidade preocupante. O Sr. Macron realmente acredita que ficaremos sem oxigênio por causa de Bolsonaro. Ele foi convencido por Cristiano Ronaldo, Madonna e outros especialistas, como Greta Thunberg. Difícil imaginar. É provavelmente mais uma questão de oportunismo cínico. Macron sabe bem que o Brasil não tem muito a se censurar - e talvez saiba até que as fotos que ele compartilha com DiCaprio sobre os incêndios de hoje sejam de 20 anos atrás - mas finge acreditar nos discursos apocalípticos na moda. Ele acha que há votos a serem ganhos ao endossar tais discursos, e parecer "agir" pelo meio ambiente. Ou, como muitos políticos de ontem, hoje e amanhã, ele acredita no que lhe convém. Mas daí a encarnar Fouquier-Tinville [nt.: acusador/promotor da Revolução Francesa], se podia crer que haveria uma boa distância. Ledo engano.

(1). 40 000 000 km2 de florestas no mundo absorvem 2,9 Gt de C, ou 8,9 GtCO2 (Y. Pan, Science, 2011); 7000 km2 absorvem 8,9 * 7/40 000 000 = 0,0016 GtCO2, ou seja, 1,6 Mt de CO2.

Pesquisa:
Fim do conteúdo da página