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Estando impossibilitado de nos acompanhar neste momento, o Ministro de Estado, Embaixador Mauro Vieira, pediu-me que falasse em seu nome e no de todos os funcionários da nossa Casa, nesta ocasião que tristemente nos reuniu aqui, para dizer algumas palavras em homenagem à memória de mais um grande colega precocemente falecido, o nosso saudoso amigo, colega e Chefe, o Embaixador, ex-Chanceler e ex-Secretário-Geral Luiz Felipe Lampreia.

É com pesar e emoção, mas é também com imenso orgulho que eu gostaria de oferecer um testemunho sobre as qualidades desse que foi um dos grandes diplomatas da sua geração e um Ministro das Relações Exteriores com uma das mais extensas gestões da história do País, culminando quase quatro décadas de serviço público.

Nesse período de intensa atividade, o Embaixador Lampreia destacou-se em vários momentos, um deles, em particular, o da abertura do Itamaraty à imprensa em um momento em que o Brasil ainda se debatia sob o peso de um regime fechado e avesso à opinião pública. Os testemunhos que tivemos o prazer de ler na imprensa, vindos de todos os quadrantes, falam, sobretudo, de um diplomata que exerceu a sua profissão não apenas com enorme competência, mas com ousadia e determinação, traços de modernidade que devem servir-nos de inspiração em todo momento.

Não me lembro, nos vários anos em que tive o privilégio de acompanhá-lo nas altas funções que desempenhou como Secretário-Geral ou Ministro de Estado, de ter presenciado um momento ou um gesto seu de hesitação, de temor, de timidez, daquela atitude timorata que tantas vezes é falsamente interpretada como boa diplomacia.

Quando tinha de tomar uma decisão importante, estudava-a com impressionante seriedade.

Nunca o vi perder tempo em detalhes inúteis, nem ter vaidades que não merecesse.

Deixou-me uma lição inesquecível sobre a importância de se ter uma enorme vida interior, outros interesses, a música, a literatura, o golfe, as caminhadas em que desprezava o carro oficial, o prazer de viver a vida com intensidade a todo momento.

Ensinou-nos que existe uma vida fora da diplomacia, sem nunca diminuir a importância que dava à diplomacia.

Por seis anos, com essa personalidade, o Ministro Lampreia chefiou o Itamaraty, em um período em que o Brasil e o mundo passavam por transformações significativas. Ele soube guiar-nos nesse processo com sua orientação firme e sua grande capacidade intelectual de analisar e compreender o mundo e o Brasil e de estabelecer as boas relações entre essas duas esferas, com realismo, pragmatismo e objetividade.

Diplomata de carreira, filho e neto de Embaixadores, o Embaixador Lampreia esteve também sempre imbuído da clara determinação de valorizar a nossa Casa e os seus servidores.

Sua experiência profissional foi ampla e diversificada, indo da diplomacia econômica ao multilateralismo político da ONU. Foi Porta-Voz do Itamaraty, Subsecretário Político, Secretário-Geral e Chanceler, além de Embaixador em postos de primeira importância para a diplomacia brasileira, como as Embaixadas em Paramaribo e Lisboa e a Missão em Genebra. Sua carreira foi uma sucessão exemplar de realizações, em que predominou o empenho em bem servir e representar o País e em fortalecer o que o Itamaraty tem de melhor, o seu corpo de funcionários e a sua capacidade de iniciativa na área das relações internacionais do País.

Com apenas 59 anos idade, no auge de sua capacidade, o Ministro Lampreia julgou haver concluído seu ciclo no serviço público. Fora do Itamaraty, continuou sendo um dos grandes nomes da reflexão sobre a política exterior do Brasil, em sua atuação no Centro Brasileiro de Relações Internacionais, na publicação de livros e artigos, no Conselho de diversas empresas e na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro.

Deixou o Itamaraty, portanto, para prosseguir uma vida igualmente produtiva, compartilhando o seu vasto conhecimento e experiência com a academia e o setor privado, numa demonstração de sua versatilidade e interesse em continuar a ajudar o País de outras formas. Sua última manifestação pública trouxe a marca do seu pragmatismo e do seu compromisso com as políticas do Estado brasileiro que ajudou a manter e consolidar, sem nenhum viés ideológico.

Se o Itamaraty sofre hoje a dor de vê-lo partir tão cedo, deve também orgulhar-se do exemplo e das lições que dele herdou. Através deles sua memória viverá e continuará inspirando a orientando a nossa Casa.

Em nome de todos os colegas do Itamaraty, transmito aos familiares do Ministro Lampreia os mais sinceros sentimentos de afeto e solidariedade de todos os amigos e discípulos que deixou no Itamaraty. Quero que tenham a certeza de que a memória e o legado de sua passagem por nossa instituição continuarão sempre conosco, inspirando-nos a dar a nossa melhor contribuição ao Brasil, que será sempre a melhor forma de honrar e preservar a sua memória.

Muito obrigado.

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