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"Crescer e diversificar"

Chanceler aponta aumento nas exportações como exemplo de sucesso da política externa brasileira

Por Gustavo Paul

O chanceler Celso Amorim admite que o Brasil cometeu alguns erros em sua política externa, mas mantém a confiança de que o país está no caminho certo. Para ele, o crescimento nas exportações, principalmente com nossos vizinhos, é prova disso.

Revista EXAME - O Brasil pleiteou as presidências da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e não levou, vê distanciar sua pretensão de obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, as negociações para Alca e com a União Européia andam devagar ou estão paradas, o Mercosul está vivendo seu pior momento e o governo foi surpreendido pela decisão da Bolívia de nacionalizar seus recursos naturais com tropas nas refinarias da Petrobras. A política externa do governo fracassou?

Celso Amorim - Não há fracasso na política externa brasileira. Curiosamente, duas pesquisas de opinião recentes diziam que as intenções de voto no presidente Lula subiram por causa da viagem à Inglaterra e ,depois, não desceram, apesar da Bolívia. Quando isso acontecia no passado? Dizer que o Brasil perdeu prestigio na OMC é uma bobagem. Era melhor ganhar a eleição? Era. Mas não acho que nada disso tenha sido grave. O presidente do BID esteve não sei quantas vezes no Brasil desde que foi eleito, que é uma clara demonstração da importância que o país tem. A Comunidade Sul Americana de Nações está avançando, mas as turbulências que a América do Sul passa não estão sob nosso controle. É como dizer que o governo turco ou governo iraniano estão com problemas por que ocorreu um terremoto. Não podemos controlar a geologia, nem a física, nem a política. Ela ocorre. O fato de termos o padrão de diálogo que temos hoje nos permitiu encaminhar conflitos. Passou despercebido, mas há um ano houve um momento muito tenso na relação entre Colômbia e Venezuela e o Brasil ajudou muito a acomodar, conversando sem nenhum aspecto ideológico. Somos amigos do presidente venezuelano Hugo Cháves, mas também somos amigos do presidente colombiano Álvaro Uribe. Em relação ao Conselho de Segurança não tivemos um revés. A questão é que há um grupo muito grande de países, sendo que alguns se declaram candidatos a membros permanentes, que é o caso da Alemanha, do Japão, do Brasil e da Índia. Até membros atuais do conselho apoiam essa reforma. Mas há dificuldades e não é uma coisa que se resolve em um dia. Fazer uma reforma na ONU é muito complicado e alguns países tem poder de veto. Mas, essa reforma vai acontecer. Se vai ser nesse governo ou no próximo eu não sei. Eu sinto que a postulação brasileira está em outro patamar. Há 10 anos, só se falava em Alemanha e Japão como membros permanentes. Hoje em dia, os próprios alemães e japoneses sabem que sem Brasil e Índia eles não entram.

EXAME - Quais foram as lições apreendidas pela diplomacia brasileira?

Amorim - Sou muito sincero e acho que o Brasil cometeu um erro ao ter dois candidatos ao mesmo tempo para a OMC e para o BID, que são dois órgãos muito importantes. Mas essas coisas não dependem só de decisões de Estado. Elas acontecem, existem expectativas. Isso é uma lição. Tínhamos uma preocupação muito grande com a rodada Doha da OMC e o Brasil é liderança do G-20, grupo que reúne os principais produtores agrícolas. E era importante que tivéssemos um diretor geral da OMC que pudesse ajudar nesse processo. Mas acho que o Pascal Lamy está indo muito bem. A própria candidatura brasileira ajudou a colocar a discussão na OMC nos termos que ela devia: maior participação dos países em desenvolvimento, maior transparência. Enfim, o Brasil é parte do cenário internacional de uma maneira que nunca foi.

EXAME - Qual é o horizonte da atual política externa?

Amorim - Acho que ela continuará e terá de ser aprofundada. As pessoas chamavam de exagero a nova geografia comercial proposta pelo governo federal. As exportações brasileiras estão crescendo, mas isso não é mágica. Para onde elas estão crescendo mais? Para os países que foram declarados prioritários por nossa política externa. Os números são impressionantes. A Venezuela, por exemplo, se transformou no 10º parceiro comercial do Brasil, acima do Reino Unido e da França. Em 2002, no primeiro quadrimestre, exportávamos 300 milhões de dólares para eles e agora exportamos 1 bilhão de dólares. Para a Rússia as exportações também passaram de 270 milhões de dólares no primeiro quadrimestre de 2002 para 840 milhões de dólares este ano. Não estamos falando de coisas ideológicas, mas de questões práticas.

