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Os incêndios no Brasil são uma conseqüência de 25 anos de política socialista. O discurso sobre os pulmões ameaçados do mundo é desinformação direcionada.

Por Flavio Morgenstern, 28.08.19

O espetáculo que aconteceu no céu de São Paulo em 19 de agosto teve algo de apocalíptico. Em pouco tempo o céu escureceu, com nuvens nas cores mais estranhas. No entanto, a tempestade não caiu; houve apenas algumas precipitações. Mas na manhã seguinte choveram especulações sobre a causa. Que estava mais próxima do que os incêndios florestais na bacia amazônica. Por semanas, eles dominam as manchetes no Brasil. Quando, então, correu a mensagem de que haviam sido encontradas partículas de fuligem na chuva, ficou claro o assunto.

A Bacia Amazônica fica mais de 2000 quilômetros a noroeste de São Paulo. Como todos aprendemos na escola, os ventos alísios prevalecem nessa área e fluem no hemisfério sul em direção ao noroeste. Seria compreensível que partículas de poluição atmosférica de São Paulo pudessem ser medidas na Amazônia, mas dificilmente o contrário. Na América do Sul, especialmente nesta temporada, há sempre um incêndio em algum lugar. Uma chuva em São Paulo poderia ter vindo do Paraguai ou da Bolívia. Lá também há muitas queimadas atualmente.

Queimadas têm uma longa tradição na América do Sul. Eram praticadas pelos índios antes da chegada dos espanhóis e portugueses. Mesmo no reino de Evo Morales, estão sendo ilegalmente usadas novamente. Mas, estranhamente, apenas o Brasil é mencionado.

Os piores incêndios no Brasil foram registrados em 2005. Lula da Silva estava no poder havia um ano e meio. Naquele momento, ninguém culpava o governo socialista. É completamente diferente com Jair Bolsonaro. Mas é possível que, nos oito meses em que ocupa o cargo, ele tenha mudado tanto o Brasil? Nem mesmo seus seguidores mais zelosos acreditariam nisso.

Bolsonaro, por sua vez, culpou grupos de esquerda e ONGs por parte dos incêndios. Isso foi imediatamente marcado como distração pela grande mídia. Mas, por mais estranho que possa parecer à primeira vista, não é.

Parte dos incêndios, particularmente no estado de Rondônia, na fronteira com a Bolívia, foi indubitavelmente realizada por membros do MST (Movimento dos Sem Terra), que é acariciado pela esquerda política. Como quase todos os agricultores do Brasil, os ativistas do MST gostam de trabalhar com fósforos e combustível para tornarem a terra arável. A especialidade do MST são invasões, ou seja, ocupação violenta de terras, independentemente de elas possuírem ou não um proprietário. Isso inclui florestas nativas.

Sob o regime do Partido dos Trabalhadores de Lula e Dilma Rousseff (2003 a 2016), os posseiros de esquerda gozavam de impunidade de fato. Eles eram, embora não oficialmente, o braço dominante do partido no governo. Bolsonaro declarou guerra ao MST. Ele quer classificá-los como uma organização terrorista e combatê-los da forma correspondente. Mas os supostos ambientalistas lutam contra isso.

Queima como todos os anos

Se você se ativer às imagens de satélite da NASA, os incêndios atuais ocorreram também nos últimos quinze anos. Em alguns estados do Brasil e nos países vizinhos, mais incêndios foram registrados, em outros menos. As FIRMS da Nasa (Sistema de Informação de Incêndios para Gerenciamento de Recursos) mostram que os piores incêndios assolam a região do Cerrado, e não a Amazônia.

Quando todos, apesar disso, falam sobre a Amazônia, então é desinformação, pura propaganda. "A Amazônia está queimando!" Ou "Os pulmões do mundo estão morrendo" são manchetes muito significativas para serem ignoradas. O mais louco é que essa armação não afeta apenas os europeus, mas também muitos brasileiros que desejam conhecê-la melhor.

