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Eu sempre tenho uma dúvida, quando estou falando em português, se todo mundo entende. Uma vez, eu estava na Bolívia e perguntei a um companheiro meu se ele entendia espanhol [português], e ele me disse que só o essencial. E eu perguntei: e quem define quando é essencial?

E eu queria dizer ao meu companheiro Lugo, aos meus companheiros do governo paraguaio, aos empresários do Paraguai, à imprensa do Paraguai da minha alegria de estar vivendo este momento no meu governo.

Não foi uma tarefa fácil chegarmos até aqui. Nós poderíamos, hoje, estar inaugurando a linha de transmissão, mas, por conta de divergências e de desconfianças, nós perdemos... Só eu, que já vou terminar o meu mandato, perdi pelo menos uns quatro anos do meu mandato quando já poderíamos ter inaugurado esta linha de transmissão.

De qualquer forma, como o companheiro Lugo é um homem cristão e sabe que Deus escreve certo por linhas tortas, está permitindo que seja exatamente agora que possamos dar início a uma construção que vai, não mudar definitivamente a cara do Paraguai ou a cara de Assunção, mas trazer 50 megawatts de energia a mais para Assunção – é praticamente dobrar os duzentos e cinquenta e poucos megawatts que hoje atende a Assunção. E atrás da energia, certamente virá uma empresa, certamente virá a segunda empresa, certamente virá a terceira empresa e certamente terá que vir outra linha de transmissão, de potência maior que 500 megawatts.

Eu estou convencido de que, apesar de muitas vezes as divergências políticas aparecerem com mais destaque do que as convergências, eu estou convencido de que o Paraguai vive um momento virtuoso na sua vida econômica, política, empresarial e social. As coisas nunca acontecem com a rapidez que a gente gostaria que acontecessem, nunca. E, muitas vezes, quem é governo, vindo de oposição como eu vim ou vindo de oposição como o Lugo veio, como tantos companheiros na América Latina e na América do Sul, há um processo de angústia, porque nós percebemos que a máquina do Estado não está preparada para trabalhar no tempo da necessidade da sociedade. E, portanto, as coisas demoram sempre muito mais do que a gente gostaria que acontecessem.

Portanto, a minha alegria, companheiro Lugo, de coração, de estar aqui junto com os companheiros do Paraguai, dando o pontapé inicial nesta linha de transmissão. Por isso, eu tenho a enorme satisfação de participar deste ato em que se iniciam as obras de construção da subestação de Villa Hayes e da linha de transmissão que trará energia de Itaipu para toda esta região.

O cenário é inspirador. Estamos à margem do rio Paraguai, eixo histórico de comunicação e via natural da integração regional. Estamos em pleno Chaco, fronteira de oportunidade de um país cada vez mais soberano e cada vez mais senhor de si. Temos aqui um governo comprometido com o bem-estar do seu povo. Grandes empreendimentos como este refletem os laços de amizade e cooperação que unem o Paraguai e o Brasil. A linha de transmissão permitirá que o Paraguai se torne o destino de mais investimentos produtivos, que geram mais empregos, que geram mais renda, sustentando seu desenvolvimento econômico e social por meio de energia limpa e renovável, um dos grandes desafios do século XXI.

O Brasil pode e deve atuar como parceiro neste processo. Tenho a firme convicção de que só seremos um país próspero se os nossos vizinhos também o forem. Ao contrário dos que preferem estabelecer a antiga relação de dependência e subordinação com os países ricos, optamos por unir o destino do Brasil à nossa querida América do Sul. Ao contrário dos críticos da cooperação Sul-Sul, fazemos do Mercosul um fator dinâmico do nosso comércio intrazona e uma plataforma para inserção soberana no mundo.

A tenacidade que demonstramos frente à crise econômica global mostrou que estamos no caminho certo. Veja que interessante, companheiro Lugo: as quatro economias do bloco Mercosul estão entre as que mais crescerão neste ano, o que comprova o êxito e o fortalecimento da nossa integração.

Para facilitar a aproximação e reduzir as assimetrias entre nós, criamos instrumentos próprios. Com base nos recursos do Focem, estamos abrindo novos horizontes para a economia paraguaia, lançando bases sólidas para a sua industrialização. As obras da fábrica, que o presidente Lugo e eu – não se está mantido – teríamos que visitar daqui a pouco, é a prova disso. Empresas paraguaias e brasileiras se associaram, com investimento de US$ 103 milhões na criação da Yguazú Cimentos. Esta fábrica, que é o maior investimento privado do Paraguai na atualidade, tende a entrar em operação já em 2011, produzindo 400 mil toneladas/ano e gerando 280 empregos diretos aqui no Paraguai.