EXAME - Uma das principais críticas que se faz à política externa é a de que ela abandonou uma linha pragmática, em troca de uma linha de atuação mais ideológica. O que o senhor acha dessa crítica?

Amorim - É uma ilusão pensar que alguma pessoa em qualquer lugar não faz política. E não é nada de ideológico, nada de simpatia. Nesse contexto de crescente exportações brasileiras, a América Latina já é maior que a União Européia. É o maior grupo para onde vão as exportações. E a América do Sul, onde temos posto muita ênfase, é maior do que os Estados Unidos. É algo impressionante em um contexto em que tudo tem crescido. O que isso tem de ideológico? Eu não sei. As pessoas aqui é que ficaram na década de 70. Elas vêm com uma ótica errada.

EXAME - Mas o Brasil não deveria dar mais atenção aos parceiros tradicionais, como Europa e Estados Unidos?

Amorim - As exportações para os Estados Unidos também são recorde histórico. O presidente Lula esteve nos Estados Unidos e teve uma visita de trabalho excelente. O presidente Bush esteve aqui e foi uma excelente visita de trabalho. Os negócios e investimentos estão aumentando. Não me lembro de ter havido um encontro de empresários tão grande como o do presidente Lula em Genebra, com empresários europeus, e depois em Nova York com empresários americanos. Não abandonamos os Estados Unidos e a Europa, que aumentaram suas compras de produtos brasileiros: mas os outros aumentaram mais ainda. Países árabes e africanos, juntos dão quase 10% de nossas exportações. Vendemos aviões para Arábia Saudita, ônibus para o Catar, carne para Argélia, em uma proporção inédita. Tem muito empresário ganhando dinheiro com isso.

EXAME - Uruguai já manifestou interesse em ter acordos paralelos ao Mercosul, particularmente com os Estados Unidos e, caso isso ocorra, existe o risco de eles saírem da condição de membros efetivos do bloco. O que significaria isso?

Amorim - Eu não creio que isso aconteça, mas a vida é cheia de riscos. Eu também acho que será uma decisão soberana do governo uruguaio, se quiser fazer isso. Em conversas que tive com governantes uruguaios me pareceu que eles não desejam que isso ocorra. Mas, as queixas deles têm procedência. O presidente Lula, em um discurso em Puerto Iguazú, na Argentina, admitiu que há um mal estar no Mercosul, sobretudo provindo dos países pequenos. Ele disse que a expectativa do Mercosul não se cumpriu para eles. Não há como negar.

EXAME - Então para esses países não seria melhor seguir o exemplo do Chile e do México e firmar acordos de livre comércio com outros países?

Amorim - Eles teriam um ganho hoje, mas seriam ignorados no futuro. Fomos à Índia e fizemos um acordo de preferências, caminhando para livre comércio com a Índia. O que defendemos? Para nós nada, mas para os indianos darem cotas para a compra da soja do Paraguai. Estamos abrindo oportunidades. Os Estados Unidos só vão fazer um acordo de livre comércio com o Uruguai se for para nos chatear. E acho que eles não tem esse espírito. Mas já disse várias vezes que se tiver alguma maneira de os americanos darem uma preferência ao Uruguai, vamos aceitar. Mas se o Uruguai tiver que dar em troca, aí complica. É incompatível. Não é uma questão de querer ou não querer. Não dá. Se Portugal quiser fazer um acordo com o Canadá terá que sair da União Européia.

EXAME - E qual é será a solução para esse impasse?

Amorim - Para cumprir a promessa do Mercosul é preciso ter uma política industrial que inclua o bloco, que tenha uma política tecnológica, voltada principalmente para os menores. É preciso uma política industrial ativa. Tudo que Paraguai e Uruguai nos pediram para considerar, dentro dos limites do que era razoável em uma união aduaneira, fizemos. Os uruguaios e paraguaios sabem disso. Mas não foi suficiente para promover investimentos importantes para esses países. Acho que para isso vai ser preciso financiamentos, tem que usar compras governamentais. Permitir, por exemplo, empréstimos do BNDES para empresas brasileiras que atuam em algum setor no Uruguai ou no Paraguai. Se não fizermos isso, eles não vão mudar a estrutura produtiva e continuarão dependendo de um ou dois produtos. Temos que entender isso. Aí tem que lutar contra resistências culturais internas. As pessoas não percebem. Acham que o Brasil pode viver sozinho. Não pode.

EXAME - Mais o Brasil fez recentemente varias concessões aos argentinos o que causou insatisfação nos empresários locais. Participar do bloco ainda faz sentido?