A maioria dos brasileiros conhece a selva apenas com base em livros didáticos e filmes da natureza. Para alguém do Rio de Janeiro ou de São Paulo, a Amazônia está tão longe quanto a Islândia para um grego. Dos 208 milhões de brasileiros, apenas 12% vivem na Amazônia, e a maioria deles não vive na floresta.

Quem pensa que os brasileiros não estão interessados em proteger as florestas tropicais está enganado. A proteção ambiental é popular. Sempre há um protesto acontecendo em algum lugar. Mas propaganda política raramente pode ser distinguida da realidade. Mostra disso é uma foto que viralizou recentemente nas redes sociais: uma maquiadora do Sul pintou seu belo corpo com desenhos de pinheiros e girafas em chamas. Nada disso está presente na Amazônia.

Antes mesmo de Lula e Dilma, esteve no poder Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2003), um socialista, embora não tão radical. A esquerda política teve um quarto de século para combater o desmatamento e as queimadas. Mas nos últimos 25 anos, mais florestas foram destruídas do que nunca. O Partido Trabalhista praticamente incentivou o movimento radical sem terra MST a tomar a terra como bem entendesse.

Nenhuma crise internacional foi declarada contra Lula e Dilma. Pelo contrário, celebridades como Bono Vox e Roger Waters se derreteram em admiração por Lula e companhia. Mas os gritos sobre cortes e queimadas distraem do cerne do problema: durante anos, a ilegalidade era uma política governamental de fato no Brasil. Hoje, toda semana a oposição se esforça para infligir alguma suposta crise ao governo Bolsonaro. É semelhante a Trump nos EUA. Você se acostuma, e depois de alguns dias o espetáculo acaba.

A esquerda brasileira, como a norte-americana, tem um poderoso aliado em suas campanhas contra o governo conservador de direita: as estrelas do entretenimento global. A Amazônia, com suas paisagens pitorescas e índios de cores vivas, é simplesmente atraente demais para não ser cultivada e explorada. Gisele Bundchen, Leonardo DiCaprio (seu ex-namorado), Madonna, o filho de Will Smith, Cristiano Ronaldo - todos participaram voluntariamente da campanha anti-Bolsonaro.
Os três primeiros precisavam de uma imagem de florestas queimando para sua mensagem nas mídias sociais, que a fotógrafa Loren McIntyre, que morreu em 2003, tirou em 1989. Cristiano Ronaldo postou até uma foto do Rio Grande do Sul, na fronteira com o Uruguai, de 2013. A atriz brasileira Fernanda Lima postou a imagem de um macaco com um menino nos braços. A foto foi tirada em 2017, na Índia, pelo fotógrafo Avinash Lodhi.

Pretexto elegante

O pássaro, para não mencionar o macaco, foi abatido pelo presidente francês Emmanuel Macron. No Twitter, ele escreveu sobre a imagem de 1989: "Nossa casa está queimando". Macron espalhou o tweet por ocasião da reunião do G-7, um grupo ao qual o Brasil não pertence. Imagine Matteo Salvini culpando Macron pelo desastre quando a Notre Dame estava em chamas. Provavelmente não teria parecido tão bom, embora Salvini, como bom católico, possa indubitavelmente afirmar ter certa ligação com Notre Dame.

Se a Europa considera a Amazônia como seu território, isso não traz de volta as melhores lembranças para a América do Sul. Nas antigas colônias, há certa sensibilidade a esse respeito. Se Macron quer usar uma foto falsa para explicar que a floresta amazônica é "o pulmão que produz 20% do oxigênio do planeta", então começo a suspeitar. Na escola, aprendemos que a maior parte do oxigênio foi produzido por algas durante milhões de anos antes da existência da floresta amazônica. E não falta oxigênio, pelo menos aqui no Brasil.

A proteção das florestas tropicais é uma das pautas favoritas no Brasil há décadas. No entanto, parece estranho que sejam os europeus, que cortaram praticamente todas as suas florestas primitivas, a quererem nos ensinar lições. Também não é que a floresta no Brasil só encolha. Se a terra não for usada nos trópicos, a floresta voltará rapidamente. E quando Macron denigre Bolsonaro como um Nero da Amazônia via Twitter em vez de se dirigir a ele pessoalmente, também fica claro que se trata de algo completamente diferente.