Estamos, assim, criando as condições para que o comércio bilateral siga crescendo com mais equilíbrio e maior participação das exportações paraguaias. Prestem atenção em um número promissor: em 2010, nossas trocas comerciais já atingiram US$ 1,5 bilhão, o que representa um aumento de mais de 60%, se comparado ao mesmo período de 2009. Mas precisamos fazer ainda muito mais. É fundamental eliminar os gargalos em infraestrutura para reduzir os custos logísticos e operacionais das atividades de exportação e importação. Este é um dos objetivos da hidrovia Paraguai-Paraná, onde colaboramos para facilitar a navegação e ampliar o fluxo de comércio. Iniciaremos, em breve, a construção da segunda ponte sobre o rio Paraná. A comissão mista encarregada desse projeto tem trabalhado de forma muito ativa. A nova ponte será mais um elo entre Brasil e Paraguai e tornará mais fluido o transporte de cargas, aliviando o tráfego da Ponte da Amizade. Outra medida positiva virá com a entrada em vigor do Regime de Tributação Unificada. O RTU nasceu da vontade política dos governos, empenhados em construir a formalização da economia da fronteira e esta vontade não arrefeceu. Em poucos meses, já será realidade.

A nossa agenda de cooperação bilateral contém, ainda, um forte componente social. O Centro de Capacitação de Hernandarias vem ajudando na formação profissional de mais de 10 mil jovens paraguaios. Estão em curso vários projetos de cooperação em políticas públicas na área social, como nos programas de transferência de renda, habitação, saneamento e agricultura familiar.

O grande número de paraguaios e de brasileiros no Paraguai evidenciam uma forte comunhão de valores entre nossas sociedades. Nossos governos trabalham em sintonia para resgatar a dignidade e os direitos de cidadania dessas comunidades.

Por isso, eu agradeço o apoio do governo paraguaio nas campanhas de regularização migratória de brasileiros residentes no Paraguai. Já são mais de quatro mil brasileiros beneficiados. Esperamos que, até o final de 2010, outros tantos passem a usufruir dos direitos oferecidos pela situação migratória regular.

Meu caro companheiro presidente Lugo,

Ao completar um ano de uma última visita a Assunção, quero reiterar meu compromisso com todos os pontos da declaração conjunta que lançamos no dia 25 de julho de 2009. Temos feito progressos significativos no diálogo com o Congresso brasileiro para aprovar as Notas Reversais que aumentam a compensação pela cessão de energia ao Brasil. Certamente, na próxima semana entrará em votação na Câmara dos Deputados e, se isso acontecer, possivelmente em setembro estaremos em votação no Senado da República e, quem sabe, aprovaremos isso ainda antes de terminar o meu mandato na Presidência da República do Brasil.

Também estamos avaliando com toda atenção a recente proposta paraguaia sobre a possibilidade de venda direta de energia no mercado brasileiro. Quero felicitá-lo pela serenidade e firmeza com que o seu governo vem conduzindo a ampla e densa agenda bilateral com o Brasil.

Em seus quase dois anos de mandato, Vossa Excelência tem dado mostras recorrentes de que a soberania e a integração podem andar juntas, e que um Paraguai cada vez mais assertivo, justo e democrático é fundamental para a comunidade de nações sul-americanas.

Companheiro Evo... Companheiro Lugo, eu gostaria de dizer duas palavras sem o meu discurso oficial. Eu sei que tem gente reclamando do sol, mas certamente ninguém está tomando mais sol do que eu estou tomando nas costas aqui. Eu queria dizer isso porque, Lugo, eu, daqui a cinco meses e um dia, não serei mais presidente da República do Brasil. E eu não poderia deixar de dizer, neste encontro contigo, com os seus ministros, com os empresários, que eu aprendi possivelmente muito mais do que se eu tivesse feito uns dez cursos de pós-graduação em Ciências Políticas a realidade da nossa querida América do Sul, as dificuldades internas de cada país.