Amorim - Nossas exportações para a Argentina estão batendo recordes de novo. Eu entendo a questão dos empresários. Não menosprezo. Estou vendo pedidos da indústria para ver o que podemos fazer na questão dos moinhos, das farinhas, com a Argentina. Não sei se vou poder resolver. Vamos tentar ver. A verdade é que não só as exportações estão recordes com a Argentina e nosso superávit está cada vez maior. Ninguém mais fala daquela briga. Entregar tudo e jogar fora a galinha dos ovos de ouro. A Argentina é o segundo parceiro comercial do Brasil. O que é bom não se comenta.

EXAME - Qual é o futuro do Mercosul?

Amorim - A expansão está se realizando pela Venezuela, cujo ingresso como membro efetivo vai ser ratificado em junho. É um grande mercado. Vai dar uma configuração importante para o bloco. A presença de países pequenos é importante, porque dá legitimidade política. Ela mostra que o Mercosul não é só uma coisa para ganhar dinheiro. É também. Mas é principalmente um esforço de organização política da região.

EXAME - A entrada da Venezuela no Mercosul não introduz um elemento político que pode ser ainda mais perturbador ao bloco? O que significa a entrada de Hugo Cháves no Mercosul?

Amorim - Não concordamos com tudo com que o presidente Cháves diz, nem ele concorda com tudo que a gente diz ou faz. Mas dialogamos com clareza e com franqueza e acho que isso tem ocorrido com frequência. A Venezuela é um país importante. Ter no Mercosul um dos maiores produtores de petróleo no mundo e uma das maiores bacias de gás é importante. Como isso vai se acomodar totalmente eu não sei. Haverá diferenças é óbvio. Mas é natural. A frase que costumo repetir é que a integração não é uma escolha, a forma de integração é que é uma escolha. Vamos nos integrar pelo comércio, pela tecnologia, por uma política industrial ativa, pela energia ou vamos nos integrar pelo narcotráfico, pela guerrilha, pelo contrabando? É claro que o presidente Cháves continuará fazendo a política que ele quiser. É um país soberano.

EXAME - O Itamaraty não escondeu sua irritação com o convite feito pelo governo venezuelano para que empresas brasileiras participem de projetos na Bolívia. O convite sugere pressão do governo Cháves sobre empresas brasileiras que atuam naquele país?

Amorim - Não acredito que a coisa tenha sido feita com intuito maquiavélico ou diabólico. Nada disso. Acho que o presidente Chavés muitas vezes age com grande entusiasmo. Temos que fazer a coisa direito, pensar o conjunto. Tem que ser uma coisa pensada, organizada, orgânica e ele às vezes se impacienta, acha que somos burocráticos.

EXAME - O que as empresas devem fazer para evitar esse tipo de assédio? Devem ter o aval do Itamaraty?

Amorim - O mundo é cheio de riscos. Costumo repetir que petróleo não dá na Torre Eiffel, em Paris, e manganês não dá na Quinta Avenida, em Nova York. Então, temos que sair pelo mundo e esses lugares tem estabilidades diferentes. E para isso temos que ter uma diplomacia ainda mais atuante. O Itamaraty tem que ser maior, tem que ter mais embaixadas, mais gente, para atender as empresas. Esse convite não é algo anormal, mas temos que ser juízes da oportunidade. Na medida em que as empresas brasileiras se multinacionalizam, você precisa cada vez mais de uma boa coordenação entre esses interesses empresariais e os interesses do Estado. Nós a apoiamos, elas recorrem a nós e têm de seguir um pouco a nossa visão.

EXAME - Nos últimos meses parece crescer uma onda nacionalista no continente. Quais são as garantias que o governo brasileiro pode dar às empresas brasileiras que atuam no exterior?

Amorim - Cada vez mais tem que haver um entrosamento. Precisamos ter troca de informações, até de análise política, das tendências. Sempre apoiamos o que podemos apoiar, mas temos que respeitar a legislação e as decisões soberanas dos países e temos depois de tratar que nossas empresas sejam também respeitadas. É o que temos feito. Não posso impor a um país que ele tenha investimentos brasileiros. Se ele não quiser, terá que compensar ou deixar que isso seja resolvido de maneira adequada. É apoio consular e apoio político. Se não for manter o investimento, tem que achar uma saída positiva.

EXAME - Outros países afetados pelas medidas de nacionalização das recursos naturais da Bolívia condenaram essa ação e imediatamente se mobilizaram para buscar o ressarcimento dos prejuízos juntos aos órgãos competentes do comércio mundial. Por que o Brasil adotou um caminho diametralmente oposto?

