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Obs: Por problemas técnicos, não foi gravado o início da entrevista

Jornalista: ... quanto para a chanceler Merkel. No comunicado conjunto distribuído agora há pouco, Brasil e Alemanha falam em um cronograma de ajustes de Copenhague. E, para chegar a um acordo vinculante, aparentemente aqui, segundo o comunicado, para um acordo vinculante no futuro. A minha pergunta é a seguinte: se isso significa que tanto o Brasil quanto a Alemanha não acreditam que seja possível conseguir um acordo definitivo agora, na cúpula de Copenhague, que será preciso discutir esse acordo, e que esse acordo só vai surgir no futuro. E quais são os principais empecilhos para que se consiga agora um acordo definitivo? Obrigado.

Presidente: Olhe, eu, como sempre, na minha vida, trabalho com uma dosagem de otimismo acima da média de outros seres humanos. Eu acho que nós não vamos fazer o acordo dos nossos sonhos em Copenhague porque, possivelmente, não tenhamos aprofundado a discussão na qualidade que nós deveríamos aprofundar. E é sempre difícil, porque cada presidente estará tomando posição em função da sua política interna, em função da correlação de forças estabelecidas internas. Eu não tenho dúvida nenhuma de que, se dependesse da vontade pessoal do presidente Obama, ele teria um número mais arrojado do que o número que ele apresentou ao Congresso Nacional, que está mais conservador com relação a isso. Nós temos os chineses, que têm uma proposta em função da realidade política da China; nós temos um maior avanço na União Europeia, e um maior avanço na posição do Brasil. No Brasil, todo mundo sabe, nós tomamos uma decisão, não apenas de uma proposta com metas arrojadas, com metas mensuráveis, com o [a redução do] desmatamento da Amazônia em 80% até 2020 - em 2009 tivemos o menor desmatamento em 20 anos; nós vamos mudar parte do jeito de fazer agricultura no Brasil; nós vamos aprimorar o setor siderúrgico; nós vamos aprimorar o setor energético. E é importante a imprensa saber que, na energia elétrica, 85% do Brasil é limpa, e, na matriz geral, 47% da energia brasileira é limpa. Nós fizemos uma proposta arrojada, de 36,1[%] a 38,9[%] e, para minha felicidade, foi aprovada no Senado e na Câmara e foi transformada em lei. Significa que, agora, quem entrar no governo do Brasil, até 2020, tem que cumprir aquelas metas. E é com essas metas do Brasil que eu vou, junto com a primeira-ministra Angela Merkel, a Copenhague tentar conversar com outras pessoas para ver se a gente consegue estabelecer uma meta mínima que dê para a Humanidade a certeza de que nós vamos trabalhar fortemente para desaquecer o Planeta.

Jornalista: Eu gostaria de perguntar sobre a Conferência de Copenhague. Entre os países emergentes tem reservas contra metas vinculantes, no que se refere aos dois graus, no caso. Senhor Presidente, o senhor acha que para o Brasil, para países emergentes já há esse consenso de que os dois graus não vão ser ultrapassados, um consenso, portanto, em Copenhague? E até que ponto os países industrializados, que são considerados pelos emergentes como causadores principais, quais as metas que os países industrializados deveriam apresentar, avançando, portanto, com metas ambiciosas?

Presidente: Olha, se eu tivesse um número ideal que os países desenvolvidos deveriam apresentar, ainda assim eu não falaria aqui, para que pudéssemos concluir o acordo lá em Copenhague. De qualquer forma, os países ricos têm certeza de que ao estabelecermos meta de 2% e cada país estabelecer meta de diminuição de emissão de gases de efeito estufa, é preciso que haja a compreensão da necessidade da transferência de tecnologias e de financiamento para que os países pobres possam crescer sem poluir o mundo, como nós poluímos quando se começou a se desenvolver, cem anos atrás.