O presidente francês associou seu ataque a Bolsonaro à exigência de suspender o acordo de livre comércio UE-Mercosul. Para quem segue a política com atenção, isso é quase uma confissão.

Em 22 de junho de 1999, começaram as negociações entre a União Europeia e o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai). Após vinte anos, o contrato foi assinado em 28 de junho de 2019 em Bruxelas, Bélgica. O acordo prevê a isenção de direitos alfandegários sobre produtos agrícolas, como suco de laranja ou café solúvel, bem como certos produtos industriais. Nas áreas mais sensíveis (carne, açúcar, etanol), deve haver cotas comerciais.

Em 10 de julho de 2019, protestos eclodiram em toda a França contra o tratado. Depois de meses de constantes ataques pelos “coletes amarelos”, novas manifestações são a última coisa de que o presidente Emmanuel Macron precisa. Sua paixão súbita pela bacia amazônica agora oferece a ele um pretexto elegante para bloquear um acordo de livre comércio sem bater-se contra seus parceiros europeus. Afinal, ele não é contra o livre comércio, mas apenas pela proteção do clima. Quão tocante. Esquece-se com facilidade que a França muito possivelmente não cumprirá seus próprios objetivos climáticos.

De fato, os agricultores franceses temem a concorrência da América do Sul, como o diabo teme a água benta. "Mercosul, não à concorrência desleal!" é o seu grito de guerra. Mas se há algo de injusto nessa competição, são os subsídios para os agricultores franceses. Na América do Sul, por outro lado, os agricultores não contam com subsídios. Em vez disso, eles pagam impostos, e não são poucos. Sua vantagem competitiva não tem nada a ver com cortar e queimar; é acima de tudo advinda da natureza.

O inverno francês é longo e severo. O gado pasta ao ar livre por no máximo sete meses, depois é enclausurado por cinco meses e deve ser alimentado artificialmente. No Brasil, Uruguai, Paraguai ou Argentina, o gado permanece no pasto o ano todo, e raramente é necessário algum cuidado. Enquanto uma fazenda considerável na Europa pode gerenciar, no máximo, cem hectares, na América do Sul a norma são mil hectares. Mesmo que sejam gerenciadas menos intensivamente, elas produzem mais com menos esforço. A cana é mais produtiva e mais fácil de gerenciar do que a beterraba. Estes são apenas alguns exemplos.
A ironia é que o Brasil tem um programa de proteção ambiental muito mais rigoroso que a França. Na França, as áreas legais de florestas e parques representam cerca de 3% das terras agrícolas. No Brasil, essas áreas de variam de 20 a 80%, dependendo da área. Embora se presuma que as leis no Brasil geralmente sejam pouco cumpridas na prática, o fato permanece: na França, 50,61% do território nacional é usado para a agricultura: no Brasil, apenas 7,8%.

Os agricultores franceses, que estão sendo presenteados com bilhões em subsídios e tarifas de importação, também estão ameaçados pela oposição regional. Desde maio de 2018, uma redução acentuada dos subsídios está em discussão na UE. A França resistiu até agora. O acordo supostamente significaria o fim de mais de 20.000 operações agrícolas. É claro que a França, tal como é exigido do Brasil, poderia transformar seus campos de volta em florestas primitivas. Mas, aparentemente, ninguém fala sobre isso.

A chanceler alemã Angela Merkel anunciou em junho, antes da cúpula do G20 em Osaka, que queria conversar seriamente com o presidente Bolsonaro sobre meio ambiente. Aparentemente, a conversa não trouxe as concessões esperadas. A Alemanha congelou US$ 80 milhões para projetos ambientais na Amazônia. Com um produto interno bruto de cerca de US$ 2 trilhões, a perda para o Brasil deve ser sustentável. Bolsonaro disse, então, secamente: "Tudo bem, use esse dinheiro para reflorestar a Alemanha".

Flavio Morgenstern vive em São Paulo e é autor, blogueiro e jornalista.

 

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