Amorim - As pessoas tiram as críticas eu não sei da onde. Os bolivianos sabem e está até no memorando do ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, com o ministro deles, de maneira mais específica que vamos recorrer. São fóruns internacionais, como o de Nova York no caso da disputa internacional em relação a preço. Há outro fórum, de Paris, no caso de acordo de investimentos. Mas é a empresa que tem que ir. Os bolivianos entenderam isso. A maneira com que fui recebido na Bolívia em maio é uma demonstração. Estive com cinco ou seis ministros. Já fui várias vezes à Bolívia e nunca vi tantos (ministros) em um mesmo dia. Eu acho que houve um entendimento claro que queremos uma relação respeitosa e madura, mas queremos que respeitem nossos interesses. Tenho certeza de que vamos encontrar uma solução.

EXAME - Quais as lições que esse episódio pode trazer para a atual política diplomática brasileira?

Amorim - Às vezes, é preciso esperar um pouco de tempo para poder refletir. Hegel diz que a coruja de minerva só se levanta quando o sol se põe. O sol ainda não se pôs. A lição não é dizer que a política de integração latino-americana está errada. Sem entrar no mérito, as pessoas falam que não é bom que o presidente Cháves, ou quem quer que seja, tenha uma influência muito grande junto ao governo boliviano. Supondo que isso seja verdade, o que temos que fazer? Afastar a Bolívia? Dar as costas para ela ou procurar o diálogo?

EXAME - Quais os cenários com que o Itamaraty trabalha no episódio Bolívia? Caso Morales continue reticente sobre a questão das indenizações, quais as medidas que o governo brasileiro estuda adotar?

Amorim - Temos que trabalhar pela estabilidade da região. Claro que se optássemos por fazer um gesto eleitoral para agradar uma parte da opinião pública brasileira, falando uma coisa violenta contra a Bolívia e o presidente Evo Morales, poderia até agradar. Mas teria dado resultado? Estamos no caminho correto.

EXAME - Muitos defendem hoje que o Brasil deve se afastar de Venezuela e Bolívia e, ao mesmo tempo, reforçar seus laços com as economias de Chile, Uruguai e México. O que o senhor acha dessa tese?

Amorim - Uma coisa não exclui a outra. Pelo contrário, até se complementam e se ajudam. É bom lembrar que a maior fronteira do Brasil é com a Bolívia. O chanceler chileno fará em breve uma visita ao Brasil, que promete ser muito boa. Tanto para o Chile quanto para a Venezuela nosso comércio cresceu.

EXAME - As negociações da rodada de Doha da OMC caminham com muitas dificuldades e corre-se o risco de não haver acordo sobre corte de tarifas e subsídios agrícolas. Isso significaria o fracasso da rodada?

Amorim - Está difícil. Os países ricos não estão vendo o problema que existe, que é muito mais do que comercial. Está ligado à estabilidade, ao combate à pobreza, e assim, até o combate ao terrorismo e ao narcotráfico. Não houve uma percepção plena em torno disso. Eles não estão fazendo as concessões necessárias e estão querendo, digamos, extorquir os países em desenvolvimento com concessões enormes ou usar a impossibilidade desses países fazerem essas concessões no grau que eles desejam como pretexto para não fazer o que eles tem que fazer. Nós estamos dispostos a fazer nossa parte e faremos, mas tem que ter uma noção de proporcionalidade. Quando falamos da agricultura no caso deles, a agricultura européia tem apenas 1% da mão de obra, mas a indústria no Brasil emprega 35%. Não se pode esperar que haja uma coisa equivalente. Eles tem que fazer sim os maiores sacrifícios políticos.

EXAME - Se fracassar a rodada Doha?

Amorim - Vai ser muito ruim para o mundo, em primeiro lugar. Para o Brasil também, pois estamos inseridos no comércio internacional de maneira capilar, com uma distribuição equilibrada e homogênea. Poucos países no mundo têm esse tipo de distribuição de comércio. Para nós não há alternativa. O México teria os parceiros da Nafta, por exemplo. A coisa que mais fere o comércio internacional são os subsídios e eles só podem ser resolvidos na OMC. Se não tiver esse acordo, vamos cair no acordo bilateral, no acordo regional. Sobreviveremos, mas para o mundo não é bom e, sendo assim, não é bom para o Brasil.

EXAME - O Brasil terá de voltar às negociações da Alca e com a União Européia em posição menos vantajosa, já que o governo elegeu a OMC como principal fórum de negociações?

Amorim - Eu não vou fazer essa previsão agora. Eu vou tratar disso quando acontecer.

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