Lógico que eu estou convencido de que nós não iremos fazer o acordo nem dos sonhos da Angela Merkel, nem dos meus sonhos, nem dos sonhos de nenhum presidente da República. Mas eu penso que todos nós temos consciência de que vamos ter um avanço importante para que, em 2015, possamos nos reunir outra vez e aperfeiçoar um pouco mais, e, quem sabe, a gente definir claramente a responsabilidade de cada um.

Nós temos a China, que é um parceiro importante, que temos que convencer a China a dar um passo importante; nós temos a Índia, que precisamos convencer a dar um passo importante; nós temos muitos países africanos, que nós precisamos ter políticas próprias de financiamento para que a África possa se desenvolver sem cometer os mesmos erros que foram cometidos no começo da Revolução Industrial.

Então, é um tema novo e, por ser um tema novo, eu acho que está tudo em aberto para a gente discutir. É um tema que não tem questão fechada. Antigamente, quando você ia discutir a questão do Socialismo ou não, você tinha os que já tinham lido o Manifesto, os que nunca tinham lido o Manifesto e eram contra. Então, estavam todos com posições marcadas, contra e a favor.

Agora, não. Agora nós vamos discutir um tema que todo mundo está aprendendo sobre ele, que ainda tem incompreensões científicas sobre ele, mas que nós já temos uma clareza: o planeta Terra é redondo e todos nós seremos vítimas do aquecimento global. Então, nós temos que cuidar com muito carinho. E não adianta correr riscos. Temos que fazer o que for necessário fazer para que vivamos num mundo melhor e, sobretudo, que os nossos bisnetos possam ter um clima mais confortável do que a nossa geração.

Jornalista: Presidente, Frau Merkel. Fernando Duarte, jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Obviamente, por ser do Rio de Janeiro, eu prestei atenção nesse capítulo das Olimpíadas, dessa cooperação para a segurança. Estou um pouco mais curioso em saber como é que essas parcerias vão se desenvolver, sobretudo na questão da reforma das instituições de segurança pública no Brasil e no Rio de Janeiro. Se a Frau Merkel pudesse me explicar um pouquinho mais sobre que tipo de experiências os alemães podem prestar. Eu estive aqui no (incompreensível), e foi uma Copa do Mundo maravilhosa, em termos de segurança e de organização, e eu gostaria muito de saber o que vocês podem ensinar para a gente, nesse sentido.

Chanceler da Alemanha: __________________

Presidente: Nós temos que ter com clareza. Veja, o Brasil, a interesse tanto da Confederação Brasileira, quanto na Copa do Mundo, quanto o COI, para as Olimpíadas, quanto do governador do estado, do prefeito e do governo federal, há um compromisso de que a gente, na questão da Copa do Mundo, a gente aprenda com a Alemanha o que aconteceu aqui, e depois a gente faça uma experiência com o que aconteceu na África do Sul, e a gente pegar as últimas três Copas, para a gente fazer uma média dos acontecimentos. Da mesma forma que nós queremos chamar Pequim para nos ajudar a pensar as Olimpíadas, queremos chamar outros países que realizaram Olimpíadas, para que a gente vá tirando uma média das boas coisas que aconteceram, e das más coisas que aconteceram. Isso tudo já está programado nós fazermos. Com relação à questão da segurança, eu não tenho dúvida nenhuma de que o Brasil fará uma Copa do Mundo extraordinária, e que quem for visitar o Brasil vai perceber a índole extraordinária do povo brasileiro. Ali, a verdade é que nós temos problemas gerados por questões sociais, gerados por narcotráfico. Mas quando se trata de eventos internacionais, os Jogos Pan-Americanos foram um exemplo extraordinário. Nós só temos um probleminha de ter um pouco de violência: é se o Brasil não ganhar a Copa do Mundo realizada no Brasil. Porque temos um trauma de 1950, quando ganhamos de todo mundo, fomos fazer a final com o Uruguai, o Brasil era totalmente favorito, e perdemos de 2 a 1. Ou seja, se a gente estiver em uma situação boa, for para a final, e perder, eu nem sei como é que você, que fez a pergunta, vai se comportar. De qualquer forma, eu acho que nós queremos fazer uma Copa do Mundo exemplar. Até porque eu acho que o Brasil está naquela fase em que, todo santo dia, nós temos que provar alguma coisa para os outros. Então, nós queremos provar que vamos fazer uma grande Copa do Mundo e que vamos fazer uma grande Olimpíada. E certamente que não vamos prescindir das experiências acumuladas na Alemanha e em outros países. Mesmo se perder, aí podemos contribuir com a nossa experiência, porque a Alemanha até se alegrou com o terceiro lugar.

