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Excelentíssimo senhor Viktor Yushchenko, presidente da Ucrânia,

Senhora (incompreensível), chefe do Secretariado do Presidente, por intermédio de quem cumprimento as demais autoridades ucranianas,

Companheiros brasileiros, ministros que me acompanham nesta comitiva,

Companheiros da imprensa brasileira e da imprensa ucraniana,

Com muita satisfação, realizo esta primeira visita oficial à Ucrânia. Seu país, Presidente, é um importante parceiro do Brasil. Construímos, em menos de duas décadas de relações diplomáticas, uma sólida aliança baseada na cooperação e na confiança mútua.

Mas os vínculos entre Ucrânia e Brasil não se esgotam em nosso relacionamento diplomático. Eles são mais profundos, vêm de longe, têm lastro humano.
Há mais de um século, milhares de imigrantes ucranianos encontraram, no Brasil, a sua segunda pátria. Têm dado relevante contribuição para o desenvolvimento do meu país. Sei que a vontade desses ucranianos brasileiros é também a de fortalecer os laços que nos unem.

Senhor Presidente,

A Ucrânia e o Brasil têm posições convergentes sobre um amplo leque de temas de interesse global. Nossa atuação nos fóruns multilaterais voltados para a questão espacial estimula a cooperação entre os dois países.

O projeto que estamos desenvolvendo para o lançamento do Cyclone-4, a partir do Centro de Lançamento de Alcântara, possui caráter extremamente estratégico. Ele sinaliza a determinação de nossos países de se tornarem atores relevantes no uso pacífico do espaço exterior.

A produção de satélites e de veículos lançadores é componente essencial do projeto de defesa do território brasileiro, e terá efeitos multiplicadores em atividades de sensoriamento remoto, serviços meteorológicos e controle do espaço aéreo.

Tenho convicção de que será possível realizar o primeiro voo de qualificação do veículo de lançamento Cyclone-4 ainda no próximo ano, em 2010.

Na esfera comercial, o Brasil é hoje o maior parceiro da Ucrânia na América Latina. Temos um comércio bilateral dinâmico, que cresceu quatro vezes nos últimos seis anos. Em 2008, superamos a marca de US$ 1 bilhão, mas esse intercâmbio está aquém das potencialidades de Brasil e Ucrânia, e das nossas economias.

Na contramão da tendência mundial, o Brasil retomou um crescimento vigoroso este ano. Isso nos dá confiança de que em 2010 a expansão do Produto Interno Bruto será igual ou superior a 5%.
O Fórum Empresarial Brasil-Ucrânia, que estamos realizando hoje, permitirá o estabelecimento de contatos e de identificação de novas oportunidades de negócios.

A parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz e o [Instituto] Indar para a produção de insulina no Brasil, tornará nossos países independentes em outras fontes de fornecimento, barateando o custo dos medicamentos.

O acordo de cooperação na área da defesa que estamos negociando abrirá um novo e promissor ciclo de cooperação bilateral. Ele permitirá explorar nossas complementaridades industriais para promover o desenvolvimento de equipamentos na área da defesa.

Em outro campo de nossa cooperação, técnicos ucranianos ajudaram a elevar a ginástica artística brasileira a um novo patamar, formando, inclusive, campeãs mundiais.

A continuidade dessa cooperação será fundamental na preparação do Brasil para os Jogos Olímpicos que realizaremos no Rio de Janeiro em 2016, e eu quero, de público, agradecer os votos da Ucrânia para que o Rio de Janeiro sediasse os Jogos Olímpicos.

Amigo Presidente,

O momento que vivemos exige de nós, líderes, uma atitude firme e coerente no enfrentamento dos grandes desafios deste início de século. A crise financeira atual é resultante da hegemonia de paradigmas econômicos e políticos profundamente equivocados, que encobriu desenfreada especulação. Dominavam teses sobre a excelência do Estado mínimo, sobre as vantagens das privatizações de empresas públicas, sobre a crítica à forte presença reguladora do Estado. Tudo isso conduziu a economia global à beira do abismo.