E muitas vezes eu compreendi por que nós somos vítimas de preconceitos que nós mesmos criamos contra nós. Ou seja, de um lado, muitas vezes, os brasileiros criaram preconceitos de que não adiantava ficar trabalhando com economia de países vizinhos, menores; de que era melhor estarmos ligados às grandes potências europeias ou às grandes potências do Norte porque eles teriam mais dinheiro, mais tecnologia e esse seria o caminho correto que um país do tamanho do Brasil deveria perseguir. E, de outro lado, os países menores ficavam muito preocupados com medo de uma relação mais objetiva com o Brasil. Porque, muitas vezes, também a doutrina reinante em cada país era de que o Brasil era o grande inimigo dos países pequenos vizinhos do Brasil. E, durante tempos, décadas, séculos, nós fomos jogando tempo fora, acreditando que as coisas que nós deveríamos fazer entre nós viriam de outros lugares. Viriam, quem sabe, da rica Europa, ou que viria dos ricos Estados Unidos, ou que viria do rico Japão, ou que viria de um outro lugar qualquer. E deixamos de fazer as coisas mais elementares que nós deveríamos ter feito ao longo do século XX e ao longo, eu diria, quem sabe, até antes do século XX.

O século XXI é a oportunidade da América do Sul e da América Latina. Nós aprendemos que mentira não dura muito, que as pessoas podem mentir uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, mas uma hora a verdade vem à tona. E a verdade é que tanto para o Brasil quanto para o Paraguai, tanto [para] o Brasil quanto para o Uruguai, tanto para o Brasil quanto para a Argentina, nós nunca poderemos nos ver como adversários ou como inimigos, nós temos que nos ver como oportunidades de uns para os outros.

O Brasil, pelo potencial do seu mercado, nunca pode ser visto como um prejuízo ao Paraguai, mas possivelmente tenha que ser visto como um grande receptor das coisas produzidas no Paraguai. Afinal de contas, são 190 milhões de habitantes, um poder de consumo extraordinário. Já há quem diga que, em 2016, o Brasil será a quinta economia do mundo.

Como é que o Paraguai vai jogar fora a oportunidade de jogar os seus produtos, exportando eles, jogando com a mão para atravessar o Oceano Atlântico, o Rio das Pratas, para levar o produto para onde, se nós somos um mercado excepcionalmente grande para atender uma grande demanda de um país como o Paraguai?

E, muitas vezes... esse discurso, Lugo, eu não faço na sua presença, esse discurso eu não faço na presença de empresários do Paraguai, esse discurso eu faço todo dia, na Federação das Indústrias de São Paulo, na Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul, e por onde eu viajo com os empresários brasileiros, ao meu Ministro da Indústria e Comércio.

Muitas vezes eu brigo com o empresariado brasileiro: por que eles não se dão conta de fazer mais investimentos no Uruguai, mais investimentos no Paraguai, mais investimentos na Bolívia, para que a gente tenha, até do ponto de vista racional, um equilíbrio na balança comercial? Tem país que o Brasil pode vender tudo para eles e eles não podem vender nada para o Brasil. E caberia à economia brasileira garantir que este país pudesse produzir alguma coisa e o Brasil pudesse comprar para fortalecer a economia deste país.

Eu fico olhando a distância Brasil-Paraguai; eu fico olhando a quantidade de fronteiras que nós temos, e, sobretudo, fronteira seca. E o desafio que nós temos é evitar que essas fronteiras se transformem em problemas para nós. E ela sempre será problema enquanto perdurar o subdesenvolvimento, enquanto perdurar a miséria.

Eu espero, companheiro Lugo, que... daqui a pouco teremos uma outra pessoa governando o Brasil, e que essa pessoa tenha mais sorte, mais oportunidades e, quem sabe, até mais ousadia, pelo aprendizado que nós tivemos nesses anos todos, de transformar todos os focos de problemas que temos na fronteira Brasil e Paraguai, onde dizem que é caminho do narcotráfico, onde dizem que é caminho do contrabando, onde dizem que é caminho da febre aftosa, para a gente transformar parte dessa fronteira em pontos de desenvolvimento, de geração de emprego, de geração de renda, porque é isso que vai garantir o crescimento do Paraguai, o crescimento do Brasil, e é isso que vai transformar o Paraguai e o Brasil em países mais justos neste século XXI.

Portanto, queria, de coração, agradecer a vocês e, sobretudo, companheiro Lugo, agradecer a você a serenidade com que Vossa Excelência tem tratado as divergências que temos vivido.

Um abraço.

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