________: A última pergunta.

Jornalista: Senhora Chanceler, a senhora mencionou que também falaram sobre o Irã. Gostaria de saber se acredita que o Brasil pode... quer dizer, se o Brasil... os estados europeus têm a mesma perspectiva no que se refere ao problema. Gostaria de saber do senhor Presidente como é que avalia a visita do presidente Ahmadinejad ao Brasil, que foi vista com alguma crítica aqui, a partir da Europa. Eu me informei sobre a visita do...

(Interrupção no áudio)

___________ ...realizar determinados objetivos.

Presidente: Olha, o melhor e o mais barato para todos nós é acreditarmos nas negociações e termos muita paciência. Eu penso que tratar o Irã como se fosse um país insignificante, aumentando a cada dia a pressão sobre o Irã, poderá não resultar numa coisa boa. Como o Irã é um país de uma cultura muito forte, de 80 milhões de habitantes, com problemas internos muito grandes, nós precisamos aumentar o grau de paciência, para aumentar o grau de conversação com o Irã. Eu tive a sorte de, na mesma semana, ter o Presidente de Israel, o Presidente da Autoridade Palestina e o Presidente do Irã. Conversei muito com cada um deles, e eu penso que há sempre uma brecha para que a gente encontre um jeito de as pessoas concordarem que a paz é muito mais barata e muito mais eficaz do que a guerra.

Portanto, eu já conversei isso com a minha querida amiga Angela Merkel hoje; conversei com o presidente Obama, em Pittsburgh; conversei com o Sarkozy, conversei com o Gordon Brown: é preciso estabelecer uma nova linhagem, um novo tipo de conversação para ver se a gente diminui o grau de desconfiança generalizada existente hoje; cria-se um clima de confiança para a gente poder sonhar com a negociação.

E a minha posição é muito clara. O meu país tem, na Constituição - não é uma decisão do governo -, está aprovado na Constituição brasileira, feita em 1988, que é proibida a utilização de armas nucleares. E nós, no Brasil, temos enriquecimento de urânio para produzir energia elétrica. E o que nós queremos com o Irã? É o mesmo que o Brasil tem. O mesmo que o Brasil aceita para si, nós aceitamos para o Irã.

Eu acho que somente [com] a conversa é que a gente pode fazer uma concertação capaz de criar um clima de concordância ali, no Oriente Médio. Eu não sei se sou ingênuo, não sei se sou muito otimista, mas eu acredito muito, muito, na capacidade de convencimento e de diálogo das pessoas. Nós estamos tentando dar a nossa contribuição, e eu espero que aconteça o melhor, que não tenha arma nuclear no Irã e que não tenha arma nuclear em nenhum país do mundo. E que os Estados Unidos desativem as suas, que a Rússia desative as suas, porque autoridade moral para a gente pedir para os outros não terem, é a gente também não ter.

Então, é importante... Eu sou um país que assinou, na Constituição, a não proliferação de armas nucleares. Portanto, eu estou muito tranquilo para dizer. Agora, é importante que os que têm comecem a desmontar os seus arsenais, para que a gente tenha mais argumentos para convencer os outros.

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