Mas a crise é também uma oportunidade para a construção de uma nova ordem e governança internacionais. Ela nos mostra que o mundo não pode ser regido por um clube de sete ou oito países ricos, sem levar em conta mais da metade da Humanidade.

As organizações políticas e econômicas multilaterais não podem mais prescindir do peso e da legitimidade conferida pelos países em desenvolvimento.

É impensável que o Fundo Monetário e o Banco Mundial continuem a operar nos moldes tradicionais. O Brasil não emprestou US$ 14 milhões ao Fundo, como fizeram outros países em desenvolvimento, para que as velhas práticas ficassem inalteradas.

As Nações Unidas perderam em muito a sua eficácia. Suas instituições, como o Conselho de Segurança, refletem a correlação de forças mundial de 1945. Por isso, é imperativo reformá-las para dar respostas aos complexos desafios do cenário internacional.

A esse respeito, desejo manifestar meu profundo reconhecimento à decisão do governo ucraniano de apoiar o pleito brasileiro de ocupar assento permanente em um futuro Conselho de Segurança da ONU ampliado. Com a inclusão de novos membros, o órgão responsável pela preservação da paz mundial poderá recuperar a legitimidade e a eficácia perdidas.

Na agenda ambiental, estamos comprometidos com um resultado ambicioso na Cúpula de Copenhague sobre mudança do clima. O Brasil levará a Copenhague seu compromisso voluntário de reduzir em quase 40% nossas emissões de gases de efeito estufa. Todos somos responsáveis por conciliar crescimento e proteção ambiental, mas essas responsabilidades são diferenciadas. Os países ricos não podem ignorar seus compromissos de redução de emissões.

Caro amigo presidente Yushchenko,

As decisões que tomaremos durante esta visita lançam a base para a consolidação da nossa parceria. São muitas as expectativas que nos animam a reforçar nossa agenda comum e eu estou seguro de que esse sentimento é compartilhado por Vossa Excelência.

Para o próximo ano, de 2010, nós queremos ter uma agenda de trabalho muito forte entre Ucrânia e Brasil. Nós queremos que vários ministros brasileiros visitem a Ucrânia, queremos que vários ministros ucranianos visitem o Brasil, queremos várias delegações de setores empresariais brasileiros aqui na Ucrânia, queremos vários setores empresariais da Ucrânia no Brasil, porque os dois países têm população, conhecimento científico e tecnológico e competência para desenvolver uma parceria muito, mas muito maior do que a que nós temos hoje. E não depende de ninguém, não depende de ninguém. Não depende da União Europeia, não depende da China, não depende da Índia, não depende dos Estados Unidos. Aliás, Presidente, não depende nem do dólar na nossa balança comercial. Nós poderemos tratar nas nossas moedas, para que a gente possa fazer mais negócios e ajudar as nossas pequenas empresas a trabalhar.

Nós não temos apenas o projeto de Belo Monte, que vai começar no ano que vem. Nós temos muitas hidrelétricas que nós pretendemos começar nos próximos anos, porque a hidrelétrica produz uma energia elétrica renovável, limpa. E, portanto, para atender a diminuição do aquecimento global, nós precisamos fazer as nossas inovações, também tecnológicas, na questão da matriz energética, e o Brasil tem 85% da sua matriz energética, na área de energia elétrica, limpa, e tem 47% de toda a sua matriz totalmente limpa.

Nós tomamos algumas atitudes importantes, que vamos levar para Copenhague. Nós vamos reduzir a emissão de gases de efeito estufa, entre 36,1[%] e 38,9[%]; nós vamos reduzir em 80% o desmatamento da Amazônia até 2020; nós vamos mudar a matriz energética para a produção de ferro, ou seja, em vez de utilizar carvão mineral, nós vamos utilizar carvão vegetal; nós estamos assumindo também de fazer uma revolução na agricultura brasileira, de fazer o plantio direto para não remover tanto a terra; e, ao mesmo tempo, nós estamos com o compromisso de continuar a política de biocombustíveis, tanto na área do etanol quanto na área do biodiesel.

