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https://calgaryherald.com/news/local-news/corbella-g7-leaders-slander-brazil-based-on-fake-news-trending-on-twitter

Licia Corbella - 28/08/2019

Em novembro de 1991, o jornalista fotográfico do Toronto Sun Stan Behal e eu viajamos pelo Brasil, reportando ameaças à floresta amazônica provenientes de vários fatores, principalmente pobreza, pecuária, garimpo de ouro, mineração de outros minerais, agricultura de subsistência, agricultura em larga escala, silvicultura e incêndios florestais. A narrativa na época era a de que “os pulmões do mundo estão queimando”! Parece familiar?

"Os pulmões da Terra estão em chamas", escreveu o ator Leonardo DiCaprio no Instagram na quinta-feira passada. "A floresta tropical da Amazônia - os pulmões que produzem 20% do oxigênio do nosso planeta - está pegando fogo", tuitou o presidente francês Emanuel Macron, no mesmo dia. A Twittersfera ardia de preocupação pelos pulmões da Mãe Terra e queimava com críticas ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, culpando-o quase inteiramente pela destruição.

Como resultado, Macron colocou essa “emergência global” no topo da agenda na reunião do G7 que ele acolheu em Biarritz, França, onde foram prometidos CND 26,5 milhões de dólares canadenses dos membros do G7 para ajudar a combater os incêndios na Amazônia, somados a adicionais 15 milhões prometidos pelo primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e outros 15,8 milhões pelo governo do Reino Unido, na segunda-feira.

Na terça-feira, Bolsonaro inicialmente recusou a ajuda do G7, uma decisão aparentemente popular entre muitos brasileiros, indignados com as fortes críticas mundiais a seus incêndios enquanto cidadãos de outras jurisdições, como Califórnia, Austrália e Canadá, recebem expressões de compaixão e condolências quando suas florestas queimam. No fim das contas, acabou aceitando a oferta, sob condições.

O Ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, sugeriu na segunda-feira que a França receba o dinheiro prometido pelas nações do Grupo dos Sete e gaste em casa. “Nós apreciamos as ofertas, mas talvez esses recursos sejam mais relevantes para reflorestar a Europa”, disse Lorenzoni ao site da GloboNews. Touché! Política à parte, quão preciso é o alarme expresso por Macron, os outros líderes do G7, DiCaprio, Madonna e outros?
O New York Times analisou o assunto.

A foto compartilhada por Macron e DiCaprio aparentemente tem mais de 20 anos. A foto compartilhada por Madonna tem mais de 30 anos. Outras celebridades compartilharam fotos de florestas queimando na Índia e Suécia. Uma publicação no Instagram de Leonardo DiCaprio parece mostrar um incêndio na floresta na Amazônia, mas a foto foi apresentada mais tarde como desatualizada.

É assim que o G7 agora define sua agenda, por ‘fake news’ liderando no Twitter?

Michael Shellenberger - “Herói do meio ambiente” da revista Time - publicou uma matéria convincente na segunda-feira na revista Forbes, desacreditando Macron, DiCaprio e o G7.

"Eu estava curioso para ouvir o que um dos principais especialistas em florestas da Amazônia do mundo, Dan Nepstad, tinha a dizer sobre a alegação dos 'pulmões'", escreve Shellenberger.

"É besteira", disse Nepstad. “Não há ciência por trás disso. A Amazônia produz muito oxigênio, mas usa a mesma quantidade de oxigênio através da respiração, então é uma lavagem ”.

No artigo de 16 páginas que escrevi em janeiro de 1992, intitulado “Paraíso perdido: floresta tropical brasileira em extinção”, especialistas previram que a maior floresta tropical do mundo, alimentada pelo maior rio do mundo e lar do ecossistema mais rico e diverso do mundo “poderia desaparecer por completo em meados do próximo século, se a atual taxa de destruição continuar ”.

Felizmente, essa horrenda previsão de 27 anos atrás não deve materializar-se - nem de longe. Cerca de 20% da floresta amazônica foi derrubada ou queimada e a taxa de destruição diminuiu consideravelmente. Em outras palavras, 80% da floresta amazônica permanece intacta.
Nenhum desses fatos foi mencionado por nossos líderes mundiais.

Lloyd Axworthy, ex-chanceler canadense, e Allan Rock, também ex-ministro federal, escreveram um artigo de opinião conjunto no Globe and Mail acusando Bolsonaro de “ecocídio” - uma dura denúncia, mesmo que Bolsonaro mereça muitas críticas, inclusive no quesito ambiental.

“O ‘ecocídio’ do senhor Bolsonaro deve ser confrontado mais diretamente ou então ele simplesmente encontrará outras maneiras de alcançar seu propósito. O Canadá pode liderar esse esforço na ONU e em outros lugares”, escreveram eles. Mais tarde, na televisão CBC, Axworthy pediu ao governo federal que interrompa as negociações comerciais com o Brasil devido à situação.

O que realmente está acontecendo no Brasil? As circunstâncias são tão alarmantes quanto esses críticos afirmam?

Como afirmado no artigo que Shellenberger escreveu para a Forbes, de acordo com Andrew Revkin, diretor fundador da Iniciativa de Comunicação e Sustentabilidade do Instituto da Terra na Columbia University, o desmatamento caiu 70% entre 2004 e 2012. Embora tenha aumentado modestamente desde então, permanece em um quarto do pico de 2004. Atingiu seu máximo sob o governo do Partido dos Trabalhadores no Brasil. Axworthy, Rock, Macron, DiCaprio e todos os outros permaneceram em silêncio à época. Mas o Twitter só foi criado em março de 2006 e o Instagram, em outubro de 2010. Como esse último desastre do G7 prova, parece que nossos líderes mundiais estão definindo suas agendas pelas notícias falsas postadas por celebridades hipócritas no Instagram. É de chorar.

Em nossa viagem anos atrás, apesar da nossa ânsia - que beirava o desespero -, não vimos nenhum incêndio, exceto a queima de um monte de lixo no campo de um fazendeiro em uma área extremamente remota no noroeste do Brasil.

Enquanto Stan e eu cruzávamos a vastidão do Brasil quase três décadas atrás - muitas vezes em pequenos aviões a hélice -, a floresta amazônica parecia um vasto oceano esmeralda que se estendia pela curvatura da Terra por horas a fio. O dossel era tão espesso que pequenos rios não podiam ser vistos de cima, a menos que o sol estivesse refletido em suas águas. De vez em quando um par de papagaios coloridos podia ser visto voando acima das copas - quebrando a monotonia da vastidão verde ao redor. Esse ainda é o caso, apesar de todas as previsões apocalípticas que eu fiz um dia.

De lá para cá, o Brasil aprovou leis federais que protegem seus 60% de floresta amazônica contra o desmatamento. Que outro país do mundo fez isso? Não o Canadá. Não os EUA e certamente não a França.

Licia Corbella é colunista do Postmedia.

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