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Denise Chrispim Marin

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antônio Patriota, afirmou ao Estado ser possível a aplicação de sanções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) contra interesses particulares do líder líbio, Muamar Kadafi. Conforme indicou, nenhuma retaliação foi proposta ao Conselho de Segurança por causa da preocupação dos países-membros com seus cidadãos na Líbia. "Sanções contra quem? Só se for contra Kadafi e seu círculo imediato de assessores", afirmou. Durante a entrevista, Patriota emitiu novos sinais sobre a agenda do governo de Dilma Rousseff para o Oriente Médio.

 

Nas rebeliões populares da Líbia, do Egito e da Tunísia, não houve condenação aberta aos regimes autoritários, mas à violência. Por que?

 

Essa mensagem está implícita. Quando um país diz que se solidariza com as aspirações dos manifestantes por maior participação política, por maior liberdade de expressão, a condenação está implícita.

 

No caso do Brasil, estava implícita?

 

Sem dúvida. Esses episódios provaram ser falsa a percepção de que, no mundo árabe, ou se cai no autoritarismo ou no extremismo islâmico da Al-Qaeda. Ficou claro no caso do Egito, uma nação que representa a metade da população do mundo árabe na qual setores muito expressivos da sociedade reivindicaram melhorias institucionais, econômicas e sociais com base na paz e no diálogo. Essa é uma mensagem significativa e transcendental. O mundo árabe não é o mundo da Al-Qaeda. Não precisamos falar dessa região apenas em termos de terrorismo. Acho que a Al-Qaeda foi uma das grandes derrotadas desses episódios.

 

Por quê?

 

Porque não verificou o conceito da Al-Qaeda de que países anteriormente alinhados ao Ocidente só poderiam evoluir por meio do extremismo.

 

 

A questão líbia terá evolução no Conselho de Segurança?

 

Eu não excluo a hipótese.

 

Até mesmo com a possível adoção de sanções?

 

Sanções contra quem? Só se for sanções contra Kadafi e seu círculo imediato de assessores. No momento, não se fala nisso.

 

Parece estranho os Estados Unidos não tocarem ainda em sanções?

 

Há a preocupação com os nacionais na Líbia. Até agora, não houve violência contra estrangeiros. É interessante que, em todos esses movimentos nos países árabes, não houve slogans contra o Ocidente.

 

Em 2003, em Trípoli, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou Kadafi de "meu amigo, meu mestre" e iniciou uma relação mais próxima do Brasil com a Líbia. Como fica a relação bilateral após a condenação do Brasil à violência no país?

 

Há um alto grau de imprevisibilidade na situação na Líbia. Essa é também a percepção do conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Tom Donilon, e da secretária de Estado, Hillary Clinton. Embaixadores árabes nos Estados Unidos também comentaram comigo sobre a complexidade inerente ao caso líbio, o único a ser levado ao Conselho de Segurança. O comunicado negociado pelos 15 membros do Conselho de Segurança (dia 22) estava muito em linha com nossa posição de repúdio à violência contra civis, de conclamação à moderação e ao diálogo, de facilitação da saída de estrangeiros. Não poderia prever neste momento o que acontecerá na Líbia, que já foi suspensa da Liga Árabe. Há risco de fragmentação territorial, em função de diferentes tribos e grupos que atuam em Benghazi e em Trípoli, e mercenários.

 

Qual sua avaliação sobre esse dominó de rebeliões contra regimes autocráticos árabes?

 

Já tivemos esse mesmo desejo de evolução democrática, de maior oportunidade econômica, de liberdade de expressão e de soberania na escolha dos rumos da Nação. Só podemos nos solidarizar com movimentos do Egito, da Tunísia e da Líbia. Fala-se muito no modelo turco de democratização desses países, por causa do ingrediente islâmico. O Brasil também pode oferecer um modelo de conciliação entre democracia, crescimento com Justiça social e evolução das liberdades individuais.

 

Qual será a relação do governo Dilma Rousseff com o Irã?

 

Será uma relação voltada para o comércio, o investimento, o diálogo político. Em relação ao programa nuclear, defendemos que o Irã deve se ater exclusivamente aos fins pacíficos, com base em seus compromissos como o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP).

 

Mas com direito ao enriquecimento de urânio a 20%?

 

Esse direito não é contrário ao TNP. O problema do Irã é a desconfiança em relação a seus compromissos internacionais. Temos de oferecer alternativas diplomáticas para superar esse impasse. O Acordo de Teerã (maio de 2010) foi uma alternativa para criar confiança ente interlocutores que mal dialogavam entre si. O Acordo de Teerã está sobre a mesa. Continuaremos dialogando, como fizemos em 2010, com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e a União Europeia.

 

O Brasil vai votar pela condenação do Irã no Conselho de Direitos Humanos?

 

Caberá à delegação do Brasil se pronunciar.

 

Qual sua opinião sobre o veto dos Estados Unidos à condenação dos assentamentos de Israel em territórios palestinos?

 

Foi uma votação muito eloquente, de 14 votos a favor dessa resolução contra apenas um. Toda a Europa votou junto. Os assentamentos impedem o progresso no processo de paz.

 

Diante do Conselho de Segurança, o Brasil sublinhou sua intenção de atuar no processo de paz entre israelenses e palestinos. De que forma?

 

Neste ano, os três países do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) estão representados no Conselho de Segurança, como membros não permanentes. Os três têm em comum as boas relações com o mundo árabe e Israel e participaram da Conferência de Annapolis (2006). No dia 11, o Ibas concordou em permanecer em coordenação estreita para apoiar o processo de paz. Há tempos a Rússia quer realizar uma Annapolis 2, mas não há consenso. Essa reunião seria muito desejável.

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