Bem, tudo isso é uma pequena demonstração de que o Brasil, embora entenda que todos têm responsabilidade com o aquecimento global - apesar do frio que está aqui, todos nós temos que diminuir o aquecimento global -, o Brasil acha que as responsabilidades são diferenciadas. Os países que 200 anos atrás fizeram a revolução industrial e desmataram as suas florestas, têm mais responsabilidade do que os países que estão se desenvolvendo agora.

Portanto, Copenhague vai ser o momento de a gente ver quem é que está falando a verdade e quem não está falando a verdade, quem é que está jogando para a plateia e quem é que está jogando para o desaquecimento global. Vai ficar muito claro, porque o Brasil está apresentando proposta e nós queremos ouvir, não apenas que os países ricos vão diminuir o aquecimento global, vão mudar a sua matriz energética, mas nós também queremos ouvir quanto dinheiro vão colocar para a transferência de novas tecnologias, para os países em desenvolvimento não deixarem de se desenvolver por conta da diminuição de gases de efeito estufa.

Pois bem, essas coisas, eu penso que nós vamos debater em Copenhague nos dias 17 e 18 deste mês, e acho importante que a Ucrânia esteja presente, que o Brasil esteja presente e que todos os países estejam presentes, para que a gente comece a cobrar que cada um cumpra com a sua obrigação. Isso é que nem recolher lixo da casa da gente. Se cada um, dentro de casa, fizer a coleta seletiva, guardar direitinho, separar, colocar no lugar, e passar o caminhão para pegar, ninguém vai ter problema. Agora, se cada um se achar no direito de deixar o lixo jogado na rua, se cada um se achar no direito de não fazer as suas obrigações, vai ficar mais caro para todo mundo, e eu acho que o mundo precisa ter consciência de que as intempéries estão agindo de forma abrupta e diferente em vários lugares do Planeta. Pode ser que tenha gente que não acredite ainda, mas em vez de ficar esperando para deixar acontecer para a gente tomar atitude, é melhor a gente se precaver e tomar as atitudes agora.

Obrigado.


Jornalista: Bom dia, Presidente. Presidente Lula, eu queria pedir licença ao senhor, que eu vou precisar tratar de um assunto interno. O senhor disse ontem que as imagens não falam por si só. Aí eu gostaria de perguntar ao senhor: com a sua popularidade, com a sua influência, o senhor não acha que esse tipo de declaração pode ajudar a banalizar uma coisa tão grave, que é a corrupção, e que infelizmente atingiu vários países... vários partidos?

Presidente: Eu, na verdade, na verdade, eu poderia ter deixado para responder isso depois, em um outro momento em que a gente pudesse, ao terminar a minha visita, fazer uma reunião e você me perguntar isso. Porque... Não é para você, mas para mim é desagradável, a gente está acabando de assinar um acordo, com seis acordos, e na hora da pergunta a gente perguntar uma coisinha que o Presidente nem sabe o que é. Então, eu respondo. Depois, quando terminar a visita oficial, eu paro lá cinco minutos com vocês, converso e respondo sobre as coisas internas. Eu gostaria que alguém me perguntasse alguma coisa dos acordos que nós fizemos. Afinal de contas, são 14 mil quilômetros que me trouxeram aqui.

Jornalista: Pois não.

Jornalista: (em russo)

Presidente da Ucrânia: (em russo)

Jornalista: (em russo)

Presidente: Bem, primeiro, dizer ao nobre jornalista que todas as vezes em que nós assinamos acordos internacionais, nós temos problemas entre a assinatura dos acordos e o começo de funcionamento dos acordos porque cada país tem especificidades, cada país tem o Congresso que age de um jeito ou de outro, cada país tem uma legislação ambiental diferenciada e, portanto, cada país tem problemas para resolver. O que é importante é que a vinda de um presidente a outro país apressa as decisões. Então, tudo aquilo que estava demorando, quando a gente marca uma agenda, ou para o presidente Yushchenko visitar o Brasil, ou para que eu visite a Ucrânia, as coisas que estavam travadas destravam e começam a funcionar. Em Alcântara, só para o jornalista ficar bem informado e ser o mais informado da Ucrânia a esse respeito, nós temos em Alcântara uma comunidade que é afro-brasileira, uma comunidade que nós chamamos de quilombolas. São descendentes de escravos que moram nessa área, e para que a gente faça qualquer coisa lá, é preciso que a gente faça um acordo com eles, da forma mais democrática possível, para que não haja nenhuma reação dessa gente, que é muito pobre e que precisa da contrapartida do Estado brasileiro.
Depois, nós temos a questão ambiental, que é preciso a gente fazer um cumprimento de todas as leis que nós mesmos aprovamos, para que a gente possa, então, lançar o nosso foguete no melhor lugar que nós temos. Se você chegar em casa hoje ou na redação do jornal e pegar o mapa do mundo, você vai perceber que Alcântara está quase na mesma direção da linha do Equador. Portanto, é um lugar extremamente apropriado. E eu espero que, como o meu mandato termina no dia 31 de dezembro, à meia-noite de 2010, eu espero que eu ainda possa inaugurar o lançamento desse satélite.

Jornalista: (em russo)

Jornalista: Boa tarde, Presidente. Queria saber, essa aproximação na área militar com a Ucrânia, o que ela indica sobre a estratégia de defesa do Brasil? E a outra pergunta é: o que o Brasil pode aprender com a Ucrânia sobre o uso seguro de energia nuclear, diante dessa... da tragédia nuclear que aconteceu aqui na Ucrânia?

Presidente: Olha, primeiro, acho que o acordo Brasil-Ucrânia permite que nós possamos fazer uma troca de experiências na área do conhecimento científico e tecnológico, e também na área militar. Todos vocês acompanharam que o ministro Jobim apresentou a mim e depois apresentou ao Congresso Nacional um planejamento estratégico para as Forças Armadas brasileiras, que vai até 2020. Ora, e passa pelo fato de a gente reconstruir uma série de coisas que nós precisamos construir: preparar o Brasil para a importância que o Brasil terá em 2020; preparar o Brasil para cuidar de um patrimônio excepcional, que é a Amazônia; preparar o Brasil para cuidar de uma costa marítima de 8.500 quilômetros, agora, com a existência do pré-sal; preparar o Brasil para cuidar de uma fronteira de mais de 15 mil quilômetros. Na verdade, o Plano Estratégico de Defesa pensa em dar às Forças Armadas brasileiras a modernidade que um país do tamanho do Brasil precisa ter. E obviamente que a troca de experiência na área de tecnologia, que tem a Ucrânia, para nós é muito importante.

Jornalista: (incompreensível)

Presidente: Veja, eu não posso dizer, porque o ministro Jobim vai ficar aqui, vai fazer uma visita, vai conhecer, vai conversar, depois é que ele vai me dizer no que é possível a gente fazer acordo. Antes, seria hipótese; e esse negócio de hipótese em relação às bilaterais entre dois Estados, não dá para ficar discutindo sobre hipóteses. Nós vamos discutir sobre tudo, ou seja, o que tem a Ucrânia, em que a Ucrânia pode estabelecer parceria com o Brasil, o que pode ser feito de troca, o que a Ucrânia pode aprender com o Brasil, o que o Brasil pode aprender com a Ucrânia. É para isso que a gente tomou a decisão de intensificar as visitas ministeriais e as visitas empresariais a partir do próximo ano, tanto no Brasil quanto na Ucrânia.

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